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Os governantes tremem enquanto as massas nepalesas queimam o sistema! 

Texto original de Jack Halinski-Fitzpatrick, 10 Setembro 2025

Traduzido por Damas Morais, 11 Setembro 2025

Manifestantes incendiaram o parlamento federal, o Supremo Tribunal, as sedes de partidos políticos e as casas de altos dirigentes. O Primeiro-Ministro demitiu-se, juntamente com vários ministros do governo. O exército está a evacuar políticos das suas casas. Depois de anos a viver em pobreza esmagadora, a juventude nepalesa fartou-se. Subiram ao palco da história.

Karl Marx descreveu como, no capitalismo, “a acumulação de riqueza num dos polos é, ao mesmo tempo, acumulação de miséria, de sofrimento no trabalho, de escravidão, de ignorância, de brutalidade e de degradação mental no polo oposto.” O Nepal é um exemplo perfeito desse processo.

O salário médio no país é de 1400 dólares por ano, com cerca de uma em cada cinco pessoas a viver na pobreza. A taxa de desemprego está nos 10,7%, enquanto o desemprego jovem atinge os 20%. Os 10% mais ricos detêm 40% da terra, enquanto uma enorme parte da população tem pouca ou nenhuma propriedade.

Esta situação desesperada obriga cerca de mil pessoas por dia a deixar o país em busca de trabalho no estrangeiro. No total, há cerca de dois milhões de nepaleses nessa condição. Estes enviam remessas que correspondem a 26% do PIB nacional, e metade das famílias nepalesas depende desse apoio para sobreviver.

Enquanto as massas lutam para viver com o mínimo, uma pequena elite privilegiada desfruta de luxos que a maioria só pode imaginar. Isto tem provocado uma enorme raiva  que se refletiu numa trend nas redes sociais. Multiplicam-se vídeos no TikTok a mostrar o contraste entre as vidas dos ricos e as da maioria. Muitos focam-se especialmente nos chamados “nepo babies”: filhos privilegiados de políticos e empresários.

O filho do político Bindu Kuma Thapa (do partido no poder, Congresso Nepali), acusado de corrupção, aparece ao lado de uma árvore de Natal. Mas não é uma árvore feita de tronco e folhas; mas de caixas da Louis Vuitton, Gucci e Cartier!

Esse vídeo viralizou com a hashtag #PoliticiansNepoBabyNepal. Outro exemplo mostra o filho do antigo presidente do Supremo Tribunal, Gopal Parajuli, rodeado de carros de luxo e em restaurantes caríssimos, com a descrição: “A ostentar abertamente carros e relógios de luxo nas redes sociais. Ainda não estamos fartos disto?”

Nos últimos anos têm surgido escândalos atrás de escândalos, todos a expor a corrupção descarada do topo da sociedade nepalesa. No ano passado, vários altos funcionários foram condenados por desviarem até 10.4 milhões de dólares num acordo com a Airbus em 2017. 

No ano anterior, vários ex-ministros foram acusados no “escândalo dos refugiados butaneses”, que consistia em arrancar dinheiro a nepaleses pobres enquanto prometiam trabalho nos EUA, apresentando-os falsamente como refugiados. Exemplos de corruptos como estes a pilharem o povo não faltam.

Proibição das redes sociais

Neste contexto, na quinta-feira 4 de setembro, o governo proibiu 26 plataformas, incluindo WhatsApp, Facebook, Instagram e YouTube.

Alegaram que a medida servia para combater “fake news”, “discurso de ódio” e “fraudes online”. Este governo de corruptos dizia que pessoas com identidades falsas estavam a cometer “cibercrime” e a “perturbar a harmonia social”. Exigiram por isso que as empresas de redes sociais nomeassem representantes no país. As que não cumprissem seriam banidas.

Estas desculpas foram imediatamente reconhecidas pelo que eram: mentiras descaradas para justificar a repressão de direitos democráticos.

Como quase 8% da população vive no estrangeiro, esta medida cortou de repente os nepaleses do contacto com os seus familiares.

Engels dizia que a democracia burguesa é a melhor forma de governo para o capitalismo, porque dá às pessoas a ilusão de que podem mudar alguma coisa. Mas, para realmente manter esta democracia burguesa, é necessário conseguir oferecer algo às massas. Sem pão para lhes dar, o governo nepalês optou por restringir direitos democráticos das massas para travar qualquer oposição.

Os acontecimentos

Na segunda-feira, 8 de setembro, pelas 9h, realizou-se um protesto anunciado como “manifestação pacífica com eventos culturais e divertimento”, segundo os organizadores. Embora tivesse sido desencadeado pela proibição das redes sociais, a revolta ia muito além dessa medida. Como disse um manifestante: “mais do que contra a proibição das redes sociais, estamos aqui para acabar com a corrupção”.

Outro participante, Aayush Basyal, explicou que havia uma enorme presença de jovens, inspirados pelos protestos no Sri Lanka e no Bangladesh, bem como pelos vídeos no TikTok que denunciavam a desigualdade. Outro jovem afirmou que estava ali a “lutar pelo nosso futuro”, e que sonha “um país livre de corrupção, onde todos possam aceder facilmente à educação, à saúde e a um futuro digno”.

Este descontentamento vinha-se acumulando há muito tempo. Em 2006, após uma insurreição maoísta crescente, rebentou um movimento que acabou com a monarquia de dois séculos, abolida oficialmente em 2008. Desde então, estiveram no poder 14 governos diferentes, nenhum terminou o mandato de 5 anos e nenhum melhorou as condições de vida do povo.

O Primeiro-Ministro KP Sharma Oli, do Partido Comunista do Nepal (Marxista-Leninista Unificado), que se demitiu ontem, era já o quinto chefe de governo em apenas cinco anos. Estava em coligação com um partido burguês, algo habitual na política nepalesa desde 2008. O principal partido da oposição, o Partido Comunista do Nepal (Centro Maoísta), esteve no poder até 2022 em coligação com o partido monárquico!

Existem inúmeros partidos auto-proclamados “Comunista”, que sempre que chegam ao governo limitam-se a gerir o capitalismo e a aplicar a austeridade que a classe dominante exige. E também eles têm os seus “nepo babies”. A neta de Pushpa Kamal Dahal, líder do Centro Maoísta, foi criticada pelo povo após um casamento extravagante. Tudo isto descredibilizou-os completamente.

A queda da monarquia foi um grande passo, mas não mudou a vida da maioria. A raiva acumulada precisava apenas de uma faísca, e esta surgiu no 8 de setembro.

Segundo o New York Times, milhares de jovens marcharam neste dia em direção ao parlamento. Foram travados por uma linha de policias. Os manifestantes conseguiram mesmo assim ver “deputados a observá-los do telhado do parlamento”. 

Dias antes, Oli tinha afirmado que os manifestantes “não sabem pensar de forma independente e ainda querem falar sobre independência”. Muitos sentiram isto como gozo vindo de políticos corruptos e desligados da realidade. As pessoas que estavam na rua queriam apenas condições de vida dignas, mas acabaram tratadas como idiotas. Um manifestante anónimo disse que isso “alimentou” uma raiva “insana”.

A multidão rompeu as barreiras, forçou a polícia a recuar e cercou o parlamento. A polícia respondeu com gás lacrimogéneo e canhões de água, mas foi incapaz de travar a onda de gente. “Às 13h, o local era caos”, com balas de borracha e nuvens de gás.

Um manifestante contou que viu alguém “a gritar contra a polícia e, segundos depois, cair morto no chão”. A polícia estava a disparar munições reais. 

Em vez de conter a revolta, isto incendiou ainda mais o povo. Lutaram com o que tinham à mão, sejam paus ou garrafas, e alguns conseguiram entrar no parlamento. A revolta espalhou-se para Biratnagar, Bharatpur e Pokhara, enfrentando sempre repressão brutal. No total, 19 mortos e até 400 feridos.

Em pânico, o governo decretou recolher obrigatório em redor de edifícios governamentais, mas foi ignorado. Nessa noite, milhares concentraram-se de novo à porta do parlamento. Um jovem de 23 anos disse: “quase 20 pessoas foram assassinadas pelo Estado”. Está na  altura dos assassinos “assumirem responsabilidade”.

A raiva explodiu como dinamite. Cada refeição saltada, cada salário atrasado, cada vídeo de ostentação da elite acumulou-se até rebentar numa fúria de vingança. Os manifestantes incendiaram o parlamento, sedes de partidos, o Supremo Tribunal e casas de políticos. Até tentaram destruir o aeroporto para travar evacuações de políticos em helicópteros militares. Ficou claro que, quando as massas se levantam, nada as pode parar.

Assustados, os ministros recuaram. O governo levantou a proibição das redes sociais, prometeu investigar a violência, pagar apoio às famílias das vítimas e tratar os feridos. Oli, a chorar lágrimas de crocodilo, disse estar “profundamente triste”. Mas os protestos não pararam.

Quando um movimento revolucionário está em ascensão, há muito pouco que o possa travar. Se o governo recorre à repressão, apenas enfurece as massas e leva-as a agir ainda mais. Se faz concessões, isso também só incentiva a continuar; A ação está, no final de contas, a dar resultados!

A burguesia e o governo, nesta fase, estavam em pânico cego. Uma sucessão de ministros demitiu-se, como ratos a fugir de um navio a afundar-se. Para além disso, havia descontentamento dentro do próprio partido do Primeiro-Ministro. Esse partido chama-se “Partido ‘Comunista’ do Nepal (Marxista-Leninista Unificado)”, e tudo o que fez enquanto esteve no poder foi participar na gestão do sistema capitalista.

Vários membros do partido, tanto a nível local como central, começaram a demitir-se em protesto contra o que estava a acontecer. Alguns talvez por consciência, mas outros claramente apenas por medo da fúria das massas.

Eventualmente, na manhã de terça-feira, o Primeiro-Ministro Oli acabou por ceder. Explicou que, “em vista da situação adversa no país”, se demitia para “resolver” os problemas “politicamente e em conformidade com a constituição”. Na realidade, esteve longe de ser uma demissão voluntária: teve de ser evacuado de helicóptero pelo exército.

Isto é uma vitória fantástica. As massas do Nepal enfrentaram as forças da repressão, forçaram uma reversão da política do governo e depois o colapso do próprio governo.

O que importa sublinhar, no entanto, é que esta é apenas uma vitória numa batalha. A guerra continua por vencer. E os inimigos das massas nepalesas estão a lamber as feridas e a reagrupar-se. O Presidente, que continua no cargo, apelou à “unidade nacional”. Pediu “a todos, incluindo os cidadãos em protesto, que cooperassem para uma resolução pacífica” da situação. E apelou a “todas as partes para que exercessem contenção”. Mas o Presidente fala de unidade nacional como se ricos e pobres no Nepal fossem parte da mesma nação; com desigualdades tão brutais, os ricos vivem praticamente noutro planeta!

Além disso, o Exército do Nepal decretou um recolher obrigatório em todo o país e publicou uma declaração a pedir às pessoas que “exercessem contenção”. O facto de o Presidente e o Exército terem de implorar aos manifestantes para se conterem mostra que não controlam a situação. Como descreveu um jornalista, durante algum tempo pareceu até que “não havia ninguém no comando”. As massas não puderam ser travadas pela repressão, mas também não havia uma força a guiar e organizar essa energia elementar.

Na noite de ontem, os serviços de segurança emitiram um apelo conjunto para “uma resolução pacífica através do diálogo, a fim de restaurar a ordem e a estabilidade”. Como Marx explicou, no fim de contas o Estado não é mais do que corpos armados de homens em defesa da propriedade privada. Os oficiais, chefes da polícia e altos burocratas do Estado foram cuidadosamente selecionados e formados para representar os interesses da burguesia, nada mais, nada menos.

Quem luta por mudanças no Nepal deve prestar muita atenção às palavras destas pessoas. O que é que elas querem? Querem acabar com a corrupção ou pôr a riqueza do Nepal ao serviço de todos? Não! Querem “restaurar a ordem e a estabilidade”. Ou seja, querem voltar ao que se vivia no domingo 7 de setembro, talvez com uma mudança de nomes no topo. Mas isso significaria a mesma pobreza, o mesmo desemprego e a mesma corrupção.

Há ainda a questão geopolítica. O Nepal não pode ser visto isoladamente. Há uma luta pelo poder em toda a região. A Índia foi tradicionalmente a principal potência a dominar o Nepal, mas o Primeiro-Ministro Oli era visto como mais próximo da China. Com a sua saída, as potências imperialistas já andam a rondar, à procura de pôr “o seu homem” no poder.

E agora?

Uma figura que ganhou destaque recentemente foi Balendra Shah, o presidente da câmara de Katmandu. Tornou-se conhecido como artista de hip-hop, com músicas contra a corrupção, e em 2022 venceu as eleições contra todos os partidos estabelecidos.

Venceu precisamente por ser visto como um candidato “de fora”. Mais uma vez apelou às massas para mostrarem “contenção”. Insinua que a vitória já está alcançada porque “o vosso assassino se demitiu”. A partir de agora, diz, “é a vossa geração que deve liderar o país”.

De forma semelhante, uma ONG chamada Hami Nepal, criada por outro rapper, Sudhan Gurung, divulgou uma lista de exigências, incluindo:

  1. A demissão imediata deste governo;
  2. A demissão de todos os ministros em todas as províncias;
  3. Julgamento rápido e implacável dos responsáveis pelos assassinatos de manifestantes inocentes;
  4. Formação de um governo interino liderado pela juventude, com uma visão de futuro justo e responsável.

Mas é preciso dizer a quem se inspira nos acontecimentos no Nepal: isto não chega! É excelente que as massas nepalesas tenham tirado lições do que aconteceu no Bangladesh e no Sri Lanka. Mas, além da inspiração, esses exemplos trazem um aviso duro. Apesar do heroísmo incrível das massas nesses países, nada mudou realmente.

No Bangladesh também houve um movimento juvenil contra a pobreza, a opressão e a desigualdade. Esse movimento derrubou o governo de Sheikh Hasina e alguns líderes da revolta chegaram a integrar o novo governo. Mas, como não houve ruptura com o capitalismo, a pobreza, a opressão e a desigualdade continuam.

A verdade é que o capitalismo é a raiz dos problemas das massas, sobretudo nos países menos desenvolvidos, dominados pelo imperialismo.

Como disse um manifestante: “A demissão do Primeiro-Ministro não chega.” É hora de “quebrar o ciclo” dos partidos nacionais que chegam ao poder sem mudar nada de fundo para as massas.

No fim de contas, para vencer, as massas nepalesas não podem ser enganadas por tentativas de trazer alguns líderes do movimento para o governo sem derrubar o capitalismo.

A necessidade de liderança

O Nepal, o Sri Lanka, o Bangladesh e a Indonésia são exemplos recentes de revoluções. Em tempos “normais”, a maioria das pessoas não presta grande atenção à política, seja porque não tem tempo, depois de longas jornadas de trabalho, seja porque não tem esperança, já que nada muda. Muitas vezes é uma mistura das duas coisas.

Mas há momentos em que a raiva das massas atinge tal ponto que rompe todas as barreiras e empurra-as diretamente para a política. Foi assim que Trotsky definiu uma revolução.

Quando as massas entram em cena, fazem-no inevitavelmente com alguma ingenuidade. Aprendem depressa, percebem que o Estado é um instrumento de repressão ao serviço da propriedade privada. Não aprendem isso a ler “O Estado e a Revolução”, mas a levar com canhões de água em cima.

O problema é que as massas não conseguem lutar para sempre. Ver amigos morrer, ser sufocado por gás lacrimogéneo ou fugir em pânico da polícia vai esgotar qualquer um. Por isso, muitas vezes, não chegam a identificar a tempo o caminho necessário a seguir.

É aqui que entra a liderança revolucionária. As revoluções acontecem quer haja marxistas revolucionários ou não. Basta ver as notícias hoje em dia para confirmar isto. O que determina se uma revolução vence ou não é se tem a liderança certa.

Se existisse hoje, no Nepal, um partido comunista genuíno, enraizado nas massas e suficientemente forte para ser ouvido, toda a situação poderia transformar-se. Esse partido poderia acelerar o processo de aprendizagem das massas, ganhar passo a passo a direção da classe trabalhadora e levá-la ao poder.

O que vimos no Nepal parece-se muito com a Revolução de Fevereiro de 1917 na Rússia. As massas já mostraram o seu poder ao derrubar o Primeiro-Ministro. Mas ainda não parecem ter consciência suficiente para ir até ao fim e derrubar o capitalismo. O que falta no Nepal é precisamente um partido bolchevique, que guiasse as massas até à vitória.

A classe dominante não consegue neste momento controlar o movimento nem com repressão nem com concessões. As massas, porém, ainda não sabem qual o próximo passo. Se houvesse um partido suficientemente forte para convocar trabalhadores e camponeses a formar comités em defesa da chamada “Revolução da Geração Z”, em cada bairro e cidade, e depois eleger representantes para um comité de coordenação nacional, isso seria o primeiro passo para criar uma forma de poder completamente nova.

Em vez de trocar os políticos que gerem este sistema podre, seria possível ter um governo dos trabalhadores. E, se isso acontecesse, poderiam facilmente apelar aos trabalhadores e camponeses da Indonésia e de outros países para fazerem o mesmo. Isso seria uma faísca que colocaria em chamas todo o continente asiático.

Revolucionários de todo o mundo devem prestar muita atenção ao Nepal. Um jornalista no país disse que todos estão “surpreendidos e chocados” com o que aconteceu. Ninguém “pensou que escalasse a este nível”. A palavra de ordem de hoje, então, é esperar o inesperado.

Em quase todos os países do mundo, neste momento, há imensa pressão sobre as condições de vida, um ódio profundo ao sistema e às instituições, e não há grandes derrotas recentes da classe trabalhadora na memória.

Não podemos saber exatamente onde ou quando acontecerá a próxima explosão revolucionária. Mas as condições que existem hoje no Nepal existem também em grande parte do planeta. O Nepal de hoje será o Reino Unido, a França, os EUA e tantos outros países amanhã.

As revoluções vão acontecer. O que determinará a sua vitória é se houver partidos revolucionários construídos a tempo para as guiar até ao triunfo.

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