Artigo de Gabriel Torres (CCR Norte)
No dia 17 de Janeiro, num reduto da vanguarda de esquerda da Livraria Trama, no Porto, realizou-se uma intervenção de importância prática considerável: a apresentação da obra “A Ameaça do Fascismo e Como Combatê-la” de Ted Grant. O evento, organizado graças ao trabalho empenhado do camarada Eurico – que assegurou o espaço e coordenou a colagem dos cartazes de propaganda –, longe de um mero exercício académico, assumiu o caráter de uma necessária clarificação cientifica, uma arma para a futura batalha de classes. O sucesso material foi notável: 20 exemplares do livro foram vendidos, um triunfo para a difusão das ideias do CCR.
O camarada Rui iniciou a exposição traçando os vínculos orgânicos entre a obra de Grant e a tradição da Internacional Comunista Revolucionária, demonstrando como o seu percurso emerge das lições da luta de classes, em particular das traições da social-democracia e do estalinismo. Situou o texto no contexto do pós-Segunda Guerra Imperialista, analisando as causas da derrota operária perante o fascismo: a política fatal da social-democracia, que alimentou ilusões parlamentares, e a política sectária do estalinismo, que dividiu a classe com a teoria criminosa do “social-fascismo”, impedindo a Frente Única.
Aqui, o camarada Rui insistiu num ponto central: a necessidade científica de uma delimitação rigorosa do conceito de fascismo. Alertou contra o vírus oportunista de chamar “fascismo” a toda a reação, bonapartismo ou autoritarismo estatal. Isto não é preciosismo teórico, mas uma questão de vida ou morte. O fascismo é uma forma específica de bonapartismo que surge de baixo, como um movimento de massas da pequena-burguesia arruinada e do lumpemproletariado, financiado pelo grande capital em crise orgânica. Confundi-lo com fenómenos como o governo Trump ou Bolsonaro dilui a ameaça real e desarma a classe operária para o combate decisivo. A única força capaz de o barrar é a união da classe trabalhadora, tarefa que exige a construção do partido revolucionário.
A análise do presente e o papel da vanguarda
A palavra passou então ao camarada Dinis, que transportou a análise para o terreno movediço do presente. A cerca da realidade portuguesa, abordou o fenómeno do partido Chega. A sua análise recusou tanto a histeria pequeno-burguesa quanto a acomodação oportunista. Sim, nas fileiras do Chega pululam fascistas convictos. No entanto, o Chega, enquanto fenómeno de massas atual, não é um partido fascista o que nãos significa que não possa evoluir para tal.
A sua base eleitoral inclui uma parcela da classe trabalhadora mais atrasada e desiludida. O seu discurso demagógico “anti-sistema” funciona, para estes setores, como o único meio disponível e inconsciente de manifestar revolta contra a degradação das condições de vida, após o falhanço da esquerda reformista no poder nos anos 2015-2023. O Chega parasita este mal-estar legítimo, canalizando-o para a xenofobia e o autoritarismo. O camarada Dinis foi claro: este disfarce será desmascarado.
O papel do Coletivo Comunista Revolucionária (CCR) é, portanto, duplo e determinado: formar quadros politicamente avançados, armados com a teoria marxista, e, através deles, intervir no movimento real da classe. O objetivo é desmascarar a demagogia reaccionária e oferecer uma saída revolucionária consciente para o mesmo descontentamento, preparando o proletariado para tomar a direção correta da revolução comunista.
O debate, a clareza teórica e um avanço organizativo concreto
O debate centrou-se nas questões de delimitação: porque não considerar o Chega ou os EUA de Trump como fascistas? As respostas foram firmes: por mais reaccionários que sejam, ainda não podemos qualificá-los como fascistas no sentido científico. Neles existem indivíduos e tendências fascistas, mas a caracterização de um regime ou partido como fascista é uma determinação objetiva do seu carácter de classe e base social.
Foi salientado com um argumento material irrefutável: se estivéssemos sob um regime fascista, não estaríamos ali, numa livraria pública, a discutir livremente como combatê-lo. Estaríamos na clandestinidade. A existência desse espaço é um indicador do caráter “normal” do Estado burguês atual.
Um camarada levantou uma questão crucial sobre a composição atual da classe, argumentando que a classe operária industrial tradicional, concentrada nas grandes fábricas, teria desaparecido, e que nas greves gerais recentes via-se sobretudo jovens estudantes e funcionários públicos, não o operariado clássico. Duvidou, assim, da capacidade de união da classe trabalhadora contra o fascismo.
A resposta foi clara e fundamentada. Em primeiro lugar, a classe trabalhadora nunca foi tão numerosa e concentrada nos centros urbanos como hoje. A pequena-burguesia, base social crucial para o fascismo, está em redução devido à concentração de capital. Em segundo, se os grandes complexos fabris do passado diminuíram, as ferramentas de comunicação modernas (como o telemóvel) oferecem novos e poderosos meios de organização e coordenação. Por fim, quanto à greve: muitos trabalhadores do setor privado abstêm-se por medo justificado de represálias patronais. Além disso, os jovens e estudantes de hoje são os trabalhadores de amanhã, e a sua radicalização é um sinal vital, tal como na Revolução de Outubro, onde os sovietes foram majoritariamente formados por jovens.
Isto não significa complacência. O Chega ou um futuro governo Trump podem evoluir para o fascismo pleno. Mas essa transformação não é automática; é um processo que depende da correlação de forças de classes. Exige, portanto, não gritaria histérica, mas a análise dialética materialista da situação em movimento, para ajustar tática e organizativamente a nossa intervenção no momento exato. O fascismo europeu foi resultado do falhanço das revoluções proletárias na Alemanha, na Itália e na Espanha no inicio do século XX e, por conta do falhanço a luta de classes estava em declínio. Hoje vivemos num cenário oposto: A luta de classes está a ganhar força e se abre, no futuro uma vaga revolucionária. Se setores do liberalismo e da esquerda agitam a ameaça do fascismo, frequentemente é para justificar a sua aliança com o regime democrático burguês. Mas essa política, além de basear-se num pressuposto errado (a ameaça iminente de uma ditadura fascista), é contraproducente, já que permite a direita populista apresentar-se demagogicamente como a única força anti-sistema.
Construir o CCR no Porto
O êxito da reunião não se limitou à clarificação teórica. Como fruto direto do interesse despertado e da necessidade sentida de dar continuidade organizada à luta, quase metade dos participantes deixou o seu contacto, formando o embrião da futura célula do CCR no Porto. Este é um avanço concreto e um testemunho do potencial da propaganda séria combinada com a análise concreta.
A reunião encerrou, assim, não apenas com uma nota de alerta teórico, mas com um salto prático. A tarefa imediata é consolidar este embrião organizativo, assimilar estas distinções vitais e levá-las às massas trabalhadoras. A confusão teórica é o terreno da derrota. A clareza e a organização são os primeiros passos para a vitória. Organiza-te, forma-te, junta-te a nós, e ajuda-nos a construir o movimento comunista revolucionário no Porto, em Portugal e no mundo!
Coletivo Comunista Revolucionário Comunistas Revolucionários de Portugal