Republicação do artigo sobre a vida e evolução política de Malcolm X, pelos seus 100 anos, ilustre revolucionário do movimento pela libertação de pessoas negras.
ARTIGO de Ray Smith
Tradução: Juno
No dia 21 de fevereiro de 1965, Malcolm X preparava-se para falar no Audubon Ballroom em Harlem, Nova Iorque. O tema da sua palestra seria contra a segregação racial nos Estados Unidos, apelando aos seus camaradas que resistissem e lutassem contra a opressão do homem branco, quando foi assassinado a tiro. No alto do establishment Americano vários suspiraram de alívio, pois uma das vozes mais influentes contra a injustiça racial, se teria perdido.
“O futuro pertence aqueles que, hoje, para ele se preparam” – Malcolm X
A juventude de Malcolm
Malcolm X nasceu Malcolm Little, em 19 de maio de 1925 em Omaha, Nebraska. Naquela época, havia cerca de 13 milhões de negros nos Estados Unidos, a maioria nos estados do Sul, eram principalmente agricultores e meeiros.
No Norte os negros concentravam-se nas comunidades industriais como operários, no Sul as leis de Jim Crow estabeleceram um regime de apartheid, separando os afro-americanos do resto da sociedade. As consequências práticas dessa lei significaram que os bairros negros eram separados dos bairros brancos, crianças negras tinham que estudar separadamente das crianças brancas e até mesmo as casas de banho públicas, eram divididas.
Porém, a situação no Norte não era muito melhor, pois os negros viviam separados dos brancos em guetos superlotados como o Harlem, em Nova York, ou na Zona Sul, em Chicago, onde o racismo também morava.
A Primeira Guerra Mundial forçou os patrões a recrutar negros para a força de trabalho industrial, levando muitos afro-americanos a acreditarem que suas condições melhorariam, essa esperança estava longe da realidade. Em 1919, o fim da guerra trouxe uma onda massiva de greves que abalou os Estados Unidos, ao que os patrões responderam incitando racismo para dividir a classe trabalhadora, culpando os negros pelo aumento do desemprego, trazendo negros do Sul, desesperados por empregos, para furar as greves de trabalhadores brancos no Norte. Uma das leis mais perniciosas foi a que proibia trabalhadores negros de se filiar a muitos sindicatos importantes, favorecendo os patrões americanos, que espalhavam o racismo entre os trabalhadores brancos. Estas táticas divisionistas levaram à derrota de muitas lutas proletárias, impedindo a unificação da classe trabalhadora americana.
A Federação Americana do Trabalho (AFL) recusava-se a organizar a força de trabalho afro-americana, em conjunto com o papel pernicioso que a burocracia desempenhou em diversas greves, ajudaram os patrões a esmagar o movimento do proletariado americano. Revolução e contrarrevolução andam sempre juntas. No verão do mesmo ano, ocorreram mais de 25 pogroms, o racismo é uma das ferramentas mais úteis usadas pelos patrões nas suas táticas divisionistas.
A família de Malcolm, como a maioria da população negra, sofria de violência racista. O pai de Malcolm era orador e seguia as ideias de Marcus Garvey sobre a libertação negra. Naquela época, muitos negros envolveram-se em organizações que promoviam o orgulho racial, como forma de resistir à opressão racista. Marcus Garvey foi um defensor do movimento “de volta à África”, essa ideologia impactou profundamente os afro-americanos. Mais tarde, enquanto as lutas de libertação nacional ocorriam em África durante a década de 1960, essa ideia mística recuperou popularidade.
Quando Malcolm tinha quatro anos, a sua casa foi incendiada por um gangue racista, aos seis anos o seu pai foi assassinado pela Ku Klux Klan. Considerando a conjuntura social em que cresceu, não é difícil perceber por que teve uma infância e juventude conturbadas. Passou a adolescência em Boston, Lansing, New Haven, Flint e Nova York, onde se envolveu em delitos menores, como jogos de azar, roubos e tráfico de drogas.
Como muitas outras pessoas negras, foi para a East Coast na esperança de encontrar um emprego. Embora atraídos por empregos no sector industrial, aos negros eram relegados os piores travalhos, se por ventura conseguissem ser empregados. Desta forma, para sobreviver, muitos foram empurrados para a criminalidade. Em 1946, Malcolm foi preso sob acusações de invasão de domicílio, porte ilegal de arma de fogo e furto, acabando por ser condenado a oito a dez anos de prisão, dos quais acabou cumprindo seis anos.
Malcolm Little torna-se Malcolm X
Na prisão, juntou-se à Nação Islâmica, também conhecida como Movimento Muçulmano Negro, e adotou o nome de Malcolm X. Organizou-se nesse grupo religioso durante 14 anos e, em pouco tempo, se tornou numa das figuras mais proeminentes do grupo, assim como o principal porta-voz do seu obscuro líder, Elijah Muhammad.
A Nação Islâmica era uma facção religiosa que defendia a seguinte ideia: para alcançar a salvação, os negros que verdadeiramente seguissem Allah, deveriam segregar-se da sociedade branca e criar a “Nação Islâmica”. A doutrina do grupo era uma das versões mais sectárias do Nacionalismo Negro, pois viam o racismo negro como a melhor maneira de combater o racismo branco sistémico. Económicamente, usavam as mesmas táticas em que contrapunham o “capitalismo negro” ao “capitalismo branco”, pedindo aos negros que comprassem em negócios negro. Ora, tal como Marx explicou: o ser social determina a consciência social. Então, o “comprar negro” expressava as frustrações da pequena camada da classe média negra, que possuía pequenas lojas nos centros urbanos e nos guetos.
Os Muçulmanos Negros queriam criar uma burguesia afro-americana para fazer frente à burguesia branca. Nunca foram capazes de ver além da cor da pele dos supremacistas, nunca perceberam o papel desempenhado pela burguesia branca na sociedade, nem na produção. A falência dessas ideias é hoje, mais evidente do que nunca.
O estabelecimento de uma elite negra bastante pequena nos EUA, representada por Jesse Jackson & companhia, não tirou a maioria dos afro-americanos a viver nos centros urbanos e guetos, da pobreza, da violência e das drogas. Pelo contrário, essa pequena elite negra, tem sido usada pela classe dominante dos EUA para minar a luta das massas negras e promover os “Uncle Toms” (nome usado por Malcolm X para definir os líderes negros moderados), que vincularam o movimento à ala liberal da burguesia americana – os Democratas.
Um dos principais obstáculos ao progresso da classe média negra, era o racismo institucional e as limitações dessa posição são bastante óbvias. Acima de tudo, a ideologia e a perspectiva da classe média negra nunca atacaram os fundamentos do capitalismo – a verdadeira raiz da opressão racial dos afro-americanos. Devido a tal, o grupo limitou seus ataques aos limites impostos aos negócios negros pelos supremacistas brancos – limites que impediam sua capacidade de competir no mercado e favoreciam os negócios brancos. Apesar do radicalismo superficial dessa teoria, as ideias reacionárias por trás dela são bastante evidentes, por não ser possível que um grupo racial inteiro se torne empresário, provando que essa ideia de “negócios negros”, simplesmente favorecia uma pequena camada de negros – a classe média.
A Nação Islâmica, assim como Marcus Garvey, adotou a ideia de “voltar para a África” e assim como no início da década de 1920, com a UNIA (Associação Universal para o Melhoramento do Negro) de Marcus Garvey, essa ideia atraiu uma ampla camada de afro-americanos nos EUA.
Leon Trotsky analisou essa ideia na década de 1930:
“Os negros americanos reuniram-se sob a bandeira do movimento ‘De Volta à África’, porque parecia uma possível realização do desejo de ter uma terra deles. No entanto, não queriam de facto, ir para a África. Era a expressão de um desejo místico por uma terra onde estivessem livres da dominação dos brancos, onde pudessem controlar seu próprio destino.”
(Sobre o Nacionalismo Negro, Leon Trotsky, International Socialism 43, abril/maio de 1970)
Durante os anos em que Malcolm passou na Nação Islâmica, o número de membros dessa organização aumentou drasticamente, o Partido Comunista dos Estados Unidos da América, tinha sido seriamente comprometido pelas purgas de McCarthy. No início da década de 1950, a maioria dos sindicatos liderados pelo Partido Comunista foram expulsos do CIO (Congresso das Organizações Industriais).
Durante a década de 1930, o Partido Comunista organizou uma ampla gama de trabalhadores negros no entanto, na década de 1950, usaram o mesmo argumento do Partido Democrata, reduzindo o problema racial nos EUA ao Sul e às leis de Jim Crow, falhando completamente em ser uma alternativa às massas negras do Norte, não havia um movimento viável através do qual a luta dos negros pudesse ganhar expressão.
Friedrich Engels explicou que a natureza abomina o vácuo, esse foi preenchido por diferentes seitas religiosas que usaram discursos radicais contra a opressão racista, atraindo muitos jovens negros, incluindo Malcolm, a movimentos como os Muçulmanos Negros por denunciar a opressão branca. Malcolm procurava uma explicação para os sofrimentos de sua juventude e viu um grande apelo neste tipo de movimentos.
Apesar de ter abraçado o islamismo na prisão e permanecido crente até à morte, a sua principal preocupação sempre foi a luta contra a opressão de seu povo, quando saiu da Nação Islâmica, colocou gradualmente a religião em segundo plano em relação à política, tanto que mesmo quando estava com a Nação Islâmica, era considerado o ministro mais politizado de Elijah Muhammad, tal como também foi o ministro que passou mais tempo a viajar pelo país e pelo mundo, convivendo com outras pessoas fora do movimento.
Durante os 14 anos que passou nos Muçulmanos Negros, foi considerado o orador mais brilhante do grupo. Viajou por todos os Estados Unidos, bem como pela África e o Médio Oriente, falando contra a opressão racial em termos brutais e honestos, ganhando a alcunha de “o homem mais enraivecido da América”. Rejeitou a hipocrisia dos líderes negros moderados, nunca pediu concessões; simplesmente exigiu o que acreditava que o establishment lhe devia, tornando-se a figura mais intransigente do movimento de libertação negra. O sectarismo (uma das principais características da Nação Islâmica), foi porém uma barreira para alcançar mais pessoas, como é descrito numa cena de Malcolm X (o filme biográfico dirigido por Spike Lee), uma estudante branca aborda Malcolm e pergunta o que poderia fazer pelo movimento, ao que Malcolm responde: “Nada!”, numa demonstração de desprezo. Mesmo quando se separou dos Muçulmanos Negros, trouxe com ele resquícios do pensamento sectário e quando lhe pediram, logo após a separação, que prestasse homenagem a um ativista branco pelo direitos civis, morto por uma escavadeira em Cleveland, ele declarou:
“…Bom, o que o homem fez é bom. Mas os dias em que os negros se levantam e aplaudem as contribuições dos brancos neste momento tão tardio acabaram… Nunca pensem que eu gastaria as minhas energias aplaudindo o sacrifício de um homem branco. Não, é tarde demais.”
O sectarismo tornou ainda mais difícil estabelecer um movimento genuíno, intransigente e amplo contra a opressão racial. Durante os últimos meses de sua vida, ele tentou corrigir o seu sectarismo inicial mas era tarde demais, as declarações que fez enquanto membro da Nação Islâmica alienaram uma grande camada de ativistas dos direitos civis, mais tarde os media burgueses usaram isso para auxiliar esse processo, alienando ainda mais um grande número de ativistas pelos direitos civis, de Malcolm X.
A cisão e a evolução ideológica de Malcolm
O grupo de Elijah Muhammad estava longe de ser uma organização política, ainda assim os Muçulmanos Negros preencheram o vácuo deixado pelas organizações políticas tradicionais da classe trabalhadora. Essas organizações não foram capazes de oferecer qualquer alternativa às massas negras, especialmente aos jovens. A Nação Islâmica tinha uma política de abstenção absoluta da política: Por um lado, nunca apoiaram os democratas ou os republicanos e criticaram os líderes moderados do movimento dos direitos civis; por outro, foram incapazes de liderar as massas negras ou tornar-se num movimento de expressão da sua raiva, devido à política de abstenção.
No início da década de 1960, a Nação Islâmica ganhou fama por “falar muito e não fazer nada”, essa política de abstenção absurda, acabou por ser uma camisa de força para Malcolm.
Em 1962, a polícia de Los Angeles atirou sobre sete muçulmanos desarmados e prendeu outros dezesseis, foi então que Malcolm visitou Los Angeles de modo a organizar a resposta. Contudo, quando tentou organizar um movimento que envolvesse outros grupos religiosos, foi impedido por Elijah Muhammad. As tentativas de ir além do grupo seriam um dos factores que o levaram a cortar com o movimento.
A degeneração da liderança do grupo também influenciou a decisão de Malcolm de deixar a organização. Não era segredo que Elijah Muhammad teve contacto com George Lincoln Rockwell – o líder do Partido Nazi nos EUA. Em 1963, Elijah Muhammad convidou Malcolm para ir à sua luxuosa casa em Phoenix, onde cinicamente confirmou os rumores sobre seus relacionamentos sexuais com várias adolescentes da Nação Islâmica. Ao ver que os principais líderes da organização não praticavam o que pregavam, ficou profundamente decepcionado.
A 1 de dezembro de 1963, nove dias após o assassinato de John F. Kennedy, numa reunião em Nova York, Malcolm X atribuiu a morte de JFK ao clima de ódio e violência que o homem branco havia criado.
Declarando:
“As galinhas voltam para o poleiro. Sendo eu um rapaz de quinta, ver galinhas a voltar para o poleiro nunca me deixou triste, mas sim feliz.”
Alguns autores apontaram essa declaração como catalisador para o desentendimento entre Malcolm e a Nação Islâmica, no entanto a verdade é que Elijah Muhammad usou essa declaração específica para proibir Malcolm de falar publicamente e mantê-lo em silêncio, engatilhando a saída de Malcolm dos Muçulmanos Negros.
O materialismo dialético explica que a necessidade se expressa por acidente, Malcolm X procurava uma alternativa revolucionária na Nação Islâmica, quando não a encontrou, abandonou-a.
Em 12 de março de 1964, anunciou a sua desvinculação da Nação Islâmica e a fundação da Mesquita Muçulmana Inc, pouco depois foi a Meca e converteu-se ao islamismo ortodoxo.
A experiência ajudou-o a alimentar as suas ideias, levando-o a deixar a religião em segundo plano ao que declarou:
“Nenhuma religião jamais me fará esquecer as condições do nosso povo neste país, (…) Nenhum Deus, nenhuma crença, nada me fará esquecer até que pare, até que acabe, até que seja eliminado. Quero deixar isso bem claro.”
Percebeu também que a Mesquita Muçulmana Inc. não seria suficiente para reunir um movimento de massas de negros contra a opressão racial, tendo isso em mente, começou a Organização da Unidade Afro-Americana, desconectada de qualquer conotação religiosa, pelo contrário, apelando à adesão de afro-americanos independentemente da sua origem religiosa, com o objectivo de criar um movimento de base alargada. O programa fundador foi profundamente influenciado pelas lutas de libertação que decorriam em África naquela época, levando a assumir algumas posições interessantes, como a autodefesa contra ataques racistas, sendo muito mais progressista do que a abordagem não violenta promovida por alguns líderes negros moderados que, na verdade, deixaram o movimento desprotegido face aos ataques racistas. Era óbvio que OAAU estava longe de ser uma organização socialista e a sua política económica foi reduzida às ideias pequeno-burguesas do Nacionalismo Negro. O movimento também rejeitou a participação de brancos, posição essa inicialmente defendida por Malcolm, justificando-a: antes de alcançar a unidade entre brancos e negros, os últimos devem unir-se entre si, limitando a luta contra a opressão racial apenas às vítimas da opressão racial.
Naquela época, a camada mais consciencializada de trabalhadores e estudantes simpatizava com a luta contra a opressão racial, mas essa política impedia-os de se juntarem.
O nacionalismo negro é uma consequência direta da opressão racista implementada pelo capitalismo, mas pode ser um grande impedimento à unidade entre a classe trabalhadora negra oprimida e dos seus camaradas brancos.
A história dos Estados Unidos está repleta de exemplos que mostram como a influência desses movimentos pequeno-burgueses diminui, quando trabalhadores negros veem a oportunidade de lutar ao lado dos trabalhadores brancos para conquistar algo concreto. Um exemplo disso foi a onda de greves de 1919, quando embaladores de carne brancos e negros, desfilaram juntos pelo bairro negro de Chicago.
Malcolm acabou por perceber as limitações do nacionalismo negro enquanto solução para a opressão racista, que o capitalismo impunha às massas negras. Um mês antes de ser assassinado, relembrou numa entrevista, o encontro com o embaixador argelino no Gana:
“(…) quando estive em África em maio, no Gana, falei com o embaixador argelino, que é extremamente militante e um revolucionário no verdadeiro sentido da palavra (…) quando lhe disse que minha filosofia política, social e económica era o nacionalismo negro, ele perguntou-me onde isso o deixava, porque ele era branco. Ele era africano, mas era argelino e, aparentemente, um homem branco. Disse-lhe que defino meu objetivo como a vitória do nacionalismo negro, onde é que isso o deixava? Onde isso deixa os revolucionários de Marrocos, Egito, Iraque e Mauritânia? Ele mostrou-me então, que estava a alienar pessoas verdadeiramente revolucionárias, dedicadas a derrubar o sistema de exploração que existe nesta Terra com todos os meios necessários.”
Entendeu também, que a podridão inerente ao capitalismo era a causa da opressão racista: “Não se pode ter capitalismo sem racismo”, disse num comício no Harlem.
Noutra ocasião ao falar sobre as lutas de libertação na África, afirmou o seguinte:
“Não se pode operar num sistema capitalista a menos que se seja abutre (…) Mostra-me um capitalista, eu mostrar-te-ei um sanguessuga.”
Indo ainda mais longe, na citação a seguir, em que demonstra a sua nova tendência em direção a uma posição de classe:
“Vivemos numa era de revolução, a revolta do negro americano faz parte da rebelião contra a opressão e o colonialismo que caracterizou essa era… É incorreto classificar a revolta do negro como simplesmente um conflito racial entre negros e brancos, ou como um problema puramente americano. Em vez disso, assistimos hoje a uma rebelião global dos oprimidos contra os opressores, dos explorados contra os exploradores.”
Estas citações representam as mudanças mais significativas na sua perspectiva ideológica, mas a sua evolução ideológica não parou aí, numa questão de meses, senão semanas, rejeitou abertamente todos os resquícios de sectarismo sem diluir seu discurso de forma alguma, abandonou os preconceitos sobre casamentos mistos e reconheceu o papel fundamental das mulheres na luta pela libertação negra, vindo mesmo a afirmar que a OAAU precisava de trabalhar com outras organizações, independentemente da cor da pele de seus membros, priorizando a luta contra os supremacistas brancos.
A sua posição sobre os dois partidos burgueses nos EUA também mudou, enquanto os Muçulmanos Negros simplesmente rejeitavam os democratas e os republicanos por razões apolíticas, Malcolm destacou que ambos os partidos representavam os interesses da classe dominante, predominantemente branca. Lutou contra os líderes negros que tentavam agregar o movimento pelos direitos civis aos democratas, expôs a ala “mais progressista” da burguesia americana como a pior e mais traiçoeira inimiga das minorias oprimidas nos EUA, destacando as origens dos democratas enquanto proprietários de escravos vindos dos estados do sul dos EUA.
As suas críticas não eram exclusivas aos Muçulmanos Negros, que tentavam continuadamente prejudicar os esforços para construir o que ele não podia fazer dentro da estrutura da Nação Islâmica: Uma organização genuína para lutar contra a opressão dos negros.
Devido a este crescimento ideológico, Malcolm X torna-se uma pessoa perigosíssima aos olhos do establishment americano, se tivesse vivido mais e conseguido refinar a sua ideologia, poderia ter iniciado um movimento intransigente contra a opressão racial, seguindo linhas genuinamente anticapitalistas, algo que a classe capitalista americana, testemunhando a radicalização do movimento de libertação negra, temia acima de tudo. Malcolm tornou-se então um problema sério, não apenas para a classe dominante americana, mas também para os líderes da classe média negra – entre eles a Nação Islâmica – que por ele eram amargamente criticados. As suas ideias eram confusas, embora intransigentes, renderam-lhe muitos inimigos, resultando no seu assassinato, a tiro, no início de um comício no Harlem a 21 de fevereiro de 1965.
Apesar da opinião de alguns grupos ditos marxistas nos EUA e no estrangeiro, Malcolm X não era socialista e nunca alegou sê-lo, como demonstra a citação acima. É verdade que ele caminhava para uma posição anticapitalista e anti-imperialist e a sua atitude, inicialmente hostil às ideias socialistas, mudou. É verdade que ele nunca chegou a compreender o papel da classe trabalhadora, como a única classe revolucionária capaz de liderar o movimento à vitória mas, apesar disso, ele era revolucionário, mesmo não tendo conseguido construir uma organização revolucionária genuína. O seu trágico assassínio, não nos permite concluir como a sua evolução teórica acabaria. No entanto, sabemos que dedicou grande parte da sua atividade política a expor o papel traiçoeiro dos “Uncle Toms“, que procuravam soluções para a classe média negra, traindo inevitavelmente o movimento em troca de migalhas. Malcolm entendia que os líderes da classe média negra, estavam lá apenas com o objetivo de enfraquecer o movimento.
Malcolm X foi um homem que nunca hesitou manifestar-se contra a injustiça e a opressão do sistema capitalista, apesar das suas limitações, foi um dos ativistas mais honestos e intransigentes do século XX.
Publicado originalmente em 22 de fevereiro de 2005, Em Defesa do Marxismo
Coletivo Comunista Revolucionário Comunistas Revolucionários de Portugal