Ascensor da Gloria 2

Foi uma tragédia, mas não foi um acidente! 

À hora que escrevemos, o desastre ocorrido com o Elevador da Glória em Lisboa matou 16 pessoas e deixou feridas (algumas com bastante gravidade) outras 20 pessoas. Foi uma tragédia, mas o pesar e luto pelas vítimas não nos deve deter no apuramento das responsabilidades, sobretudo as políticas. 

Não foi acidental, mas premeditada, a política de turistificar até ao absurdo a cidade de Lisboa: foi deliberada a intenção de promover os interesses ligados ao turismo e a construção à custa do bem-estar e da vida dos lisboetas, em particular das famílias trabalhadoras.  

Este crescimento inusitado não foi acompanhado por um reforço das infraestruturas da cidade. O elevador da Glória, por exemplo, é um equipamento centenário que passou a transportar 3 milhões de passageiros por ano, a esmagadora maioria deles turistas! 

O desastre do elevador da glória é replicado diariamente na calamidade da recolha do lixo e limpeza das ruas, no caótico trânsito da cidade e no colapso dos transportes públicos, na praga dos alojamentos locais ou na especulação imobiliária desenfreada. Para onde quer que nos viremos, veremos o mesmo abandono e degradação duma cidade cada vez mais improvisada à medida do turista e do especulador. A diferença é que na Calçada da Glória morreram 17 pessoas. 

E para onde vão os imensos recursos financeiros da CML? Para onde vai o dinheiro cobrado ao licenciamento ou nas taxas de dormida dos turistas? Vai para as borlas fiscais dadas aos ricos da cidade através da devolução do IRS, para “papa palcos”, para “rock and rios”, para mil e um ajustes diretos a empresas amigas e assessorias partidárias, para show off e futilidades. Não faltam recursos, mas eles são estoirados para benefício duma minoria parasitária.  

Não foi acidental, mas premeditada, a decisão de desviar 4 milhões de euros do orçamento da CARRIS para a festarola hi-tech parola do Web Summit. Aliás! Graças ao desastre do governo AD em Lisboa, os autocarros nunca andaram tão devagar na cidade, obstruídos num trânsito congestionante. 

Não foi acidental, mas premeditado, o menosprezo pelas repetidas queixas dos sindicatos sobre a manutenção medíocre dos equipamentos: tanto para os patrões como para os seus fantoches políticos a saúde e vida dos trabalhadores valem menos que um relatório de contas consolidado. 

Não foi acidental, mas premeditado, que a manutenção destes ascensores centenários tivesse deixado de ser realizada pela própria CARRIS, com todo o know how acumulado, para ser externalizada para que empresas privadas lucrem com contratos feitos à medida pelo Estado.  É para estes interesses privados que Lisboa tem sido desgovernada pelo PSD e PS, este último com apoio do Livre e do BE.  

Para juntar insulto à ferida, aparentemente o contrato de manutenção tinha expirado dias antes, a empresa que cobrou 1 milhão de euros pelo serviço, fazia “inspeções visuais” ao equipamento – seja lá o que isso for – e um novo concurso de contratação destes serviços terá sido anulado por terem sido recebidas propostas acima daquilo que a administração da CARRIS queria pagar. Nada disto é acidental, mas premeditado: sacrificar a segurança, o bem-estar e a vida dos trabalhadores no altar da maximização dos lucros é o “pão nosso de cada dia”. O mesmo com os incêndios que, ano após ano, destroem florestas, animais, casas e vidas.

Exigir a demissão de Carlos Moedas é o mínimo: por bem menos pediu ele a cabeça do seu antecessor Fernando Medina. Mas se não acabarmos com o turismo e a especulação desenfreados, com os negócios opacos e a “democracia” dos gabinetes que tudo decide nas nossas costas, então apenas iremos mudar de cangalheiro enquanto os interesses capitalistas matam as nossas cidades. 

Não tenhamos aqui ilusões: o turismo, a construção imobiliária, a especulação e a parasitagem do Estado (PPPs, rendas garantidas, monopólios assegurados, financiamentos e apoios diversos, contratos, ajustes diretos, etc., etc,) são o core business da nossa decadente classe dominante nesta época de crise geral do capitalismo, para quem não é suficientemente rentável ou aliciante investir na indústria ou na inovação, na segurança ou qualidade. E por isso se orientam no caminho mais fácil para o lucro.

Todavia, embora Moedas seja o óbvio primeiro responsável político, atrás dele está o governo AD que tem feito no país o que faz Moedas na cidade. E, tal como a governação Moedas, também o executivo de Montenegro está totalmente apodrecido. Num ano e meio tem cambaleado de escândalo em escândalo, de uma crise para a outra: as urgências encerradas, os partos em ambulâncias, o caso Spinumviva, os incêndios do Verão, o custo da habitação…

É um governo fraco chamado a atacar os trabalhadores e os serviços públicos e que, por ser ciente da sua fraqueza, recorre à cartada do racismo e redobra os ataques aos imigrantes. Um governo que vai sobrevivendo graças aos apoios tácitos ora do Chega, ora do PS, mas sobretudo devido à ausência de um grande movimento de contestação nas ruas. O período de “lua de mel” deste governo é agora passado. Existem todos os ingredientes para esse movimento de contestação, mas a esquerda e os sindicatos com a sua política pessimista, reformista e rotineira nada fazem para o iniciar.

Mas, mais cedo que tarde, as massas acabarão por tomara iniciativa como aconteceu na Sérvia. Há um ano, a morte de 16 pessoas no colapso duma estação de autocarros provocou um movimento revolucionário espontâneo contra Vucic que se mantém até agora e que está a adquirir características insurrecionais. A mesma raiva e ressentimento social que se tem manifestado na Sérvia, não tem parado de se acumular em Portugal.

Enfim, nada disto é acidental: é da natureza do capitalismo. Para evitar novas tragédias, para mudar um quotidiano de barbárie, violência e exploração, a nós cabe-nos a premeditada e consciente tarefa de derrubá-lo. Para isso precisamos de nos organizar sob uma bandeira revolucionária.

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