Artigo de Blanca Marini
No fim de semana, eu e mais camaradas da secção portuguesa estivemos presentes, juntamente com camaradas da Alemanha, França, Suíça e Sérvia na primeira edição da escola de formação organizada pelos camaradas espanhóis. A escola foi composta por dois dias de debates, construídos a partir das intervenções de diversos camaradas, contando com a presença massiva de uma juventude que não tem nada a perder senão os seus grilhões, bem como de camaradas que já percorrem há décadas a dura jornada das lutas e que partilharam experiências capazes de fortalecer a consciência da classe trabalhadora. As contribuições estiveram à altura da necessidade de uma formação teórica sólida, indispensável para enfrentar os desafios que hoje se colocam diante da classe trabalhadora mundial — desafios que exigirão, no próximo período, uma prática concreta, sem vacilações nem ilusões.
Na primeira mesa discutimos a conjuntura internacional, marcada pela intensificação da disputa pelo mercado mundial, expressa em guerras comerciais, no crescimento dos gastos militares dos países imperialistas e nos conflitos no Médio Oriente e na Ucrânia.
Para além de uma introdução completa realizada por um camarada espanhol, contamos com intervenções que detalharam o significado do anúncio das tarifas por Donald Trump em março deste ano — anúncio que entrou em contradição frontal com o discurso liberal de “livre mercado”, propagado durante décadas pelos Estados Unidos ao resto do mundo. Tal movimento levou os próprios EUA a reconhecerem o seu declínio relativo enquanto potência imperialista, especialmente perante a ascensão de concorrentes como a Rússia e, em particular, a China. Houve ainda intervenções que denunciaram os crimes cometidos pelo Estado sionista de Israel, amplamente apoiado por países como os Estados Unidos e toda a Europa, ao aplicar uma política sistemática de apartheid sobre o povo palestiniano — um povo que, nos últimos dois anos, foi massacrado de forma brutal através de drones, incêndios, bombas, fuzilamentos, torturas, entre outros métodos hediondos. Também ouvimos análises profundas sobre a construção do império bélico mundial, que depende de um desenvolvimento tecnológico avançado. E assim, o desenvolvimento tecnológico que, em vez de servir à redução da jornada de trabalho e à melhoria da vida humana, torna-se, sob o capitalismo, instrumento de morte — com algoritmos capazes de industrializar a decisão sobre quem deve ser morto, alimentados pela expropriação de dados da classe trabalhadora, recolhidos pelas gigantes Google, Meta, Microsoft, entre outras.
Pare passo, contamos com falas que evidenciam o poder da classe trabalhadora organizada, cuja expressão mais recente foi a greve geral na Itália, onde mais de 2 milhões de trabalhadores paralisaram o país para exigir o fim do genocídio em Gaza. O exemplo italiano propagou-se pelo mundo, com diversos países registando manifestações massivas em defesa da Palestina, pressionando inclusive Portugal a reconhecer — ainda que de forma artificial — o Estado Palestiniano. Para além da Itália, a toupeira da história não descansa: assistimos a explosões sociais recentes no Nepal, em Madagáscar, entre outros lugares.
À tarde, a luta de classes fez-se ainda mais presente com a pergunta de um trabalhador que lê: afinal, quem derrubou o Franquismo em Espanha? Embora a classe dominante insista em narrar a história de outra forma, a ascensão do movimento grevista, que se inicia já nos anos 50 e ganha força na década de 70, expôs o esgotamento do regime franquista e a inevitabilidade da sua queda. Apesar da repressão e dos assassinatos — particularmente dos trabalhadores de Vitória no País Basco—, o regime já não conseguia conter o movimento de massas. Contudo, juntamente com o movimento e as greves, havia uma direção hegemonizada pelo Partido Comunista e pelo Partido Socialista Espanhol, que mais tarde traíram a classe ao conduzirem, em aliança com as demais frações da classe dominante, a chamada “transição democrática”. Uma transição que conservou e perdoou grande parte do velho regime, culminando em eleições de 1977 marcadas por um sistema fraudulento, mantendo franquistas no poder estatal e municipal, e pela infame Lei da Amnistia, que garantiu a impunidade absoluta para os assassinos e torturadores da ditadura.
As contribuições dos camaradas reescreveram a história; e, a cada relato, a luta da classe trabalhadora atravessou a pele de toda a juventude presente. Relembramos a greve iniciada em Bazán pela redução da jornada de 12 para 8 horas, onde o 10 de Março permanece gravado na memória pela bravura dos trabalhadores Daniel Niebla e Amador Rey, assassinados pelo antigo regime — mortes que desencadearam a propagação da greve por toda a Galiza. Recordámos também a greve em Vitória, os advogados assassinados em Madrid, e as centenas de milhares de famílias que fugiram de Espanha rumo ao sul de França para serem recebidas com desumanidade, ao terem seus núcleos familiares desmantelados.
A classe trabalhadora precisa de uma direção capaz de, compreendendo a realidade, orientar a luta pelo fim da exploração do homem pelo homem. Na última mesa procurámos compreender a origem da Quarta Internacional e a sua posterior degeneração. Trotsky, com a sua leitura correta da realidade e perante a burocratização da Terceira Internacional sob Stalin, funda a Quarta Internacional; esta, porém, entra em crise após o seu assassinato, revelando fragilidades teóricas profundas que conduziram a erros, desmoralização e fragmentação. Ted Grant, contudo, estava lá — com uma análise coerente acerca da recuperação económica do pós-guerra e das suas implicações para a luta de classes. Munido de método e tradição que se provaram correctos na prática, deu corpo a uma das grandes lições de Trotsky: a prática é o critério da verdade.
As falas dos camaradas contribuíram para a assimilação e explicação da teoria de Trotsky perante os acontecimentos históricos, partilhando erros de direção durante a Guerra Civil Espanhola, esclarecendo o método do entrismo e o momento adequado para o aplicar. Recordaram, por exemplo, como, na Espanha, a ausência de uma leitura correta levou sectores a fundarem o POUM em vez de realizarem entrismo na juventude socialista — um erro que mais tarde permitiu que as juventudes socialistas fossem capturado pela política stalinista. Também foram partilhados exemplos mais recentes, como o anúncio de um novo partido em Inglaterra por Corbyn e Zara Sultana, ilustrando as contradições e limites das direções reformistas.
Este encontro não foi apenas um espaço de formação; foi um acto de reafirmação histórica. Saímos mais conscientes de que nenhuma transformação verdadeira nasce do improviso ou da boa vontade, mas sim de uma teoria revolucionária sólida capaz de orientar os caminhos da prática. A escola de formação engrandeceu-nos, fortaleceu o nosso método e recordou-nos que, sem teoria revolucionária, não há prática revolucionária — e sem prática revolucionária, não há futuro digno para a classe trabalhadora.
Coletivo Comunista Revolucionário Comunistas Revolucionários de Portugal