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A revolução não espera por ti, mas o seu sucesso depende do teu trabalho

Artigo de Bea Damas


Sentes uma raiva que te consome por dentro. Vês os preços das casas a subir, o teu salário a desaparecer e os políticos a prometerem mundos e fundos enquanto nos preparam para a próxima guerra ou para o próximo corte na saúde. Esta raiva, por si só, é como o vapor. Se não for canalizada por um pistão de um motor, dissipa-se no ar.

O que te proponho hoje não é a indignação, mas a disciplina revolucionária. A vitória da revolução comunista não é algo mágico que vai cair do céu, é um edifício que temos de construir tijolo a tijolo, com as nossas próprias mãos. As revoluções acontecem pelas contradições objetivas que se acumulam no seio da velha sociedade; mas o seu desfecho depende da organização, consciência, perspetivas e programa da classe revolucionária. Neste artigo vou-te propor essa construção, explicar-te a tua importância na mesma e convidar-te a organizar no Coletivo Comunista Revolucionário, caso ainda não o faças.

1.  És Comunista? Organiza-te!

Ser comunista em 2026 não deve ser uma escolha estética nem um clube de leitura para discutir livros difíceis. É uma obrigação do combate. Significa que compreendes que a tua vida e as vidas futuras nunca serão seguras enquanto uma minoria de patrões e banqueiros estiver a decidir o que se produz e quem deve passar fome para que os seus lucros aumentem. Nós, no Coletivo Comunista Revolucionário (CCR), somos a secção portuguesa da Internacional Comunista Revolucionária (ICR). Não lutamos sozinhos, lutamos ao lado de vanguardas que, como nós, começam a construir e a organizar nos imensos países à volta do mundo.

Mas o que é isto da “vanguarda”? Não é um grupo de “iluminados” que se acha superior ao povo. A vanguarda são os trabalhadores e jovens mais conscientes que decidiram que o amadorismo como forma de ação tem de acabar. A classe trabalhadora está composta por setores diferentes: alguns deles tomam consciência sobre a necessidade da revolução antes do que o resto. O seu dever é organizar-se e ajudar os seus irmãos e irmãs de classe a tirarem as conclusões necessárias. O CCR nasceu pequeno em 2024, com apenas um punhado de camaradas em Lisboa. Hoje, multiplicámos as nossas forças, temos células em Lisboa, no Porto e em Coimbra. Queremos ser o embrião do partido de combate que a nossa classe exige. 

Se tu já percebeste que o sistema falhou, a tua primeira tarefa é deixar de ser um simpatizante passivo e tornar-te um militante ativo. Uma organização forte é uma necessidade contra o poder organizado do capital internacional e cada militante formado é mais um pilar a assegurar a continuação saudável da nossa luta revolucionária e estruturada.

 2.  O mundo onde lutamos

Para vencermos em Portugal, temos de olhar para o que se passa lá fora, porque o capitalismo é um sistema mundial que nos asfixia a todos. Cada situação carrega lições que devemos aprender. O sistema parece ter enlouquecido, mas há “método na sua loucura”. A crise orgânica do sistema empurra as grandes potências para o caos e para a pilhagem. O imperialismo norte-americano está em declínio e, como um animal ferido, torna-se mais perigoso ao tentar reestabelecer o controlo sobre o seu “quintal” na América Latina. Para além disso, a ascensão da China capitalista e imperialista como potência “alternativa” não trouxe estabilidade, mas, pelo contrário, agravou as convulsões.

Para transformar o mundo, tens de compreendê-lo. Um partido comunista genuíno não necessita só de um programa revolucionário, mas também perspetivas que indiquem em que fase do processo da luta de classes nos encontramos, que indique as possíveis linhas de desenvolvimento e que nos permite adequar a nossa tática à situação específica. Mas essas perspetivas só podem ser elaboradas aplicando a poderosa teoria do marxismo. A formação marxista da militância não é um luxo, mas uma necessidade: as ideias são a nossa arma mais importante.

Vê o exemplo de Cuba. A ilha enfrenta uma asfixia terrível devido, principalmente, a um bloqueio criminoso dos EUA que causa cortes de eletricidade de mais de 22 horas e impede as pessoas de conservarem a sua comida. Perante esta pressão insuportável, a liderança cubana aprovou, em junho de 2026, 176 medidas que abrem a porta à restauração do capitalismo, transformando empresas estatais em sociedades anónimas e permitindo a entrada desenfreada de capital estrangeiro. Isto prova-nos uma verdade marxista fundamental: o socialismo num só país é impossível; ou a revolução se internacionaliza, ou morre isolada sob o peso do mercado mundial.

Olha para a Bolívia, onde o projeto reformista do MAS colapsou após duas décadas de tentativa de “humanizar” o capitalismo. O novo governo de direita lançou o Decreto 1720 para privatizar as terras dos camponeses, gerando 51 dias de luta heroica com barricadas e dinamite. No entanto, as massas foram traídas por direções sindicais e por setores como a Fedecomin, que negociou acordos de bastidores com o governo enquanto o povo era baleado nas ruas. Até nos Balcãs, a podridão da restauração capitalista ficou exposta quando a cobertura de uma estação na Sérvia ruiu devido à corrupção, matando 16 pessoas e gerando uma revolta estudantil que ainda hoje ecoa. Em todo o lado, as condições para a revolução estão “podres de maduras”, mas falta a ferramenta para vencer: uma direção revolucionária organizada e preparada.

3.  O Portugal onde nos organizamos

Portugal apresenta-se hoje como um elo fraco do capitalismo europeu, com a menor produtividade da Europa Ocidental e uma economia parasitária baseada em baixos salários, turismo e especulação imobiliária. É neste contexto de decadência que o governo da Aliança Democrática (AD) lançou o Pacote Laboral, o maior ataque aos nossos direitos nos últimos cinquenta anos, ressuscitando os bancos de horas e facilitando os despedimentos.

Como explicado num artigo nosso, não foi um milagre parlamentar nem a “bondade” de nenhum partido a razão pela qual este caiu. Foi a pressão colossal da classe trabalhadora, que se mobilizou na Greve Geral de dezembro de 2025 e voltou à carga em junho de 2026. O Chega votou contra apenas porque a sua própria base social, trabalhadores fartos de serem explorados, estava pronta para a luta e 67% dos seus militantes apoiavam a greve contra o governo. André Ventura finge ser “anti-sistema”, mas é um cão de guarda dos patrões que se encontra na corda bamba constante, a tentar convencer as suas bases do programa da burguesia enquanto é forçado a fazer concessões para manter estes mesmos debaixo da sua bota.

E onde estão os dirigentes do PCP e do Bloco de Esquerda no meio disto? Gritam falsamente que o Chega é “fascista” para assustar as pessoas e esconder a sua própria impotência. Enquanto o PCP se foca em “defender a Constituição”, um pedaço de papel que serve para garantir a ditadura do Capital, e o Bloco se perde em políticas identitárias que dividem a nossa classe, eles perdem a confiança dos trabalhadores, que conseguem ver a olho nu a decadência da democracia burguesa e do capitalismo.

A maior lição deste processo é que não foi a classe trabalhadora que virou à direita, foram os seus dirigentes da esquerda, estes que não tiveram a capacidade de acompanhar a radicalização da classe. A militância honesta e revolucionária do PCP e do BE deve refletir sobre a desastrosa linha reformista seguida pelos seus dirigentes e tirar as conclusões necessárias sobre os limites dos programas dos seus dirigentes.

4.  A quem pertence o futuro?

O futuro pertence à classe trabalhadora porque, sem nós, nem uma lâmpada acende nem um telefone toca. Mas para tomarmos o que é nosso, precisamos de ciência revolucionária. Não podes lutar de olhos vendados. Precisas da arma da teoria marxista, que é o mapa e a bússola que impedem a nossa classe de andar à deriva no nevoeiro da luta de classes.

Para seres um revolucionário eficaz, tens de entender o mundo através do materialismo dialético. Este conceito ensina-nos que nada no mundo é estático ou eterno: tudo está em constante movimento através de conflitos internos. Pensa na água que aquece. Vais aumentando a temperatura até que, de repente, ela ferve e vira vapor. A sociedade é igual. As tensões acumulam-se debaixo da superfície até que explodem numa revolução. Entender isto dá-nos a vantagem da previsão sobre o espanto. Permite-nos saber que o sistema vai cair, que a luta vai intensificar, mesmo quando o capitalismo parece sólido e eterno.

E por que é que ele tem de cair? Porque se assenta no roubo da mais-valia. Quando trabalhas, produzes valor o tempo todo, mas o patrão paga-te apenas uma pequena parte (o teu salário) e expropria o resto, o trabalho não pago. Esse valor “extra” é a fonte da riqueza deles e a fonte da nossa miséria. Esta contradição criada pelo próprio capitalismo oferece à classe que produz todo o valor, a classe trabalhadora, a missão histórica de derrubar o sistema que a oprime.

Esta verdade liga-se diretamente a todos os pontos da sociedade capitalista. Hoje, dizem-te que a Inteligência Artificial vai te roubar o trabalho. Sob o capitalismo, o sistema assente na exploração de uma classe sobre outra, eles têm razão: a inovação serve apenas para aumentar esta exploração. Mas, sob um plano socialista, a mesma tecnologia permitiria reduzir a jornada de trabalho para 32 horas semanais ou menos, libertando o ser humano para a cultura, educação e para governar a sociedade. Ou seja, se eliminarmos o problema pela raiz, o capitalismo e a propriedade privada, poderemos ter uma economia planeada, administrada de forma a colocar todas estas forças produtivas ao dispor das necessidades da humanidade.

5.  Porque é que a revolução depende de ti também?

Agora falo para ti e serei breve e direta.

Não esperes que a revolução seja feita por outros enquanto ficas a assistir como se isto fosse um filme. O sucesso deste processo depende do teu trabalho profissional, constante e disciplinado. A vanguarda não se improvisa no calor da revolta, ela constrói-se agora, formando revolucionários profissionais que dedicam a vida à causa. Tens de ter paciência para estudar, mas uma vontade de ferro para intervir. Precisamos que tu sejas um quadro treinado, capaz de organizar uma célula, de distribuir propaganda e de liderar a luta no teu local de trabalho, escola ou universidade.

O nosso otimismo revolucionário não é uma fé, é uma certeza científica baseada no facto de que o capitalismo já não consegue desenvolver a humanidade. O vento sopra a nosso favor, mas o barco não se navega certeiramente sem marinheiros preparados. A história não perdoa os que hesitam. Quando as massas portuguesas voltarem a entrar em cena, elas vão procurar quem tem ideias claras e uma organização sólida. Se não estivermos lá preparados, o sacrifício da nossa classe será desperdiçado outra vez por dirigentes reformistas sem coragem.

O sucesso da revolução socialista depende do teu esforço, trabalho e participação.

Junta-te ao Coletivo Comunista Revolucionário. Organiza a vanguarda!

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