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A Greve Geral, um cata-vento reacionário e o barómetro da luta de classes

“Avisei o governo que estávamos no mau caminho, estávamos a criar um bar aberto para despedimentos, para precariedade (…) havia questões absolutamente, enfim, escandalosas, dou um exemplo: a possibilidade de fazer despedimentos coletivos e depois recorrer ao outsourcing é hoje proibido por lei e o governo quer acabar com isso. Qualquer pessoa vê que isto é uma burrice. Mete nas pessoas o medo de serem despedidas sem qualquer custo e de qualquer maneira. (…) Não estamos disponíveis para uma lei que seja um bar aberto para despedimentos, que seja um ataque aos pais e às mães, que seja um ataque aos direitos dos trabalhadores em matéria de horários e de quem trabalha por turnos.” 

André Ventura, 11 de Dezembro de 2025 

Toda a gente sabe que o líder do Chega é um cata-vento. Ora todo o cata-vento tem uma função: indicar a direção para onde sopra o vento. Se dúvidas houvesse sobre o sucesso da Greve Geral, bastaria escutar às palavras de Ventura ao fim do dia da Greve para perceber para onde e com que força tomou o vendaval do descontentamento dos trabalhadores.  

Ainda há um mês, Ventura considerava a Greve um erro e chamava aos sindicatos que a convocavam de sangue-sugas. Indo mais atrás, quando no Verão se começaram a discutir as propostas do governo, Ventura propôs-se como interlocutor exclusivo da AD para fazer aprovar no parlamento legislação que fosse “no sentido do que são hoje as exigências das pequenas e médias empresas”. Nessa altura não havia nenhum “bar aberto aos despedimentos” e até exigia “mais flexibilidade” na contratação a prazo. Pelo contrário, apenas se propunha a emendar aspetos relativamente menores da proposta que deveriam ser limados em nome do combate ao “Inverno demográfico”, nomeadamente a regulamentação dos períodos de amamentação e luto gestacional.

Agora, num espetacular flic flac à retaguarda, acha que é “legítimo” e que “há razões profundas” para o descontentamento. Nada disto é por acaso. Ainda na véspera, uma sondagem do Diário de Notícias indicava que 61% dos inquiridos concordava (ou concordava totalmente) com a realização da Greve contra apenas 31% que se lhe opunha. Sabemos que as sondagens muitas vezes se enganam… mas pode uma diferença de 30% cair anda na chamada “margem de erro”? 

Este apoio à Greve Geral recolhia não apenas o apoio dos eleitores da esquerda, mas também dos eleitores do Chega: 67% deles concordavam com a Greve Geral, um número bastante superior ao que se verificava até junto do eleitorado (mais envelhecido) do Partido Socialista: apenas 52% apoiavam a Greve! Enfim, 45% dos inquiridos estava do lado dos sindicatos contra apenas 22% que se diziam do lado do governo. 

É preciso, pois, medir o sucesso da Greve Geral não apenas pela adesão efetiva que ela teve, mas também pela simpatia que gerou. Como sempre, os números da adesão à Greve Geral variam diametralmente: enquanto o governo indicava ridiculamente uma adesão entre os 0 e os 10%, as duas centrais sindicais reclamaram cerca de 3 milhões de grevistas! 

No sector público os números foram, de facto, impressionantes: saúde e educação tiveram taxas de adesão a rondar os 90%. Também bastante impactantes foram as paralisações nas empresas de transportes públicos como Carris, STCP, Metro, Fertagus… E mesmo na indústria e logística vimos várias paralisações a 100% em empresas importantes como na Autoeuropa, Tabaqueira, Superbock…  

É inegável, porém, que houve uma diferença na adesão entre os trabalhadores do sector público e privado. Mas a verdade é que, atualmente, a taxa de sindicalização entre os trabalhadores do sector privado é bastante residual; e não é menos verdade que a existência de cerca de 1 milhão de trabalhadores precários ou o quase meio milhão de trabalhadores imigrantes ainda à espera de regularização tornam mais difícil a adesão destes trabalhadores ao protesto, face às pressões, coações, ameaças e bullying dos patrões. 

Desengane-se, porém, quem julgar que a raiva surda que se vai acumulando não irá explodir mais cedo que tarde: é o próprio capitalismo que, ao espremer os trabalhadores, ao encostá-los à parede, os irá inevitavelmente radicalizar e empurrá-los à ação. 

Um vigarista chamado Ventura 

Como sempre temos dito no Coletivo Comunista Revolucionário, o Chega tem uma base muito heterogénea: ao lado dum núcleo reacionário, de saudosistas de Salazar e das colónias, dos “die harders” fascistas, duma pequena-burguesia desesperada e com a corda na garganta, estão também amplos setores da classe trabalhadora, politicamente atrasados e inexperientes – é certo – que têm usado o Chega como um canal para expressar o seu ressentimento e raiva social contra o decrépito e corrupto regime novembrista.  

Que isto suceda é apenas testemunho da falência das políticas reformistas dos líderes e do vazio que tomou conta da esquerda tradicional e parlamentar. Tome-se a atual campanha eleitoral. O candidato socialista tem como slogan “futuro seguro”, o candidato do Livre promete “um presidente presente”, a candidata do Bloco escreveu no cartaz “contigo” e o candidato do PCP toma o lema “com o povo, por Abril, por Portugal”. Os cartazes do António Filipe tê um pouco mais de conteúdo, mas limitam-se a um apelo abstrato, exibindo aquela perspetiva saudosista e democrática com que o PCP dilui o que foi o carácter socialista da revolução derrotada no 25 de novembro. 

Ventura tem uma retórica que de tão demagógica e racista nos faz revolver as entranhas? Sem dúvida! Mas quando afirma “Portugal não é o Bangladesh” ele está a apresentar um conteúdo político concreto. E por muito errado que isto seja -e é!- não deixa de apelar a uma explicação (por tosca que seja) para a crise que vivemos e de sugerir uma solução que ele nunca irá aplicar: atrasar o relógio do capitalismo e acabar com o que chama de “imigração descontrolada”. 

Ventura ameaça agora chumbar no parlamento a proposta do Pacote Laboral, mas ele está a jogar uma partida perigosa. Foi forçado a sair da sua zona de conforto das políticas identitárias e das guerras culturais para se apresentar como o paladino do trabalhador português. Na verdade, ainda que motivado pelas suas ambições pessoais, está lançando mais gasolina para o fogo ao consagrar o protesto e a legitimar o combate ao pacote laboral junto daqueles sectores da classe trabalhadora menos propensos a seguir as lideranças tradicionais da classe. Um eventual chumbo do pacote laboral no parlamento levaria o governo AD às cordas. Não é difícil imaginar como os patrões que financiam André Ventura se devem estar a arrepiar! 

Dada a fraqueza do atual governo, irá sem dúvida arrancar algumas concessões, por mínimas que sejam. E fará disso grande alarde. Mas no fim do dia, tanto Ventura como Montenegro servem o mesmo Senhor, o deus Capital. E o único meio que os capitalistas portugueses têm para manter as suas margens de lucro e a sua quota de mercado é intensificando a exploração da classe trabalhadora. 

Os trabalhadores apenas podem contar com as suas forças e organização. Quaisquer divisões que surjam no topo, serão sempre consequência da luta operária. 

Entretanto, o governo já fez saber que está decidido em seguir adiante com o essencial da sua proposta, mas independentemente de como terminar esta batalha é, desde já, cristalino que o fraco governo de Montenegro (que apenas passou o Orçamento com o apoio dos socialistas disfarçado de “abstenção exigente”) ainda mais enfraquecido ficará no fim deste processo.  

O Governo AD não tem controlo do parlamento, tendo falhado novamente a maioria absoluta em Maio. Nas recentes eleições autárquicas, tendo vencido nos principais municípios como Lisboa, Porto ou Sintra, falhou igualmente a obtenção de maiorias, mesmo aliando-se à Iniciativa Liberal. Agora, o seu candidato Marques Mendes recolhe apenas entre os 16 a 22% das intenções de voto para a primeira volta das presidenciais. Se amanhã houvesse eleições a AD poderia ganhá-las? Dado o estado comatoso do Partido Socialista é provável que sim! As próximas eleições, porém, virão não amanhã ou num dia à escolha de Montenegro, mas quando o ciclo económico mudar e o desgaste pela luta de classes permitirem ao André Ventura puxar o tapete debaixo dos pés deste cadáver adiado. 

O vazio aborrece a natureza 

Temo-lo dito repetidamente: há uma camada (ainda pequena, é certo) da juventude que se está radicalizando sob o impacto da austeridade permanente, das guerras sem fim e da depredação ambiental. A crise capitalista está forjando uma nova geração comunista e a nossa tarefa é organizá-la! 

E se Ventura é o cata-vento do regime, a juventude é o barómetro da luta de classes e uma tempestade se aproxima! A sua entrada em cena sempre sinaliza uma mudança fundamental. A presença massiva de jovens na manifestação do dia da Greve em Lisboa é o espelho disto. Milhares de jovens sem filiação sindical ou partidária desfilaram pelas ruas de Lisboa. Para muitos terá sido o seu “batismo”, mas em todos era patente o ódio ao governo e aos patrões, tanto nos cartazes empunhados como nos slogans cantados. Impressionantes foram também a alegria e a confiança que só a ação coletiva de massas permite transmitir. 

Esta erupção inorgânica da juventude no dia da Greve mostrou à saciedade o divórcio entre a rua e as instituições. Assustou de tal forma a liderança da CGTP que esta tratou de ter os discursos da praxe findados e o palco móvel de som desmontado e retirado quando o grosso da manifestação chegou a São Bento. Mesmo sem qualquer presença visível da CGTP, (sem a presença sequer duma singela faixa da Central Sindical!) os manifestantes permaneceram durante horas, entregues a si próprios, em protesto diante do parlamento.  

Face à ausência duma liderança forte e assertiva, a manifestação acabou dispersando, não sem antes ocorrer uma demonstração de bruta repressão policial sobre dois grupos distintos: um que procurou continuar a manif pelas ruas da baixa lisboeta e que foi selvaticamente espancado, e outro que, ao princípio da noite, foi atacado quando se encontrava ainda junto ao parlamento com uma saraivada de balas de borracha disparadas à cabeça e outras zonas sensíveis do corpo. Dezenas de manifestantes necessitaram de cuidados médicos e vários foram mesmo hospitalizados. Só por milagre não ficou ninguém cego com o disparo das balas de borracha! 

À noite, em entrevista em direto na televisão, os líderes sindicais descartaram qualquer solidariedade com os jovens trabalhadores agredidos: “não nos revemos” – foi o mantra. Indo mais longe, o candidato do PCP às presidenciais (António Filipe) responderia mais tarde: “não me dou com essa gente”. 

Há todo um divórcio entre a rua e as instituições, entre a classe e as suas lideranças tradicionais, mas como ensina o aforismo filosófico: “o vazio aborrece a natureza”. 

O que nós vimos no dia 11 foi só o princípio. O governo pode embandeirar em arco com distinções da The Economist  e dizer que Portugal está no topo do mundo, mas a realidade é outra e não desaparece com truques de propaganda. A imprensa internacional burguesa pode deleitar-se com os 20% de valorização em Bolsa e caracterizar “doce como um pastel de nata“ a vida neste país, mas no dia seguinte à Greve Geral espreitamos as notícias e vemos como  metade dos pensionistas sobrevive com menos de 462 euros por mês. Paralelamente, a destruição do SNS segue em bom ritmo (para quem o quer privatizar), a degradação dos serviços públicos continua e a crise da habitação apenas se tem agravado com este governo, que agora tributa menos em sede de IRS um senhorio do que um trabalhador seu inquilino! 

Todas as causas subjacentes à queda do anterior Governo Costa continuam: crise dos salários, crise dos serviços públicos e crise da habitação. Face à conjuntura internacional, as metas idílicas de crescimento económico do governo não se cumprirão. Mesmo que alcançadas, elas não se repercutiriam na melhoria das condições de vida da classe trabalhadora, tal é a crescente transferência da riqueza criada do Trabalho para o Capital. E este é um fenómeno global que o governo Montenegro apenas se limita alegremente a replicar.  Mas as mesmas causas determinarão idênticas consequências: Montenegro cairá como Costa caiu! 

A luta contra o Pacote Laboral tem de ser uma luta contra este governo que lança continuados ataques aos trabalhadores em múltiplas frentes: pacote laboral, SNS, habitação, leis da imigração…. E é por isso necessário um programa nacional de luta que englobe respostas concretas aos vários problemas enfrentados pela classe trabalhadora, para reforçar a mobilização e congregar o conjunto dos movimentos sociais. 

No dia 11 fizemos tremer o governo e a classe dominante, mas é preciso fazê-los tombar. A luta não pode ficar limitada a dias isolados de protesto agendados com semanas e até meses a separá-los entre si. Com a poderosa resposta da classe foi já um erro que as centrais sindicais não tenham imediatamente dado um ultimato e um prazo ao governo para que deixe cair o pacote laboral, sob pena de se seguirem ações de luta mais extensas e radicalizadas! Podem, contudo, ainda emendar a mão nos próximos dias. 

Finalmente, e em última instância, esta é uma luta contra o regime novembrista apodrecido, contra o capitalismo decrépito que nos condena a uma vida mais dura e instável que a da anterior geração. Esta é a verdadeira dimensão da crise.  

Para vencer, para ultrapassar cinquenta anos de derrotas, novos métodos, novas ideias, novos protagonistas são necessários. É nossa tarefa preencher esse vazio que aborrece a natureza, organizando a juventude trabalhadora que tomou as ruas na Greve Geral, dando-lhe um propósito e armando-a com as ideias do comunismo revolucionário. 

Viva a Greve Geral! 

Viva a juventude trabalhadora! 

Viva a classe operária! 

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