Introdução
Esta reflexão de Ted Grant que publicamos sobre o entrismo foi escrita em 1959, no auge do boom capitalista dos famosos “30 anos gloriosos” quando, pelo menos nos países mais avançados, os reformistas conseguiram, em boa medida, aplicar o seu programa e as classes trabalhadoras experimentaram uma melhoria palpável nas suas condições de vida. Nas palavras do então primeiro-ministro britânico MacMillan: “nunca o tiveste tão bom“.
Este longo período de ascensão capitalista só foi possível devido ao desfecho peculiar da Segunda Guerra Mundial e ao descarrilamento da onda revolucionária que se lhe seguiu pela traição tanto dos estalinistas como dos social-democratas.
Não é apropriado, nesta introdução, examinar as razões de um boom capitalista tão prolongado no período pós-guerra. Basta assinalar que, logo à seguir ao fim da guerra, enquanto todos os dirigentes da IV Internacional viam por todo o lado ditaduras policiais e militares, a estagnação e a crise económica, a derrocada do estalinismo e, ao mesmo tempo, a eclosão iminente da Terceira Guerra Mundial, Ted Grant e o RCP britânico foram os únicos a explicar que no Oriente os estalinistas tinham levado a cabo o derrube do capitalismo, embora com métodos burocráticos e com vista à construção de regimes semelhantes a Moscovo; e que, no Ocidente, uma contrarrevolução sob forma democrática lançara as bases políticas para todo um período de recuperação capitalista.
Quanto tempo seria, não estava na capacidade de ninguém o prever. Em 1959, ainda estávamos a uma década do Maio francês, da ofensiva do Tet no Vietname ou do “Outono quente” italiano.
A profunda recessão que Grant previu que viria, quando toda a esquerda “marxista” se rendera ao keynesianismo militar, chegou um pouco mais tarde do que ele próprio pensava, mas as perspetivas políticas delineadas neste artigo, embora adiadas por um período, seriam plenamente confirmadas quando o Militant, a partir da década de 1970, cresceu exponencialmente para se tornar uma organização com milhares de ativistas na Grã-Bretanha aplicando, precisamente, as táticas descritas neste seu artigo que agora publicamos em português.
No entanto, em 1959, as forças vivas do marxismo ainda estavam reduzidas a um pequeno grupo pelo difícil contexto da época, marcado pelo período de estabilidade sem precedentes do capitalismo. Mas não só! Todo o naufrágio da Quarta Internacional transformou um contexto difícil num descalabro.
Para além de todos os possíveis e imaginários erros políticos de análise, prevaleceram ainda métodos de trabalho interno na Quarta Internacional em que o debate era substituído por expurgos e as diferenças políticas resolvidas por meios disciplinares, os quais atiraram a secção britânica para o abismo.
Uma das polémicas foi, precisamente, a questão do entrismo. Embora Grant e a maioria do PCR britânico considerassem que não havia condições para o trabalho entrista no Partido Trabalhista no final da década de 1940, os líderes da Quarta Internacional primeiro permitiram que Gerry Healy e a minoria do PCR se juntassem ao Labour (cindindo na prática a seção) e, mais tarde, coagiram o resto do PCR a se juntar também, sob pressão para manter unida a secção britânica.
Já sob os auspícios e a autoridade de Healy, que estava à frente do “The Club” (como era chamado o grupo criado dentro do Partido Trabalhista), rapidamente, abusando da sua autoridade ungida e do apoio dos líderes da Quarta Internacional, tratou ele de expulsar qualquer um que se lhe opusesse. E Ted Grant também acabou expulso… por se opor a outras expulsões!
Assim, embora tivessem rejeitado as táticas de entrismo, no contexto específico do pós-guerra, numa daquelas ironias da história, Grant e a trintena de camaradas que o acompanharam viram-se simultaneamente expulsos da IV Internacional e a fazer entrismo no Partido Trabalhista!
Para Ted Grant, e antes dele Trotsky e Lenine, o entrismo nunca foi uma questão de princípio, mas sim uma escolha tática: como fazer crescer um pequeno grupo comunista, quando as ideias, tendências e organizações reformistas predominam dentro do movimento operário?
Para os sectários a construção do Partido é um não-problema. Para citar Trotsky: “O sectário olha para a vida da sociedade como uma grande escola, com ele mesmo como professor. Em sua opinião, a classe operária deveria deixar de lado seus assuntos menos importantes e se reunir em posição sólida em torno de sua tribuna: então a tarefa seria resolvida.”
A maior parte dos pequenos grupos da chamada esquerda revolucionária comporta-se tal e qual: tudo o que é preciso, nas suas diversas variações, é proclamarem-se como o partido revolucionário e esperar que as massas o descubram.
Também em Portugal assim acontece. O caso mais extremo será talvez o dos companheiros do Trabalhadores Unidos. Aqui temos uma pequena organização de escassas dezenas de ativistas cuja estratégia passou por recolher milhares de assinaturas com vista à sua legalização e assim concorrer a eleições, apresentando-se como a alternativa revolucionária aos partidos da esquerda parlamentar, ainda que não haja quaisquer raízes na classe que sustenham tamanha ambição.
Normalmente, quando se buscam atalhos para alcançar a classe trabalhadora, tudo o que se encontra é o caminho mais rápido para o abismo. Se quando os companheiros do TU, do Em Luta, do Semear o Futuro e do remanescente MAS eram todos o mesmo partido (MAS) e tal metodologia não resultou… porque haveria de resultar agora quando se tenta novamente, mas de uma base muito mais debilitada?
Isto já para não ir ao PCTP/MRPP que há mais de 50 anos se proclama como o “Partido” do proletariado! Que benefícios colheu?
Outros, como os companheiros do Ruptura, em face do que chamam “maré baixa” da luta de classes, isto é, em face da grande massa da classe trabalhadora os ignorar (e, por ora, a todos os que se apresentam como revolucionários), remetem-se como “grupos de estudo comunista”, fechando-se na “crítica impiedosa” e inquéritos à classe. Mas também eles em busca de atalhos, mais recentemente exortaram ao “debate necessário entre organizações e projetos da esquerda «revolucionárias» sobre teoria, programa, organizações, estratégia e táticas”.
Mas se os próprios confessam, duas linhas abaixo “que nenhum de nós percebe muito bem nem o que está a passar nem o que podemos de facto fazer”, dir-se-ia que tal convergência, parafraseando Ted Grant, se acaso ocorresse seria a forma mais expedita de unificar duas tendências em dez…
Certa vez Trotsky afirmou que o marxismo é a superioridade da previsão sobre o espanto. Este artigo de Grant é um resumo perfeito disso: não foi com base na “maré baixa” dos anos 50 ou com o pessimismo impressionista alimentado com as derrotas do período passado, mas com ideias claras sobre os processos que se iriam desenvolver no futuro, que se estabeleceram as táticas e os métodos corretos que permitiram a uma trintena de camaradas estar a construir, volvidos alguns anos, uma corrente revolucionária impactante no UK e até uma organização internacional, da qual somos hoje herdeiros na Internacional Comunista Revolucionária.
Hoje, como em 1959, o desafio persiste: como contruir uma organização comunista de massas? Todavia, existem duas grandes diferenças: o capitalismo vive não um período de auge geral, mas de crise sistémica; e a autoridade política dos líderes reformistas no seio da classe trabalhadora (mesmo com novos rostos e roupagens que venham a surgir) está muito debilitada.
Hoje, ao contrário de 1959, já não remamos contra a maré, mas temos o vento da história a insuflar as nossas velas. As forças vivas do marxismo revolucionário são ainda pequenas, mas com ideias claras e métodos certos irão crescer exponencialmente no próximo período.
Isto, claro, sob condição de não nos rendermos à chantagem do entorno e à pressão do impressionismo, de não procurarmos atalhos ou impormos ultimatos à classe trabalhadora: esta irá pôr-se em movimento nos seus tempos, modos e ritmos.
Não temos forma de saber quando isso será feito e como será ao pormenor, mas cabe-nos a nós comunistas, com a máxima flexibilidade tática e simultaneamente com total independência ideológica, defender as ideias revolucionárias junto das massas trabalhadoras, onde quer que elas estejam e nas lutas em que se envolvam, apresentando sempre o comunismo como horizonte e meta de todos os seus e nossos esforços.
RF
Problemas do Entrismo
Ted Grant, Março de 1959
É necessário, em várias fases, reexaminar e analisar os princípios, políticas e táticas do Movimento, quer em benefício dos novos membros, quer para consolidar e atualizar as ideias dos quadros de base. À luz dos recentes acontecimentos (Newsletter Industrial Conference, formação da Liga Socialista Trabalhista), e devido à relativa calmaria no Partido Trabalhista no momento atual, este parece ser um momento adequado para reexaminar algumas das nossas conceções básicas sobre os problemas do trabalho na Grã-Bretanha.
Aos grupos sectários dissidentes à margem ou à esquerda da Quarta Internacional (a Liga dos Trabalhadores, a Federação Socialista dos Trabalhadores e outros grupelhos minúsculos), o problema coloca-se nos termos mais simples: a social-democracia e o estalinismo traíram a classe operária; portanto, o partido independente da classe trabalhadora deve ser imediatamente construído. Eles reivindicam a independência do partido revolucionário como um princípio, quer o partido seja composto por dois ou dois milhões.
Não levam em conta o desenvolvimento histórico do movimento da classe operária, que condiciona a tática, mantendo os princípios dos marxistas. Sem táticas flexíveis é impossível ganhar ou treinar as forças que têm de ser conquistadas para que um partido revolucionário possa ser construído.
Infelizmente, o movimento da classe trabalhadora não prossegue em linha reta. Caso contrário, bastaria proclamar das esquinas a necessidade de um partido revolucionário – como o SPGB proclama há 50 anos a superioridade do socialismo sobre o capitalismo – mas com resultados completamente estéreis.
Temos de começar por uma compreensão da classe operária e do movimento Trabalhista tal como ele emerge historicamente, com a consciência determinada por condições objetivas, por um lado, e a traição do estalinismo e da social-democracia, que para nós são fatores objetivos, por outro; e a debilidade das forças revolucionárias, que se torna também um fator importante do processo histórico. Como superar a fraqueza e o isolamento do movimento revolucionário, mantendo intactos os seus princípios, é a tarefa básica desta época.
Infelizmente o movimento da classe trabalhadora raramente se move em linha reta. Caso contrário, o capitalismo teria sido derrubado há décadas. A traição da Revolução pela social-democracia em 1914-20 levou à formação da Internacional Comunista, que se pretendia como um órgão da Revolução Mundial. A degeneração da Revolução e a subsequente traição ao estalinismo tiveram como consequência a desorientação do proletariado mundial.
No entanto, uma coisa é os quadros do movimento revolucionário compreenderem o papel do estalinismo e do reformismo; é uma questão diferente para as massas, e até mesmo para a guarda avançada ativa, que em geral só aprende pela experiência.
A vitória de Hitler e o fracasso da IC [Internacional Comunista] em aprender as lições destes acontecimentos, marcaram o fim da IC como arma para o derrube do capitalismo e a instauração de uma nova sociedade que conduzisse à criação de um sistema socialista.
Foi isso que levou a Oposição de Esquerda a declarar a formação de novos partidos revolucionários e da nova Internacional. Nem o Partido Trabalhista nem o Partido Comunista podiam servir as necessidades da revolução socialista. Mas há um longo caminho entre proclamar a necessidade de um partido revolucionário e a possibilidade de poder formar um partido de massas.
Historicamente, o Movimento Marxista foi atirado para trás. Está isolado das principais correntes de opinião dentro do próprio Movimento Operário.
Foi nessas condições que o problema do entrismo foi levantado por Trotsky. É também significativo que tenha sido levantada pela primeira vez em relação aos problemas na Grã-Bretanha, o que talvez seja uma indicação para as perspetivas futuras.
Aqui podemos apenas fazer um breve esboço da história do entrismo na Grã-Bretanha, tratando apenas dos pontos mais importantes, que são de interesse para fins de esclarecimento e discussão.
A questão foi levantada pela primeira vez em relação ao trabalho no Partido Trabalhista Independente.
Como resultado da experiência do governo trabalhista de 1929-31 e dos acontecimentos mundiais desse período, da crise económica catastrófica, da ascensão do fascismo na Alemanha, a fé no reformismo foi quebrada entre muitos setores do movimento. A oposição à política de rendição e recuo do governo MacDonald cristalizou-se, no Partido Trabalhista, nas fileiras do ILP.
O ILP separou-se do Partido Trabalhista (na questão errada, no momento errado, e sem mobilizar apoio no amplo movimento Trabalhista). Isso significava que dezenas de milhares de trabalhadores organizados no ILP estavam-se movendo em uma direção revolucionária, longe do reformismo e em direção ao marxismo. Nesta fase, as suas ideias estavam confusas; meio revolucionárias, meio reformistas. Poderiam ser conquistados pelo programa revolucionário, ser absorvidos pelas perversões do estalinismo, voltar ao reformismo ou cair na apatia. A questão não estava de todo resolvida.
Em 1932, os trotskistas na Grã-Bretanha foram expulsos do Partido Comunista (por defenderem uma frente única com os socialistas na Alemanha e na Grã-Bretanha). Eles lançaram um jornal mensal, mas ainda assim permaneciam isolados do mainstream do movimento da classe trabalhadora. Nessas condições, Trotsky sugeriu aos camaradas britânicos que o campo de trabalho mais fecundo na Grã-Bretanha seria entre os trabalhadores do ILP em movimento para a esquerda.
Infelizmente, os líderes mais experientes do Movimento resistiram e tentaram manter uma organização independente (não por muito tempo – eles logo entraram no Partido Trabalhista, e mais tarde sua organização foi dissolvida) e apenas os mais jovens e menos experientes entraram no ILP. Apenas sucessos modestos foram registados. No período seguinte, o ILP começou a derreter como uma força séria devido a vacilações e à confusão da liderança.
Em 1935, o movimento Trabalhista começou a recuperar-se do desastre de 1931. E com o declínio do ILP e a perspetiva de apenas insignificantes novos ganhos, se não perdas, neste meio estagnado, Trotsky levantou a questão do trabalho de entrada no Partido Trabalhista. Os sucessos do LP nas eleições autárquicas, as greves, a possibilidade de guerra civil que parecia aproximar-se – tudo isso teria o seu reflexo nas fileiras do LP e tornaria os seus melhores elementos recetivos às ideias revolucionárias. No entanto, eles não dariam ouvidos a uma pequena organização fora do mainstream do movimento Trabalhista. O problema da construção da tendência revolucionária era o problema de penetrar no movimento operário, especialmente nos setores politicamente conscientes organizados no Partido Trabalhista. O LP, como expressão política do movimento sindical organizado, representava também a classe operária organizada e sectores dos trabalhadores não organizados. Assim, a única maneira pela qual o trabalho dos revolucionários não seria paralisado era atuando no seio das massas. Teríamos de aprender a expressar ideias revolucionárias numa linguagem que os trabalhadores compreendessem, combatendo habilmente os reformistas passo a passo, mas sem abandonar ideias ou perspetivas revolucionárias.
O camarada Trotsky sugeriu encerrar a experiência de entrada no ILP e conduzir o trabalho no Partido Trabalhista. A história do período subsequente demonstra que, naquela fase, essa era a tática correta.
A classe operária não chega facilmente a conclusões revolucionárias. Hábitos de pensamento, tradições, as dificuldades excecionais criadas pela transformação das organizações tradicionais socialistas e comunistas em obstáculos no caminho da revolução; tudo isso colocou obstáculos formidáveis no caminho da criação de um movimento marxista de massas.
Toda a história demonstra que, nas primeiras fases do levantamento revolucionário, as massas recorrem às organizações de massas para tentar encontrar uma solução para os seus problemas, especialmente a geração jovem, entrando pela primeira vez na política. A experiência de muitos países demonstra-o. Na Alemanha, apesar de os espartaquistas representarem dezenas de milhares de trabalhadores revolucionários empenhados na luta contra a Primeira Guerra Mundial, e apesar de a direção social-democrata ter traído os trabalhadores ao apoiar a guerra e opor-se à revolução de 1918, foi para esta última que os trabalhadores se voltaram pela primeira vez após a eclosão da revolução. Foram necessários anos de lutas revolucionárias e contrarrevolucionárias (para além dos erros da direção) até que o PC se transformasse de um pequeno partido num movimento de massas.
Esta experiência de cada despertar revolucionário nos últimos 50 anos na Europa demonstra a verdade desta teoria. Com as minúsculas forças que somos capazes de mobilizar neste momento, seria ridículo supor que o desenvolvimento da revolução na Grã-Bretanha seguirá qualquer outro caminho. Mesmo como força independente – se tivéssemos as forças e os recursos – seria necessário ter em conta este processo. Quanto mais quando, em relação aos problemas colocados pela história, ainda somos uma mão-cheia minúscula. A tarefa é converter este punhado num grupo integrado com raízes no movimento de massas e depois, a partir de uma organização de quadros, num agrupamento mais amplo, conduzindo ao desenvolvimento de uma organização de massas. A forma como isso deve ser feito é a principal consideração tática que domina o trabalho da organização nesta fase.
Voltando à questão histórica do entrismo. A partir de 1936-9, este problema foi colocado pelos desenvolvimentos na Grã-Bretanha. Não é nossa intenção tratar das disputas desse período dentro do Movimento, que são apenas de interesse histórico. Mas a eclosão da guerra em 1939 interrompeu o processo e deu um rumo diferente aos acontecimentos.
E aqui o problema da tática como tática, e não como fetiches definitivos, mostra sua real importância. Os líderes trabalhistas e sindicais entraram numa coligação com a classe capitalista e, num estágio posterior, entraram no governo sob Churchill. As organizações Trabalhistas declinaram em atividade e como organizações vivas e funcionais. Os jovens estava nas Forças Armadas. Mais tarde, o Partido Comunista, com a entrada da Rússia na guerra, tornou-se a organização mais zelosa a romper greves. Isso deu enormes oportunidades ao trabalho independente. Os maiores sucessos do trotskismo na Grã-Bretanha foram obtidos durante este período. A WIL, que formava a parte principal do Partido Comunista Revolucionário na fusão das forças trotskistas em 1944, havia mudado sua tática no início da guerra como resultado da experiência da situação objetiva. A partir dos militantes na indústria e nos sindicatos criaram-se os primórdios de uma vanguarda. Mas mesmo no auge dos sucessos do PCR, na discussão dos problemas do entrismo, colocou-se a questão de fundo da provável entrada das forças revolucionárias no Partido trabalhista. Nas discussões sobre a questão, foi explicado que, mesmo que um pequeno partido de alguns milhares fosse criado, não seria suficiente para as tarefas impostas pela história. Se uma ala esquerda de algumas dezenas de milhares se levantasse no LP sob os golpes de martelo dos acontecimentos, seria necessário, onde a filiação não pudesse ser obtida, entrar com o propósito de influenciar esses elementos a avançar numa direção revolucionária; embora, naturalmente, nessa fase, a tónica fosse colocada na construção de um partido independente.
Os acontecimentos à escala mundial tomaram uma direção diferente do que tinha sido ou poderia ser previsto pelos trotskistas no período pré-guerra. O estalinismo na Rússia e no Oriente, o reformismo e o estalinismo no Ocidente foram temporariamente reforçados por toda uma série de fatores.
Na Grã-Bretanha, isso refletiu-se na vitória do governo trabalhista. Chegando ao poder num momento de boom causado pela destruição da guerra, o governo trabalhista de 1945 funcionou em condições totalmente diferentes daquelas sob o governo trabalhista de 1929. A classe dominante tinha perdido a confiança como resultado da mudança de estatuto da Grã-Bretanha no mundo. Nominalmente vencedora, a Grã-Bretanha não tinha nada além de perdas para colocar no seu balanço como resultado da guerra. As indústrias básicas tinham sido deixadas em decadência, com equipamentos antiquados e famintas de capital. Para a Grã-Bretanha competir nos mercados do mundo, ela precisava de carvão, transporte, aço, eletricidade baratos, etc. A iniciativa privada não estava disposta a disponibilizar as enormes somas necessárias para modernizar estas indústrias. Daí a tolerância, ou oposição morna dos capitalistas à nacionalização das indústrias. A onda do despertar revolucionário espalhou-se por toda a Ásia, incluindo a Índia. A classe dominante percebeu a impossibilidade de manter essas áreas sem uma guerra longa e em grande escala, que a Grã-Bretanha não poderia sustentar. Daí a concessão do controlo às classes capitalistas da Índia, Birmânia e Ceilão. Com os enormes lucros obtidos pelo grande capital, e com base na expansão da atividade económica, as migalhas podiam ser oferecidas como concessões às classes trabalhadoras. Nesta base, os líderes trabalhistas, pelo menos nos primeiros anos, poderiam introduzir certas reformas, como o Sistema Nacional de Saúde. Os empréstimos e a ajuda Marshall concedidos pelos Estados Unidos também fortaleceram a economia. O capitalismo americano não teve outra alternativa senão subscrever o governo trabalhista britânico. Mas o facto de, em grande medida, o governo trabalhista ter levado a cabo o seu programa e de, graças às horas extraordinárias, às mulheres a trabalhar, aos regimes de bónus e a um mercado com escassez crónica de mão-de-obra, as condições terem melhorado em comparação com o pré-guerra, especialmente com o desaparecimento do desemprego, fez com que as ilusões no reformismo se fortalecessem no seio da classe trabalhadora organizada. Assim, prevaleceu a condição oposta à que tinha prevalecido com um governo trabalhista trabalhando em condições de recessão.
Nessas condições, a tendência revolucionária tendia a ficar isolada. Este não é o momento nem o lugar para uma análise dos erros do PCR e do movimento em geral naquele momento. Mas uma coisa foi demonstrada pelos acontecimentos históricos; as condições de entrada, tal como elaboradas por Trotsky no passado, não se aplicavam. Estas condições podem resumir-se do seguinte modo:
(a) Situação pré-revolucionária ou revolucionária.
(b) Fermento na social-democracia.
(c) Desenvolvimento de uma ala esquerda.
d) A possibilidade de rápida cristalização da tendência revolucionária.
Nenhuma dessas condições existia na época. Os Healyites1 no PCR levantaram pela primeira vez a questão. As suas perspetivas eram falsas. Em 1950, eles estavam explicando num documento para seu Congresso que a questão era socialismo ou fascismo dentro de um ano. Não haveria mais eleições gerais, etc. A sua perspetiva baseava-se numa apreciação completamente errada da situação.
No entanto, uma vez dissolvido o PCR e estando todas as forças do trotskismo no Partido Trabalhista, o problema de como trabalhar no partido e com que perspetiva era muito vital. É preciso entender que nossas próprias forças são muito fracas para criar uma ala esquerda de proporções de massa. A nossa função é conquistar os elementos mais avançados e criar quadros dentro do Partido. Ao mesmo tempo, com base no nosso trabalho e nas nossas posições políticas, ganhando posições nas secções locais do Partidos Trabalhista, comités, conselhos, etc., tudo isto é um trabalho preparatório para a grande tarefa do futuro. Por outro lado, vestirmo-nos com as vestes do reformismo de esquerda durante um período seria desastroso. Todas as aventuras dos Healyites a este respeito terminaram ingloriamente. É verdade que as condições de entrada, tal como Trotsky as delineou, ainda não estão presentes, mas seria o cúmulo da estupidez abandonar agora o trabalho no Partido Trabalhista e lançarmo-nos em aventuras independentes depois de uma década ou mais de trabalho lá. As condições para o trabalho independente também não são favoráveis. Independentemente do que se tenha ganho com a independência no passado, não se podem esperar enormes ganhos no futuro imediato. Pois tais ganhos seriam desproporcionais às possibilidades futuras no Partido Trabalhista.
Entretanto, lançar como tónica principal o trabalho independente prejudicaria o trabalho futuro que poderia ser realizado no Partido Trabalhista. Assim, obteríamos as piores desvantagens de ambas as táticas. Não será possível reentrar facilmente em condições de fermentação no Partido Trabalhista, pois a Transport House2 teria uma lista de todos os trotskistas proeminentes do período passado.
De qualquer forma, é realmente um desempenho extraordinário quando a situação objetiva está às vésperas da transformação no próximo período, tanto nacional quanto internacionalmente, com tremenda repercussão nas fileiras do movimento operário, abandonar o campo justamente quando se desenvolverá a possibilidade de um trabalho realmente frutífero. Trotsky havia explicado como, ao se preparar para a entrada, algumas pessoas deveriam ser enviadas para tomar o pulso, ver quais eram as possibilidades, etc. A nossa [tarefa] consiste agora em trabalhos preparatórios para o próximo período. Se fôssemos uma organização independente neste momento, estaríamos a preparar as nossas forças para a entrada. Longe de nos retirarmos, estaríamos a enviar cada vez mais das nossas forças para preparar o caminho para a entrada total. As nossas forças no Partido Trabalhista seriam capazes de nos informar da situação ali existente e, aos primeiros sinais de uma tempestade que se acumulasse, teríamos entrado. Nestas circunstâncias, é o cúmulo da loucura, do ultra-esquerdismo irresponsável, lançar uma aventura neste momento: uma aventura que favorecerá a Transport House nos seus esforços para algemar a ala esquerda. Nada será ganho a longo prazo, e muito dano será feito ao trabalho no Partido Trabalhista.
Além disso, as bases seriam totalmente mal-educadas por essas constantes cambalhotas, e uma desmoralização dos membros se seguiria. De todos os pontos de vista, o trabalho é impossível sem uma compreensão das perspetivas, seja qual for a situação momentânea. Caso contrário, o trabalho prossegue de forma puramente empírica, como acontece com os Healyites, numa série de saltos convulsivos e guinadas em todas as direções. Essa tendência está à mercê de todas as conjunturas episódicas e reviravoltas nos acontecimentos, soprados por ventos momentaneamente favoráveis ou desfavoráveis, em vez de – tendo estes em conta no trabalho quotidiano e explicando aos membros o significado de todos os acontecimentos – encaixá-los em perspetivas amplas do movimento. É a incapacidade de compreender a tática do entrismo, e sua aplicação, que resultou nas novas táticas dos Healyites. Vão produzir um aborto.
O nosso trabalho no período preparatório, que ainda existe, é a conquista paciente de uns e dois, talvez de pequenos grupos, mas certamente não a criação de uma corrente revolucionária de massas, o que não é possível neste momento. Tentar gritar mais alto do que a voz pode resulta apenas em rouquidão e, em última análise, na perda total da voz. Temos que nos estabelecer como uma tendência no movimento Trabalhista.
O oportunismo é apenas o outro lado do aventureirismo. Ambos surgem de uma falsa avaliação das circunstâncias objetivas, ou de uma rendição ao ambiente imediato. É por isso que, sem uma base teórica firme e controle coletivo do movimento, é fácil sucumbir a um erro ou outro, a partir de táticas oportunistas no Partido Trabalhista ou Sindicatos (o impulso na ETU 3e outros sindicatos para a eleição de dirigentes em nome da captura de posições, sem apresentar uma plataforma revolucionária clara e acordos de bastidores com todo o tipo de elementos peculiares). Tendo queimado os dedos, é natural que os Healyites recuem para o ultra-esquerdismo. A razão ostensiva para rejeitar qualquer discussão de unidade com a RSL era que esta era a favor de uma certa quantidade de trabalho revolucionário aberto, sendo todo o trabalho, no entanto, centrado no Partido Trabalhista. Agora temos as táticas tolas da greve da South Bank, os comités de base histéricos e sem sentido (tratados na declaração da Newsletter Industrial Conference) que abrangem todos os ofícios e todas as secções dos trabalhadores. Isto não conseguiu atrair mais do que uma pequena parte dos militantes, mas conseguiu comprometer o futuro do trabalho no Partido Trabalhista.
Com os Healyites, o aventureirismo andou de mãos dadas com o oportunismo. O apoio à divisão dos estivadores em Liverpool, que teve consequências tão desastrosas, lado a lado com as táticas oportunistas da ETU.
Durante um quarto de século ou mais, a burocracia trabalhista acumulou experiência no combate ao trabalho entrista e fracionário do PC. Nesta luta, eles construíram uma formidável máquina hábil em combater a infiltração. A isto há que acrescentar uma década de experiência no combate ao trotskismo no Partido Trabalhista. Esta situação coloca dificuldades consideráveis à organização à escala nacional. É por isso que as táticas dos Healyites foram irresponsáveis no último período. Se a Transport House segurou a sua mão até há pouco tempo, preparando-se apenas para ações contra indivíduos, é porque se sente segura na sua posição. Atualmente, com a capitulação dos Bevanites4 (além do grupo ineficaz Vitória para o Socialismo), a burocracia sente-se relativamente segura. Está a tentar abafar qualquer oposição, apelando a uma mobilização dos membros para uma campanha para derrotar os conservadores nas próximas eleições gerais.
Durante algum tempo, poderá ter êxito, ou consegui-lo parcialmente. A publicação dum lustroso panfleto sobre o programa eleitoral do Partido Trabalhista assegurará a aceitação de, pelo menos, a maior parte dos membros, na esperança de que, com a eleição do Governo trabalhista, as coisas melhorem indubitavelmente.
É justamente neste momento que o trabalho entristas no Partido Trabalhista assumirá a maior importância. Pela primeira vez, serão possíveis ganhos importantes à escala nacional no próximo período. No entanto, é justamente neste momento que os Healyites em ação mostraram seu desespero por alcançar resultados. Isso decorre das suas perspetivas anteriormente incorretas, quando viram uma esquerda de massa em cada incidente que se desenvolveu na última década no Partido Trabalhista
Na situação atual, parece provável que os trabalhistas ganhem as próximas eleições, especialmente se a economia permanecer estagnada e o desemprego atingir um milhão ou mais durante o inverno. O programa do Partido Trabalhista tem algo para todos, e os discursos demagógicos de Gaitskell na televisão e no país terão sido notados pelas bases. Caso os trabalhistas vençam as próximas eleições, a fatura será apresentada aos trabalhadores em conformidade. Os elementos avançados nos sindicatos e no partido exigirão passos na direção do socialismo. Os capitalistas, por sua vez, exercerão pressão sobre o governo, e os líderes trabalhistas ficarão sem rumo, com seu programa reformista em frangalhos, no meio. A perspetiva política do próximo governo trabalhista será mais a de 1929 do que a de 1945.
As reivindicações dos trabalhadores, nos sindicatos e no Partido Trabalhista, ganharão força e impulso, após o primeiro período de choque e aguardando atentamente que as promessas dos líderes trabalhistas sejam cumpridas. A massa da classe trabalhadora só aprende com a experiência. Isso se aplica também aos elementos mais ativos e avançados em geral, além da ala marxista que se orienta por cálculos teóricos. A maior parte da nascente Esquerda é guiada por considerações práticas e julgará o movimento de acordo com os resultados alcançados. No entanto, eles serão um público recetivo e atento quando o reformismo não conseguir cumprir as promessas.
Em condições de crise e luta, haverá renovação de todo o movimento operário. Os membros das comissões de trabalhadores que envelheceram e se tornaram subservientes à gestão nas fábricas onde foram obtidas condições relativamente boas no período passado serão substituídos por militantes mais jovens; os funcionários sindicais que não reflitam a mudança de humor dos trabalhadores serão removidos. Os delegados aos congressos e os representantes municipais trabalhistas dos sindicatos que hoje em geral quase se escolhem a si próprios, devido à indiferença prevalecente nas filiais sindicais, teriam que refletir o clima ou se veriam removidos. Os grupos de base e as assembleias gerais refletiriam o novo estado de espírito, e uma forte oposição em movimento à esquerda se desenvolveria. Em todo o caso, a classe operária lutará e o desenvolvimento da luta revitalizará e renovará o Movimento; especialmente os jovens, donde mais ganhos foram feitos no último período de trabalho, radicalizar-se-iam e procurariam uma alternativa de esquerda.
Nessas condições, formar-se-ia no seio do Partido Trabalhista uma forte corrente de esquerda reformista ou mesmo centrista, com uma base de massas: uma corrente semelhante à que se desenvolveu no Partido durante o segundo governo trabalhista, quando se afastaram do reformismo. Se houvesse uma ala marxista, ou mesmo uma fração forte trabalhando nesse meio, as bases poderiam ter sido lançadas para o desenvolvimento do partido revolucionário. Uma oportunidade semelhante voltará a ocorrer nas novas circunstâncias. Esta é a justificação histórica para a política do entrismo.
Iremos intervir nesta corrente e tentar fecundá-la com as ideias do marxismo. A visão conservadora da classe trabalhadora britânica e do movimento Trabalhista, historicamente condicionada pelos desenvolvimentos das últimas décadas, pode desaparecer rapidamente sob o golpe de martelo dos acontecimentos. Os elementos avançados estarão dispostos a ouvir ideias revolucionárias que possam mostrar uma saída para o impasse em que o Partido Trabalhista se encontrará como resultado das políticas da direção. O reformismo parecerá falido para essa importante camada da classe trabalhadora.
A este respeito, há a lição da experiência do pós-guerra. Sob o ímpeto da onda revolucionária que varreu a Itália, a social-democracia dividiu-se entre direita e esquerda, sob Nenni. No entanto, sem qualquer alternativa revolucionária real que lhes fosse apresentada, o movimento foi capturado e tornou-se um satélite de viagem dos estalinistas.
Existe um perigo semelhante na Grã-Bretanha, apesar da forte reação anti-estalinista que se seguiu aos acontecimentos húngaros. O que há de ala esquerda é permeado por ideias estalinistas, especialmente na questão da política externa. Fora do Partido Trabalhista, com a ajuda do grande número de companheiros de viagem e estalinistas disfarçados, a menos que fossem ativamente combatidos dentro do Partido, eles poderiam conseguir ganhar o controle e atordoar o movimento. Por outro lado, qualquer corrente reformista de esquerda de oposição, que poderia, sob o golpe de martelo dos acontecimentos, até mesmo separar-se do Partido Trabalhista, não poderia manter-se por muito tempo. Ou faria a transição para uma posição revolucionária, ou cairia de volta ao reformismo ou se desintegraria rapidamente. A nossa época não tem espaço para formações centristas de carácter duradouro. É por isso que a perspetiva para o próximo período abre a perspetiva de que o trabalho entrista seja realmente frutífero.
Por outro lado, se o fracasso dos líderes trabalhistas em oferecer uma alternativa socialista ousada, mesmo em termos reformistas, à política e ao programa dos conservadores; a sua fraca oposição no Parlamento; o seu fracasso em mobilizar os trabalhadores para um esforço real para se livrar do governo, resultar na vitória sem precedentes do governo conservador em três eleições gerais, não irá isso alterar as perspetivas nos seus fundamentos. A luta dos trabalhadores será então em termos extra-parlamentares no terreno industrial. Nestas circunstâncias, os burocratas trabalhistas e dos sindicatos seriam obrigados a balançar-se para a esquerda e a arrastar o partido, pelo menos em palavras, para uma luta socialista contra o governo conservador. A base seria completamente desperta e crítica. Em condições de luta, uma ala esquerda seria rapidamente cristalizada. Contra uma classe operária mobilizada, o governo conservador, depois de testar a resistência dos trabalhadores, a certa altura, dependendo da situação económica, se a oposição da classe operária ameaçasse tornar-se demasiado forte, com o governo a perder o seu apoio, tentaria refrear as massas através de um governo trabalhista. Isso preparará o caminho para a reação e para métodos mais cruéis contra a classe trabalhadora. Por outro lado, se os conservadores tentarem combater duro e sem luvas a classe operária, isso será inevitavelmente refletido nas fileiras da classe trabalhadora e, portanto, do Partido Trabalhista. As bases tornar-se-iam críticas à falta de luta das lideranças, e uma efervescência começaria nas fileiras, levando ao desenvolvimento da esquerda e conclusões revolucionárias.
De qualquer forma, a perspetiva é de uma intensificação da luta de classes encontrando seu reflexo nas fileiras do movimento operário. Esta deve ser a perspetiva básica a que nos propomos.
O nosso trabalho diário dentro das filiais dos sindicatos e do Partido Trabalhista, das concelhias e assembleias deve estar imbuído dessas ideias. Atualmente, a burocracia da Transport House depende apenas de um estrato fino dos seus membros para a suster a sua máquina. A experiência da última década teve o seu efeito nas bases. Em grande parte, contam com o apoio dos seus funcionários e vereadores a tempo inteiro. Nem mesmo com todos eles. Uma grande parte, em vários grupos [locais], apoia a esquerda. Em condições de crise, esse estrato, cujo horizonte é limitado pela rotina dos assuntos locais, seria afetado pelo humor das bases. Enquanto isso, o peso da burocracia está neste estrato, e o Relatório Wilson, com a sua separação em muitos casos dos conselhos sindicais dos grupos locais do Partido Trabalhista, o desmembramento das concelhias e a maior ênfase nas circunscrições eleitorais, diminui o peso específico do delegado do sindicato e aumenta o peso da máquina eleitoral do partido.
O Partido exige a brisa renovadora da luta de classes, que ponha à prova todos os matizes e graus do partido.
Temos de olhar para a frente com confiança no nosso trabalho diário de pacientes nos grupos locais, assembleias e comissões de trabalhadores. As nossas perspetivas gerais devem, em cada fase, ser vistas à luz dos acontecimentos para efeitos de verificação, renovação, correção ou extensão dos prognósticos básicos, consoante o caso.
Uma coisa é certa. A atual viragem para a direita em França e na Europa, até certo ponto até na Grã-Bretanha, será sucedida por uma fantástica viragem para a esquerda. Eventos, eventos, eventos, vão abalar os alicerces do Partido Trabalhista. Os grupos de base no partido e nos sindicatos tornar-se-ão fóruns de discussão revolucionária. O ambiente estagnado no partido e no país vai transformar-se.
Como resultado das traições dos bevanitas, algumas das esquerdas desanimaram e tendem a abandonar o partido. Serão substituídos por dezenas, centenas e milhares de militantes no período que se avizinha. A experiência de uma greve é uma analogia valiosa. Cada militante que participou de uma greve experimentou o efeito acelerador na consciência dos trabalhadores. Eles aprendem ávida e rapidamente. No decorrer da ação e da discussão, eles aprendem em dias e semanas o que, de outra forma, poderia levar anos.
À escala nacional, especialmente com os trabalhistas no poder, com a pressão implacável da luta de classes a pôr impiedosamente à prova todos os programas e perspetivas, o resultado será o mesmo. As condições excecionalmente favoráveis que reforçaram o reformismo em 1945 são extremamente improváveis de se repetirem exatamente da mesma forma.
Trabalhando com as bases para o regresso dum governo trabalhista, ao mesmo tempo que criticamos as insuficiências do programa, nesta fase podemos preparar a nossa base nas áreas em que trabalhamos. O nosso trabalho quotidiano deve estar indissoluvelmente ligado às nossas perspetivas gerais.
A necessidade mais vital para todos os revolucionários é um bom senso de proporção. Por um lado, para termos um sentido adequado da história – sem isso estamos perdidos –, por outro lado, para encontrar uma ponte para o futuro, tendo em conta o atual relaxamento de forças. As nossas forças e recursos atuais são extremamente reduzidos. Essa tem sido a maldição da época. A partir das nossas forças e tarefas atuais, temos de elaborar uma perspetiva do dia-a-dia, sem sucumbir ao ambiente reformista que nos pressiona no período atual.
O trabalho teórico e independente de educação das nossas próprias forças deve prosseguir em simultâneo com o nosso trabalho no Partido Trabalhista. Uma é tão importante quanto a outra. Uma ou outra, por si só, é inadequada se quisermos cumprir o papel que a história nos impõe.
Coletivo Comunista Revolucionário Comunistas Revolucionários de Portugal