Crise, Instabilidade e Radicalização
“Existem décadas em que nada acontece; e existem semanas em que décadas acontecem” – Lenine
A instabilidade é a característica mais inequívoca do nosso tempo, desde as relações internacionais entre grandes potências à precariedade das nossas vidas. Os trabalhadores, em especial os mais jovens, não podem antever ou projetar o que será o seu dia de amanhã. Concomitantemente, nenhum grande capitalista, especulador de mercados financeiros ou chefe de Estado pode igualmente fazê-lo. Há, porém, uma grande diferença: eles fazem contas à curva de ganhos e lucros e nós façamos contas ao salário para chegar ao fim do mês.
No centro desta instabilidade, um nome se destaca: Donald Trump. Ele, porém, não é a causa, mas a consequência, um sintoma da época de crise e instabilidade em que vivemos. Para os liberais (e para os reformistas) Trump é um doido fascista. Na verdade, embora a sua sanidade possa ser questionada e ele tenha a souplesse dum elefante numa loja de porcelanas, não deixa de haver um certo método na aparente loucura: o método de defender os interesses do capitalismo norte-americano numa época de relativa decadência do seu poder, enfrentando a ascensão de novas potências que desafiam agora o poder hegemónico que alcançou no fim da guerra fria.
Muito se fala na “mudança de valores” do governo americano. Trump não é mais nem menos imperialista que os seus antecessores, mas ao contrário deles não se importa com aparências e nem se dá ao trabalho de camuflar as suas intervenções imperialistas (Iémen, Venezuela, Cuba, agora o Irão) com piedosas declarações sobre “direitos humanos” ou “democracia”. Não ironicamente Trump tem a vantagem de falar sem filtros: “We want the oil”.
A guerra contra o Irão
Embriagado com o sucesso na Venezuela, Trump avançou em força para uma nova aventura militar, desta vez contra o Irão. Confiando nos seus próprios preconceitos raciais como antes dele outros imperialistas, julgava que também no Irão bastava dar um pontapé na porta para todo o edifício desabar. Contudo, ao contrário do venezuelano, o governo dos mulás não rebolou e deu a pata. Trump esperava uma guerra relâmpago, que durasse dois ou três dias. Passaram, porém, semanas sem que um fim se encontre ainda à vista ou qualquer dos declarados objetivos políticos da guerra tenham sido alcançados: mudança de regime, fim do programa nuclear, fim da dissuasão balística, fim do apoio ao chamado “eixo da resistência”.
Apesar de toda a fanfarra belicista e do patriotismo encenado, desde o princípio que esta guerra conta com a oposição da maioria do povo norte-americano. E esta guerra tem demonstrado também os limites do poder militar americano. Sim, é verdade que os Estados Unidos (e Israel) assassinaram o Aiatola e vários dirigentes do país, bombardeando de forma bastante violenta o Irão. Logo no primeiro dia o ataque deliberado a uma escola matou cerca de 170 crianças. Foi um hediondo crime de guerra. Contudo, se esses bombardeamentos ceifaram vidas e arrasaram importantes infraestruturas civis como inúmeras escolas e hospitais, já é mais discutível se conseguiram eficazmente erodir as capacidades militares iranianas.
Por outro lado, não é possível qualquer mudança de regime sem “botas no terreno” e o governo dos Estados Unidos não tem nem os efetivos, nem o equipamento, nem as linhas logísticas, nem sequer o apoio doméstico para tal empreitada. Muito pelo contrário: na realidade há já munições vitais cujos stocks estão bastante delapidados como os mísseis de defesa patriot, os mísseis de cruzeiro tomahawks ou as bombas JASSM. Os Estados Unidos, que já não possuem a base industrial do passado, levarão anos a retomar os níveis de 2022, prévios à guerra do Irão e da guerra da Ucrânia.
Quanto ao Irão, este, por sua vez, conseguiu manter um ritmo bastante estável de lançamento de mísseis balísticos e drones durante todo este tempo, atingindo (e tornando inabitáveis) várias bases americanas e destruindo várias instalações e interesses económicos americanos e dos vários países do Golfo, que apoiaram a ofensiva americana, bem como de Israel. O Irão conseguiu não apenas sobreviver, mas demonstrar que é capaz de ripostar através duma guerra assimétrica. Obrigou os Estados Unidos a queimar milhões de dólares no lançamento de mísseis de defesa contra drones com um custo de poucos milhares (e mesmo assim sem ser capaz de detê-los), manteve as esquadras de porta-aviões americanos à distância, demonstrou o quão frágeis e indefesas eram as bases norte-americanas no Médio-Oriente, e sobretudo, encontrou no controlo do estreito de Ormuz a sua “bomba atómica”.
Muito se tem especulado que Trump possa num dado momento declarar vitória e abandonar a operação “Epic Fury”. As realidades geoestratégicas, porém, são mais teimosas que o pensamento esperançoso, os spins e as narrativas mediáticas.
Caso se mantenha (e é o mais provável) no controlo do Estreito de Ormuz isso fará do Irão, malgrado toda a destruição dos bombardeamentos americanos e israelitas, o poder-chave do Médio Oriente, capaz de controlar o comércio de hidrocarbonetos a seu bel-prazer e com um enorme ascendente sobre os países do Golfo, até aqui Estados-clientes dos americanos. E sacrificadas por Washigton, que vantagem teriam essas dinastias corruptas em manter as alianças militares com os Estados Unidos ou sequer o sistema do petrodólar, pelo qual vendem o petróleo em moeda americana que depois reinvestem nos mercados financeiros e imobiliário norte-americanos?
Isso significaria uma mudança na correlação de forças entre as potências imperialistas, cujos efeitos podem e efetivamente terão um impacto em todo o mundo. Por isso mesmo, dificilmente poderão os Estados Unidos simplesmente virar costas. Tudo farão para tentar impedi-lo.
Ora, quanto mais durar esta guerra, mais duradouros serão os seus efeitos na economia mundial. As plataformas de prospeção petrolífera ou campos de gás, as refinarias, instalações portuárias ou oleodutos atingidos por todo o Médio-Oriente, levarão meses, nalguns casos anos, a serem reparados ou reconstruídos. Mesmo aqueles poços de petróleo ou gás que não foram atingidos, mas obrigados por force majeure a interromper as operações, poderão levar de semanas a meses para avaliar a pressão dos poços, limpeza de equipamentos e estimulação dos reservatórios.O próprio tráfego marítimo levará muitas semanas a retomar o seu ritmo habitual após a reabertura do estreito de Ormuz. A retoma da normalidade na produção e comercialização dos hidrocarbonetos levará o seu tempo.
Entretanto, a escassez de petróleo e gás terão consequências bem sérias. Não apenas no campo energético, mas em toda a indústria petroquímica que produz elementos essenciais dos microchips aos adubos. Daqui a poucos meses haverá crises alimentares nos países mais pobres. Convulsões, guerras civis e levantamentos revolucionários serão inevitáveis nos países mais afetados. A vaga revolucionária do ano passado (Nepal, Madagáscar, Indonésia…) empalidecerá diante dos movimentos futuros.
Toda a economia mundial está suspensa dum abismo. A Agência Internacional de Energia já afirmou que o mundo enfrenta a maior interrupção de fornecimento de petróleo da história. E o FMI alertou, entretanto, para a possível duplicação do preço do petróleo e risco de recessão nos próximos meses. A frágil recuperação do pós-covid está já comprometida, mas quanto mais tempo se arrastar a guerra, mais perenes e profundas serão as consequências para o conjunto da economia mundial.
Isso apenas irá exacerbar os conflitos interimperialistas. A guerra ao Irão, tal como a agressão à Venezuela, atingiram dois dos mais importantes fornecedores de petróleo da China. No passado, o bloqueio petrolífero ao Japão foi um fator decisivo que precipitou o ataque japonês a Pearl Harbour.
A existência de arsenais nucleares torna mais difícil um confronto direto, pelo risco de destruição mútua. Porém, a tentativa americana de conter o desenvolvimento da China não irá ficar por aqui. Na verdade, um novo patamar foi atingido: às tarifas e restrições à exportação de tecnologia, somaram-se nos últimos meses os bloqueios navais, o que tem atingido a liberdade de navegação de e para a China. Isso é uma ameaça clara de estrangulamento económico ao país que é o maior exportador do mundo.
A luta encarniçada por novos mercados, matérias-primas e recursos numa economia mundial marcada pela “sobrecapacidade”, isto é crise de sobreprodução, vai continuar. A globalização, que no passado foi um dos pilares do desenvolvimento capitalista permitindo a ascensão da China e de outros poderes, está agora a dar lugar ao protecionismo e às guerras comerciais, quando não cinéticas. Independentemente de como e quando acabar a agressão imperialista ao Irão, no capitalismo a paz será apenas uma trégua temporária entre duas guerras. E a fatura será sempre passada à classe trabalhadora.
A crise da Europa
Berço do capitalismo, a Europa nesta época de crise sistémica é o “homem doente” da economia mundial, com taxas de crescimento económico, de produtividade ou inovação bem abaixo dos seus principais rivais. A produtividade europeia, por exemplo, é 40% inferior à produtividade americana.
O capitalismo europeu envelheceu, não lidera nenhum sector de ponta. A classe dominante europeia tornou-se complacente. Até num setor onde dava cartas, como na indústria automóvel, atrasou-se irremediavelmente. Enquanto os fabricantes alemães se obstinavam com os motores a diesel, os novos fabricantes chineses saltaram diretamente para o futuro, desenvolvendo os melhores e mais baratos carros elétricos.
Em 2024, o antigo governado do Banco Central, Mário Draghi, apresentou um relatório à Comissão Europeia escalpelizando as causas do atraso europeu. Desde então a UE não foi capaz de avançar um milímetro.
Draghi aludia à perda de energia barata russa que tem provocado custos muito acima dos praticados nos Estados Unidos, de 2 a 3 vezes para a eletricidade industrial e de 4 a 5 para o gás natural. Com a guerra no Médio-Oriente isto só irá agravar-se: o Qatar (um dos países mais atingidos) tinha-se tornado num dos principais fornecedores de gás LNG, por força das sanções à Rússia, mas agora as suas exportações cessaram.
Seguidamente, focou o “excesso de regulamentação” da Europa onde, para infelicidade dos seus capitalistas, desde as férias pagas à proteção ambiental, da licença de maternidade à proteção de dados, vai existindo ainda uma “regulamentação” que, fruto da luta dos trabalhadores e das particularidades do período anterior, melhor protege os trabalhadores europeus, comparando com o que sucede nos Estados Unidos ou na China.
O “modelo social europeu” – tão elogiado no passado como um “valor “europeu” – é afinal agora declarado obsoleto e chamado ao sacrifício para salvar os lucros dos capitalistas da Europa e também para financiar o seu rearmamento. Não há político burguês que não lamente “o excesso de regulamentação” da UE, mas o que eles convenientemente omitem é que boa parte dessa “regulamentação” nem sequer se destina a proteger os trabalhadores, o ambiente ou a saúde pública, mas a garantir proteção para o mercado nacional de e para cada uma das 27 burguesias europeias!
E aqui chegamos ao principal problema da Europa: esta confronta-se com a ausência de um mercado bancário e financeiro unificado, possuindo apenas consórcios e empresas de “pequena dimensão” (comparativamente com a escala dos monopólios chineses e americanos) ciosos de conservarem as vantagens competitivas nos seus respetivos 27 mercados nacionais europeus, com os seus próprios modelos fiscais e de financiamento, regulamentos e legislações que, em cada país, protegem a respetiva burguesia.
O estado nacional é um obstáculo ao desenvolvimento das forças produtivas, mas na Europa cada burguesia necessita da proteção do seu próprio Estado nacional. Este é um nó górdio que não conseguem desatar.
Enfim, os diversos Estados europeus não têm os meios para produzir monopólios com a dimensão e a produtividade necessárias para competir com os gigantes americanos e chineses. Falta-lhes uma centralização em todos os domínios: mercados de capitais, aprovisionamento energético, infraestruturas, investigação e desenvolvimento, orçamento e dívida europeia conjunta, muito menos em política externa.
Para nós, comunistas revolucionários, o projeto de União Europeia sempre foi caracterizado como sendo simultaneamente quimérico e reacionário. A unidade da Europa sob bases capitalistas não é fazível. Mesmo beneficiando no passado dum longo período de estabilidade, a integração europeia só avançou até um certo ponto. Por detrás das palavras de circunstância e doses massiva propaganda europeísta, as diferentes classes dominantes com os seus respetivos interesses próprios e rivalidades específicas não desapareceram, e estas sempre reemergem em períodos de crise. A unidade europeia não é possível de ser alcançada e, se o fosse, seria às custas da classe trabalhadora e contra ela.
E agora, em face da previsível vitória russa na Ucrânia, do deslocamento do foco do interesse americano para a área do Indo-Pacífico, a ascensão da China e as guerras comerciais em curso, é até provável que os 27 países da UE comecem a gravitar em direções diferentes. Se a isto somarmos a ascensão da direita populista, então a continuação da União Europeia, tal como a conhecemos não é, de todo, um dado adquirido.
Essa dinâmica centrífuga apenas acentuará os problemas da Europa. Esta crise já está a ter um impacto na consciência de milhões de trabalhadores que, apesar de toda a exploração capitalista, nas últimas décadas gozaram de padrões de vida minimamente aceitáveis, pelo menos em comparação com os dos trabalhadores de outras latitudes. Isso agora terminou. Tão só os planos de rearmamento e remilitarização da Europa, que serão acelerados pela retirada americana de recursos para o Médio-Oriente e Pacífico, obrigarão a uma profunda erosão do “Estado social” e prefiguram uma verdadeira declaração de guerra à classe trabalhadora europeia.
Portugal precisa de um novo Abril
“Nós comunistas não precisamos duma catástrofe na bolsa de valores, não precisamos duma depressão profunda, não precisamos de nada disso, porque as contradições têm-se desenvolvido bastante bem ao tempo presente.” Alan Woods, Revolution Festival 2025
Há poucas semanas o primeiro-ministro quis evocar os dois anos de governação AD. Elencou feitos e proezas, mas de acordo com os vários estudos de opinião divulgados, os portugueses não estão para festas. Duas sondagens davam a vitória ao PS em caso de eleições, com a AD a registar perdas até um quarto dos votos obtidos um ano antes. Noutra, mais de metade dos portugueses pronunciaram-se “desiludidos” com o governo: 60% acham que o país tem ido pelo “caminho errado”. E, quando se esmiuçava sobre o que pensam sobre habitação, custo de vida ou impostos, o grau de insatisfação batia os 90%. Finalmente, a cereja no topo do bolo: novo estudo revelou que mais de metade dos portugueses considerava o governo Montenegro pior do que o último executivo de António Costa. E todos nos lembramos como António Costa saiu pela porta pequena…
Pode-se argumentar que são apenas sondagens, estudos de opinião… e é verdade que por vezes se têm equivocado, mas os resultados apresentavam diferenças e margens que pouco lugar dúvidas podem deixar, sobretudo se colocados em contexto. Ainda há poucos meses, por exemplo, o candidato presidencial do governo AD teve 11% dos votos e ficou em quinto lugar. Junte-se-lhe a oposição da maioria dos trabalhadores portugueses ao pacote laboral ou a perceção generalizada sobre o desastre que foi a resposta do governo às tempestades de Inverno que provocaram o caos na região centro, e será justo e exato afirmar que o governo AD perdeu qualquer sombra de um estado de graça que algum dia pudesse ter tido.
Isto é a consequência, não apenas nem principalmente da incompetência técnica deste governo, mas sobretudo das suas escolhas de classe com a crise geral do sistema capitalista como pano de fundo. Da habitação aos SNS, do custo de vida aos rendimentos, todos as escolhas do governo têm prejudicado a classe trabalhadora e a maioria do povo português.
Tome-se a crise da habitação. No último ano o preço da habitação subiu em média mais de 17%. Foi o maior aumento de sempre. Num país cuja economia tem um carácter tão explicitamente rentista como a portuguesa, na qual o contributo do sector imobiliário (vocacionado para construção de luxo e vendas a investidores estrangeiros) representa entre 15 a 18% do PIB, nenhum governo burguês irá beliscar, muito menos enfrentar, os interesses instalados da classe dominante. Somem-se a pressão da indústria do turismo (12% do PIB) e os lucros gerados pelos financiamentos bancários que alavancam tudo isto, e daqui resulta que as cidades só serão nossas quando os meios de produção (e de crédito) estiveram nas nossas mãos.
Quem pode, portanto, estranhar que o governo estimule a “oferta”, com redução de IMI na venda de casas, do IRS a declarar por proprietários que arrendam ou que garanta a 100% os empréstimos bancários para aquisição de imóveis, assegurando que a Banca não venha a incorrer em perdas caso haja incumprimentos?
Que tudo isto seja feito tão à descarada, mais do que escolhas “ideológicas” resulta das contingências económicas do capitalismo. Na divisão mundial do trabalho o lugar de Portugal não é brilhante. Pelo contrário, é uma economia de baixa produtividade, com produção de baixo valor acrescentado, de utilização intensiva de mão-de-obra e respetivos baixos salários no turismo e construção, da restauração à agricultura…
Dum ponto de vista capitalista, estas realidades foram amplamente vindicadas pelo pacote laboral apresentado pelo governo AD, no qual as mais de 100 propostas de alteração às leis laborais têm como fio e propósitos condutores o embaratecimento do custo do trabalho através da precarização, liberalização dos despedimentos e degradação das condições laborais e de proteção e luta sindical. A propaganda do governo e dos patrões insiste que estas mexidas visam modernizar a economia portuguesa, mas que incentivos terão os patrões para investir em nova maquinaria, técnicas ou processos, se poderão manter e até ampliar as suas margens de lucro através da sobre-exploração da classe trabalhadora, tanto nativa como imigrante? Cúmulo da hipocrisia, uma das propostas avançadas pretende cessar a obrigatoriedade da formação profissional nas pequenas empresas. “Modernização”? Só se for em direção ao século XIX.
Ciclicamente (e ainda no âmbito da propaganda) os governos de turno embandeiram em arco com este ou aquele grande investimento tecnológico captado, mas meia-dúzia de centros de dados e “unicórnios” não irão alterar a estrutura económica do país, tal como uma andorinha, não faz a primavera. Portugal não tem a dimensão, os recursos ou os capitais para disputar um mercado mundial (exíguo) com as grandes potências, nem sequer uma classe capitalista interessada nisso: é muito mais fácil, rápido e seguro recuperar os euros investidos no turismo, no imobiliário ou em contratos com o Estado, do que no investimento em indústria, tecnologia ou ciência… Curiosamente, os capitalistas estrangeiros que investem em portugal pensam o mesmo: no ano passado metade desse investimento teve como destino o imobiliário.
Somos um país pobre, periférico, envelhecido, com uma economia baseada no rentismo, na financeirização, nos monopólios naturais, no esbulho do Estado, nas baixas qualificações e na exploração desenfreada dos trabalhadores. Uma economia com índices de produtividade e investimento consideravelmente abaixo da média europeia.
Um corpo económico doente não pode sustentar uma vida política saudável. Este modelo de “desenvolvimento” económico tem sido capaz de proporcionar lucros e rendas em abundância aos patrões e proprietários, enquanto agrava a crise social.
A instabilidade tem sido, por isso, a norma da política portuguesa dos últimos anos, com uma sucessão de governos que não terminam a legislatura e uma dispersão eleitoral assinalável: há hoje 10 partidos com assento parlamentar. A coligação que governa o país não teve nem um terço dos votos.
O governo Montenegro é fraco. No parlamento passou dois orçamentos à boleia das “abstenções exigentes” dos socialistas tanto com Pedro Nuno Santos como com José Luís Carneiro, para depois abraçar as agendas reacionárias de Ventura e do Chega, perseguindo e estigmatizando minorias como imigrantes ou pessoas trans, fazendo delas bodes expiatórios e distrações para a impotência e indiferença do governo AD para resolver os problemas que impactam na vida da maioria dos trabalhadores.
Porém, infelizmente não há nada a esperar da oposição institucional.
O PS desempenhará o papel que representou durante o governo AD nos tempos da Troika: será a “leal oposição”, mais interessado em demostrar aos “donos disto tudo” que é responsável q.b. e merecedor do seu apoio futuro quando for a hora da batuta governamental trocar de mãos. É por isso que o PS viabilizou um Orçamento de Estado que corta verbas ao SNS, enquanto os trabalhadores morrem à espera de ambulâncias ou aguardam até 22 horas para serem atendidos num serviço de urgência, ao mesmo tempo que garante o “maior investimento de sempre” na Defesa, para que se compre sucata militar que acuda às guerras imperialistas e dê dinheiro a ganhar ao complexo militar-industrial… dos outros países.
À esquerda do PS a situação não é muito melhor. A única força que tem crescido, pelo menos eleitoralmente, é o Livre. Este é um partido da pequena-burguesia urbana, intelectual e “progressista”, sem quaisquer vínculos orgânicos à classe trabalhadora e que, por isso mesmo, por estar tão sujeito às pressões da classe dominante, o seu progressismo se esgote na defesa da regulação do mercado, da ecologia moralizante e do imperialismo europeu.
O Bloco de Esquerda afundou-se nos últimos anos. Boa parte do seu eleitorado passou a “votar útil” no PS ou transitou para o Livre. Menosprezando a construção de um movimento pela base, a direção do Bloco (desde a época dos seus fundadores) sempre preteriu essa necessidade à prioridade dada à dimensão mediática e parlamentar do partido e ao receio que o desenvolvimento dum Bloco radicalizado pela base pudesse obstaculizar os entendimentos que acalentava com a ala esquerda do PS. O resultado dessa má escolha estratégica é que, após a Geringonça, com a qual alcançou o desiderato de se aliar ao PS, os sucessivos desaires eleitorais não garantem que possa sobreviver a prazo como força política independente e viável. A fusão ou federação com o Livre poderá ser a tábua de salvação do que resta do aparato bloquista.
Quanto ao PCP, é a única organização política que continua a manter vínculos reais (ainda que bastante debilitados) com a classe trabalhadora e o movimento popular. Por isso, e apesar de também ter ficado associado ao falhanço da Geringonça, foi-lhe possível atenuar um pouco a dimensão da hecatombe que se abateu sobre o Bloco. Reúne ainda muitos dos mais dedicados ativistas da nossa classe, embora o envelhecimento do Partido seja alarmante. O seu reformismo de décadas, amplamente exposto na governação da Geringonça (experiência que a direção do partido continua a gabar), o conservadorismo (até) de várias das suas posições no que diz respeito às chamadas questões identitárias ou culturais são de índole a afastar, atualmente, boa parte do sector mais radicalizado da juventude. Ainda que apenas empiricamente observável, é impressionante o número de contactos que o CCR estabelece regularmente com jovens que, num dado momento, se aproximaram da órbita ou que até militaram no PCP, apenas para depois se desiludirem.
Não pode ser excluído que, sob determinadas circunstâncias, esta esquerda parlamentar à esquerda do PS possa no futuro revitalizar-se eleitoralmente, mas é muito menos claro se terão a capacidade de controlar a luta na rua e os movimentos sociais que a animarão… Nos últimos meses do ano passado, as manifestações de solidariedade com a flotilha para Gaza, bem com aquela de apoio à Greve Geral em Lisboa mostraram, ainda que de modo incipiente, não apenas o enorme potencial de radicalização entre a juventude, mas também a total incapacidade e até falta de vontade dos aparatos burocráticos tradicionais para tentar controlar e orientar esses movimentos. Décadas de reformismo e de rotina justificam a interrogação sobre se ainda saberão como fazê-lo?
Com efeito, tomemos dois exemplos grititantes: Imigração e Pacote Laboral.
De acordo com os dados oficiais há mais de 1,5 milhões de imigrantes em Portugal, a grande maioria deles trabalhadores assalariados. Eles são o sector mais explorado e oprimido da classe trabalhadora neste país. Que esforços e campanhas foram lançaram no terreno para sua defesa, mobilização e organização sindical e política?
Simultaneamente, perante aquilo que os próprios sindicatos caracterizam de “a maior ofensiva patronal nos últimos 50 anos”, não tem sido pífia a resposta do mundo do trabalho, sob a direção das duas centrais sindicais?
Mesmo com os atalhos tomados, a deficiente mobilização e esclarecimento, a Greve Geral de 11 de Dezembro foi um sucesso que ultrapassou até a dimensão do número de grevistas (e os sindicatos reclamaram 3 milhões de aderentes). Muitos dos trabalhadores que não puderam fazer greve, temendo as represálias dos patrões, simpatizavam com a greve. A maioria dos portugueses estava do lado dos sindicatos, incluindo até a maioria dos eleitores do Chega!
E que fizeram os sindicatos após esse sucesso? A UGT voltou à mesa das negociações e a CGTP, escandalosamente excluída delas, demorou dois meses e meio a convocar novos protestos após a Greve Geral, desfilando ordeiramente do ponto A ao ponto B e desperdiçando o ambiente de raiva social e repúdio ao pacote que existia em Dezembro.
Isto é manifestamente insuficiente para derrotar um pacote laboral que ameaça não apenas as condições de trabalho da classe operária, mas também a própria existência dos sindicatos, tal como os temos conhecido, tanto através das limitações que o governo avança à lei da greve com os “serviços mínimos”, como à contratação coletiva e até à livre propaganda sindical nas empresas.
Lutas anunciadas para fazer “prova de vida”, mobilizações para preencher calendário, protestos rotineiros, atomizados, isolados, performativos, enfim, têm sido a regra dos vários movimentos sociais, do trabalho à habitação, dos estudantes à luta anti-imperialista.
O aforismo “a natureza abomina o vácuo” ajusta-se como uma luva à situação. Nós comunistas revolucionários somos um grupo ainda demasiado pequeno para poder influir, quanto mais dirigir, os grandes acontecimentos que estão porvir. Mas esse vazio será ocupado. E se os velhos protagonistas não estiverem à altura, novos emergirão. O definhar das velhas estruturas de mediação reformista, longe de virem a travar essa explosão, torná-la-ão ainda mais violenta e incontrolável.
Que o reformismo possa ainda a trasvestir-se, apresentando novas caras capazes de preencher esse vazio, não nos deverá surpreender: tanto pelo nosso tamanho, como pela tendência das massas buscarem as soluções aparentemente mais fáceis quando se põem em movimento, isso se torna inevitável. Mesmo agora nos Estados Unidos vimos como apesar do descrédito de Sanders ou Ocasio-Cortez, Mamdani foi eleito mayor em Nova Iorque. Contudo, não percamos de vista que são “reformistas sem reformas”, que face à crise do sistema pouco ou nada têm para oferecer e que, assim, com tão débil autoridade política serão rapidamente ultrapassados pela radicalização das massas. Não coloquemos nós, portanto, barreiras artificiais entre as ideias do comunismo revolucionário e as massas que buscam uma alternativa de classe. Saibamos ter um trabalho de agitação e esclarecimento político orientado aos trabalhadores sem lhes colocarmos ultimatos, prazos ou pré-requisitos.
Por enquanto, esse “vazio”, face à tibieza e ao colapso dos partidos da Geringonça, tem sido ocupado pela direita populista.
Sabemos bem que o Chega é um projeto reacionário que, malgrado a retórica “antissistema”, visa defender e perpetuar os grandes interesses instalados, procurando lançar o penúltimo contra o último, deitando mão do preconceito, do discurso racista e securitário, para desviar o foco da justa raiva social dos verdadeiros culpados da crise, os capitalistas e todos os políticos burgueses, para as minorias já propensas à discriminação, fazendo delas bodes expiatórios.
Nós sabemo-lo, mas aqueles trabalhadores politicamente mais recuados que canalizam a sua raiva social votando no Chega, terão ainda de o descobrir. Infelizmente, a esquerda reformista tem combatido a direita populista a partir da defesa abstrata da “democracia” e dum regime novembrista que está objetivamente apodrecido, tal como se viu na segunda volta das presidenciais com o apelo ao voto em Seguro como salvação da democracia.
Porém, como se verificou na Greve Geral, são as questões de classe que podem tirar o tapete a Ventura. Seja por quanto mais Ventura se aproximar ao poder, ou por quanto mais a luta de classes o pressionar, mais irá ele deixar cair o seu disfarce demagógico e mostrar a sua verdadeira natureza: a de um político capitalista reacionário. A ampla base social do Chega irá, perante a inevitável e consumada traição, desfazer-se. E esse sentimento de raiva social que tem alimentado o Chega procurará então novas formas de expressão. Isto terá consequências explosivas e potencialmente revolucionárias. Uma vez mais, podemos olhar para os Estados Unidos: a desagregação da base MAGA de apoio ao Trump é a antevisão do que sucederá a Ventura.
As desventuras de Trump, bem como a saída de cena de Orban nas eleições húngaras ou a recente derrota de Meloni no referendo que convocou, mostram como a direita populista está muito longe de ser imbatível. O desastre do Irão e o modo como irá destruir a presidência Trump também terá um efeito nos seus comparsas deste lado do Atlântico, Ventura incluído.
Há 10 anos, com a crise das dívidas soberanas, o pêndulo girava para a esquerda. O fracasso da Geringonça fê-lo nos últimos anos girar para a direita. Mas o governo AD, tão só ao fim de 2 anos, chegou ao fim da linha. É bem possível que se mantenha por uns tempos e que até possa sobreviver a um chumbo do Orçamento, dado que o presidente que a esquerda ajudou a eleger já disse que não seria por isso que convocaria novas eleições antecipadas!
Só a luta operária e popular será capaz de derrubar um governo já sem amplo apoio social e sem instrumentos ou margem para reconquistá-lo. As massas vão continuar a procurar por uma solução e ela não existe. Precisamente por isso, pela crise latente, uma nova inflexão do pêndulo da história é inevitável no futuro. Aproveitemos o tempo que temos pela frente para construir uma organização revolucionária capaz de apontar uma saída do pesadelo capitalista de guerras infinitas, austeridade permanente e depredação ambiental, quebrando as grilhetas, unindo e libertando a classe trabalhadora.
Coletivo Comunista Revolucionário Comunistas Revolucionários de Portugal