Chinese Revolution

A Revolução Chinesa: da traição de 1927 á vitória distorcida de 1949

A Revolução de 1925-27 foi uma tentativa heroica, mas em última análise trágica, da jovem classe trabalhadora chinesa de seguir o caminho da Revolução Russa de 1917. O apodrecido capitalismo chinês acabou sendo derrubado em 1949, mas de forma muito peculiar. O que se segue traça essa revolução desde as suas raízes na dominação imperialista, passando pela retirada rural do PCC, pela guerra com o Japão, até à eventual conquista do poder em 1949, questionando que tipo de revolução realmente foi. O seguinte artigo baseia-se na rica bibliografia da Internacional Comunista Revolucionária.


As Raízes do Comunismo Chinês


Quase um século de humilhação imperialista corroía a sociedade chinesa quando o Partido Comunista Chinês (PCC) foi fundado. Desde as Guerras do Ópio da década de 1840, a diplomacia dos navios de guerra britânicos e franceses tinha forçado a abertura dos mercados chineses, destruindo as relações sociais tradicionais e produzindo uma “burguesia compradora”, ou seja, uma classe capitalista sem qualquer independência face aos seus senhores estrangeiros, ainda mais dependente do capitalismo estrangeiro do que a burguesia russa tinha sido nas vésperas de 1905 e 1917. O controlo imperialista era económico, através da exploração do povo e dos recursos naturais da China, mas também político e militar: as grandes potências detinham “concessões” (colónias) nos principais portos e cidades chinesas. Até o pequeno Portugal tinha a sua concessão em Macau! Todavia, no campo o capitalismo não minou o velho sistema latifundiário e semifeudal. Pelo contrário, escorou-o, ligando estreitamente a jovem burguesia e o imperialismo aos latifundiários.

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Macau circa 1920 – Almeida Ribeiro

O Partido Comunista Chinês foi fundado por uma mão cheia de intelectuais em 1921, inspirados pela vitória bolchevique de 1917. Na sua génese o PCC foi liderado por Chen Duxiu e Li Dazhao. Na altura, o PCC encontrava-se sob a égide da Internacional Comunista de Lenine e Trotsky, que defendia uma política internacionalista.

O objetivo era espalhar a revolução para além das fronteiras russas. Só a revolução internacional poderia garantir, a longo prazo, a sobrevivência da União Soviética. O socialismo genuíno baseia-se na elevação radical das condições de vida das massas, aumentando a produtividade do trabalho através da sua organização racional. Portanto, pressupõe determinados requisitos técnicos e económicos que não existiam na Rússia de 1917, um país camponês e atrasado. Em última análise, só integrando a economia mundial no seu conjunto sob um plano socialista poderá estabelecer-se o comunismo. A luta pela revolução mundial era, portanto, uma necessidade premente.

O isolamento da União Soviética dos anos 1920 contribuiu para a sua degeneração burocrática. Estaline foi consolidando o seu poder em 1924-1928, como representante da nova burocracia russa. O seu programa de “socialismo num só país” pressupunha o abandono da linha internacionalista defendida por Lenine. Os partidos comunistas no estrangeiro, sujeitos a Moscovo, foram se tornando simples alavancas da política externa soviética.

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Hong Kong em 1920

A Primeira Frente Única

Sun Yat sen

 

Sun Yat-sen a ler o jornal


Estaline e a Comintern procuravam aliados poderosos que pudessem proteger as suas fronteiras do imperialismo ocidental, e para isso escolheram Sun Yat-sen, o líder do Guomindang (KMT): um partido nacionalista burguês que representava amplamente a burguesia chinesa. O Comité Executivo da Comintern, sob a orientação de política externa de Zinoviev, decidiu que o PCC deveria cessar a atividade independente e transformar-se numa estrutura de “bloco interior”, em que o partido atuaria como uma fação dentro do KMT, decisão esta que foi recebida com tremenda impugnação pelos militantes do PCC.

A submissão do PCC ao KMT significava que os membros comunistas tinham de seguir a liderança do KMT por um período não especificado de tempo, significando ceder as suas informações pessoais dos militantes do PCC ao partido nacionalista e que estes não tivessem qualquer liberdade de crítica. Apesar da oposição interna, a decisão foi forçadamente imposta ao PCC pelo Comintern.

A aliança do PCC com os nacionalistas do Guomindang foi concebida como uma versão chinesa da tática bolchevique de frente única de “marchar separados, atacar juntos”. Na prática tornou-se algo inteiramente diferente, um acordo unilateral em que o PCC fez profundas concessões políticas e organizativas que os bolcheviques nunca teriam aceitado. Os comunistas não descartam a colaboração com outras organizações, até com movimentos anti-imperialistas burgueses como o KMT em países coloniais. Todavia, o requisito inegociável da frente única desenvolvida por Lenine, é a independência política e organizativa do Partido Comunista e a liberdade de crítica aos “parceiros” dos comunistas. Explicava Lenine (“Teses sobre a questão nacional e colonial”, 1920):

“A Internacional Comunista deve concluir uma aliança temporária com a democracia burguesa das colónias e dos países atrasados, mas não fundir-se com ela, mantendo incondicionalmente a independência do movimento proletário, mesmo sob as suas formas mais rudimentares.”

Essa independência foi sacrificada por Estaline e Zinoviev na China, no altar da aliança com o KMT.

Sun Joffe manifesto

 

Manifesto Sun-Joffe, de 26 janeiro de 1923

O modelo foi definido pelo Manifesto Sun-Joffe, de 26 de janeiro de 1923, um acordo entre o delegado soviético Adolphe Joffe e o líder do KMT, Sun Yat-sen, no qual Moscovo renunciou publicamente a ideia de um sistema soviético para a China, desistindo efetivamente dos objetivos socialistas (programa máximo), como a ditadura do proletariado, do PCC como preço da aliança.

“Durante o período em que o poder pertence à burguesia, a divisão do nosso programa em programa máximo e programa mínimo reveste um significado profundo e fundamental de princípio. O próprio facto de a burguesia estar no poder elimina do programa mínimo todas as reivindicações que são incompatíveis com a propriedade privada dos meios de produção. Estas reivindicações formam o conteúdo de uma revolução socialista e pressupõem a ditadura do proletariado.”

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Trotsky a ler o jornal “The Militant”

“Mas a divisão em programa máximo e programa mínimo perde todo o significado, tanto em princípio como na prática, desde que o poder esteja nas mãos de um governo revolucionário de maioria socialista. Um governo proletário não pode em caso algum fixar-se em tais limites.” – Leon Trotsky, Balanço e Perspectivas, Cap VI

(Para compreender melhor a “questão” do programa máximo e mínimo o camarada pode começar por ler o capítulo 3 do Programa de Transição e o capítulo 6 do balanço e perspectivas de Trotsky.)

Fundos, armas e conselheiros soviéticos foram enviados ao KMT a partir de 1923, na esperança de conquistar o partido para a ideologia marxista. A Comintern acabou por impor esta linha política-estratégica no Terceiro Congresso do PCC, em junho de 1923, apesar de tamanha oposição interna dos comunistas chineses.

Após a morte de Sun Yat-sen, em março de 1925, criou-se um vazio de poder dentro do KMT, o que levou à ascensão de Chiang Kai-shek, que representava uma tendência fortemente anticomunista no seio de um partido altamente heterogéneo em composição, o mesmo que Sun tinha outrora unido.

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Chiang Kai-Shek de uniforme

Este processo era inevitável. Sob a casca do KMT, estavam a criar-se na China condições revolucionárias, onde o protagonista era, indubitavelmente, o jovem proletariado chinês, que soube despertar à luta as enormes massas camponesas. Apesar da política míope do PCC, esta revolução tendia para a tomada do poder dos trabalhadores. Até os setores mais “patrióticos” da burguesia chinesa eram cientes de que o movimento operário era muito mais perigoso para os seus interesses do que a dominação imperialista estrangeira. Ela faria a sua própria “frente única”: com os imperialistas, contra os operários! Portanto, foi se organizando à volta de Chiang Kai-shek no seio do KMT para esmagar os trabalhadores.

A justificação teórica para a estratégia da Comintern veio da teoria “das duas etapas” de Estaline e Bukharine, segundo a qual a China só estaria madura para uma revolução democrático-burguesa, pela qual os comunistas se deveriam subordinar ao KMT burguês e ao seu líder, Chiang Kai-shek. No início de 1926, a Comintern chegou ao ponto de admitir o próprio KMT como “partido associado” da Comintern, e Chiang foi nomeado membro honorário do seu Comité Executivo, medida contra a qual apenas Leon Trotsky votou.

“Seria o máximo do utopismo pensar que o proletariado, depois de ter ascendido à dominação política através do mecanismo interno de uma revolução burguesa, possa, ainda que o deseje, limitar a sua missão a criar as condições democráticas e republicanas da dominação social da burguesia.” – Leon Trotsky, Balanço e Perspectivas, Cap VIII

Durante o outono de 1924, à medida que Estaline consolidava o poder no governo da URSS e desenvolvia a teoria do “socialismo num só país”, a orientação da Comintern só piorava para a China.

1925-27: Revolução e Traição

A revolução de 1925 foi desencadeada pelo Movimento de 30 de Maio no mesmo ano, depois da polícia britânica ter disparado sobre estudantes que protestavam em Xangai, desencadeando uma vaga nacional de greves anti-imperialistas. O crescimento do partido foi explosivo, de 50 membros em 1925 para 1.000 no final desse ano, atingindo 57.000 em 1927, chegando a liderar os maiores sindicatos da China.

A classe trabalhadora chinesa, com perto de uma geração de existência, mostrou-se capaz de uma verdadeira liderança. Em Cantão, uma comissão de greve geria hospitais, escolas e tribunais, sendo um verdadeiro embrião do poder operário. Tratava-se de uma situação de duplo poder, o que significava que os trabalhadores tinham a sua própria forma de governo, paralelo ao governo capitalista. Isto é uma das provas de que só a classe trabalhadora era capaz de liderar uma verdadeira luta de libertação nacional. A classe trabalhadora chinesa não se limitaria a uma simples mudança de bandeiras, trocando a bandeira britânica pela chinesa: defenderia as suas reivindicações sociais e económicas de classe, golpeando os interesses capitalistas, tanto estrangeiros quanto nativos. Devido ao carácter dominador do capitalismo chinês, a luta pela libertação nacional e a luta contra o capitalismo estavam interligadas.

Ainda assim, a Comintern manteve o PCC fiel a Chiang, mesmo quando este já se demonstrava preparado para se voltar contra os comunistas. Em abril de 1927, logo depois dos próprios trabalhadores terem libertado Xangai, Chiang deu o seu golpe contrarrevolucionário. Milhares de trabalhadores e comunistas desarmados foram assassinados, muitos com ajuda do acesso às suas informações pessoais por parte dos nacionalistas devido à colaboração entre partidos, no “Massacre de Xangai”.

Com a vitória da contrarrevolução veio uma vaga brutal de repressão. A ditadura de Chiang Kai-shek significou a quase destruição da ainda pequena classe trabalhadora chinesa. E citando Ted Grant, Chiang tinha como objetivo “tornar ilegais os sindicatos, as organizações camponesas, o Partido Comunista, e privar as massas de todos os direitos”.

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Chen Duxiu

Chen Duxiu que ainda era líder do partido tinha-se oposto à política estalinista dos membros do PCC trabalharem dentro do KMT, avaliando corretamente que a burguesia nacional era contra-revolucionária. Ao invés de admitirem os seus próprios erros, o que teria dado razão a Trotsky na luta faccional paralela que decorria em Moscovo, a Comintern culpou Chen pela catástrofe causada pela estratégia escolhida, rotulando-o de oportunista e afastando-o da liderança e, mais tarde, do próprio partido. Esse era o método burocrático dos estalinistas: para salvaguardar o prestígio da direção em Moscovo, eles descarregavam sempre a responsabilidade pelos seus erros em bodes expiatórios nos partidos estrangeiros.

A catástrofe de abril de 1927 foi consequência da política reformista da Internacional Comunista sob Estaline, que atrelou os comunistas chineses aos burgueses do KMT. As tentativas subsequentes de se aliar à “ala esquerda” do KMT (o grupo de Wuhan) fracassaram: essa suposta “ala esquerda” também receava os comunistas, divergindo de Chiang apenas quanto à forma e ao momento em que os traía. Esta política catastrófica foi seguida por uma guinada no sentido contrário: para um esquerdismo exacerbado. O PCC, agora sob a chefia de Li Lisan, protagonizou uma vaga de insurreições armadas inevitavelmente condenadas ao fracasso. A mais famosa (e trágica) foi a revolta de Cantão em dezembro de 1927, afogada em sangue. Estas guinadas mostram a falta de perspetivas da Internacional Comunista, que, em vez de prever os acontecimentos, reagia empiricamente a eles, “corrigindo” os seus erros através de viragens radicais para o extremo oposto.

O Nascimento do Trotskismo Chinês

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Colagem de fotos dos trotskistas chineses

A traição de 1927 deu origem ao trotskismo chinês. Muitos jovens estudantes chineses na Universidade Comunista dos Trabalhadores do Oriente (KUTV), em Moscovo, testemunharam em primeira mão a luta entre Estaline e Trotsky. Karl Radek, diretor da universidade e integrante da Oposição de Esquerda russa, usou a sua posição para ganhar muitos estudantes chineses para a análise de Trotsky, segundo a qual a burguesia chinesa era incapaz de completar a revolução democrática, e que só o proletariado o poderia fazer. Em 1928, a maioria dos estudantes chineses em Moscovo simpatizava com a Oposição.

Dentro da China, Chen Duxiu recebeu ordens da nova direção do PCC para escrever uma repudiação pública da Oposição de Esquerda. Em vez disso, escreveu uma carta reconhecendo que as posições de Trotsky eram “consistentes com o marxismo e o leninismo”, ao mesmo tempo que criticava arduamente tanto os burocratas que seguiam cegamente a Comintern como a linha ultraesquerdista de Li Lisan, que se voltou para uma política aventurista que ignorava as nuances nas suas decisões, alegando que podiam acelerar a luta de classes. Claro que estas críticas, no mínimo, frustraram os oportunistas.

Qu Qiubai, que viria a ser o novo líder ao lado de Zhou Enlai e Li Lisan, colaborou com a Comintern para facilitar a sua destituição, além de difamar Chen como o responsável pelo entrismo no KMT, levando à expulsão de Chen Duxiu em 1929 e, nesse mesmo ano, à fundação da Oposição de Esquerda Chinesa. Esta funcionou sobretudo como uma corrente não oficial dentro do movimento comunista mais amplo, e não como um partido totalmente separado.

Os trotskistas chineses nunca superaram as enormes desvantagens práticas que enfrentavam: não tinham recursos financeiros, nem bases rurais, e viam-se traídos, denunciados à polícia do KMT pelo próprio partido oficial. Os factores enunciados combinados com uma verdadeira tendência para o sectarismo interno condenaram o movimento a permanecer uma corrente pequena e perseguida, com razão na sua análise, mas incapaz de alterar o curso dos acontecimentos. Os trotskistas chineses eram inexperientes, e compensavam a sua imaturidade política com posições sectárias. Eles tentaram improvisar uma nova direção em condições muito difíceis no furacão dos acontecimentos após 1927. Mas a direção revolucionária não se pode improvisar, deve construir-se antes dos grandes acontecimentos rebentarem, já que o tempo de seleção e formação dos quadros exige um tempo que a revolução não garante.

A Retirada para o Campo, e a Génese do Maoísmo

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Mao Tsé-tung

Depois de 1927, o PCC foi forçado a sair das cidades para o campo, não como uma escolha estratégica, mas, no essencial, como uma improvisação não planeada nascida da derrota. Como Estaline não podia admitir que a estratégia de 1927 tinha falhado sem dar razão à Oposição de Esquerda, Moscovo empurrou o partido destroçado para o ultra-esquerdismo, com a crença de que a mera força de vontade poderia gerar uma vaga revolucionária, independentemente das condições reais. Mas o importante aqui era, sobretudo, salvar o prestígio de Estaline e dos seus amigos. Isto produziu insurreições urbanas suicidas, sendo a mais notória a Comuna de Cantão, de três dias, em dezembro de 1927, que dizimou ainda mais os quadros urbanos remanescentes do partido.

Após o fracasso de uma insurreição armada liderada pelo PCC em Wuhan, a cidade foi cercada por 6.000 soldados do Guomindang. Durante este período, houve aproximadamente 40 decapitações por dia, os corpos sem cabeça eram deliberadamente deixados expostos como aviso à população das consequências das suas atividades, exemplificando a natureza brutal do KMT.

O impacto da contra-revolução sobre o carácter de classe do PCC foi drástico, os operários industriais representavam 58% dos membros do partido em 1927, mas menos de 1% em 1931. Tornou-se numa organização de intelectuais pequeno-burgueses, camponeses e ex-operários. Assim o partido tinha-se tornado, nas cidades, uma entidade sem qualquer relevância, e permaneceria desta forma até depois da revolução de 1949.

Fugindo para sobreviver, Mao Zedong e Zhu De estabeleceram a primeira base rural nas montanhas de Jinggangshan, escolhidas não por qualquer promessa revolucionária, mas porque o terreno era árido e estrategicamente sem valor para o KMT, e, portanto, mais seguro. O Exército Vermelho, que viria eventualmente a contar com 10.000 homens, tinha de ser alimentado por uma população camponesa local de apenas cerca de 2.000 pessoas, um fardo económico impossível naquela conjuntura.

Em 1931 foi estabelecido o mais vasto e viável Soviete Central de Jiangxi, onde reformas agrárias como a Lei da Terra de 1931 confiscaram propriedades feudais para redistribuição aos camponeses. Mas estes “sovietes” pouco tinham a ver com os conselhos operários da Rússia de 1917, que tinham surgido organicamente da auto-organização da  durante as greves gerais. Os sovietes rurais chineses foram, pelo contrário, criados artificialmente e dirigidos a partir do exterior pelo Exército Vermelho, a administração política seguia a conquista militar, ao contrário das táticas marxistas, em que o inverso deveria acontecer. Nestas regiões fronteiriças sem lei, o Exército Vermelho viu-se frequentemente obrigado pelas suas necessidades a absorver chefes de bandidos locais, o próprio Mao admitiu a resultante “vagabundagem”, uma perda de disciplina proletária e uma deriva para o carácter de um bando militar ambulante.

A luta guerrilheira é um método de luta antitético à revolução proletária. A guerrilha opera sobre a base de uma ferrenha disciplina militar, que abafa a democracia e gera tendências burocráticas. Na guerrilha, as considerações militares acabam sempre por eclipsar os critérios políticos. Por exemplo, uma determinada região pode ser ocupada por ser geograficamente inacessível para o exército inimigo, e não pelo clima político entre os seus habitantes. Além disso, a base social da guerrilha é sempre o campesinato, que pode desempenhar um papel revolucionário, mas nunca de forma independente: ele precisa da chefia do proletariado urbano. O campesinato é demasiado heterogéneo e disperso para desempenhar um papel autónomo. Não consegue reorganizar a sociedade em moldes socialistas. Nas condições específicas de países esmagadoramente agrários, a luta guerrilheira pode ser aceitável para os comunistas, mas sempre como arma auxiliar do movimento operário urbano. A aposta unilateral do PCC na luta guerrilheira condenou-o à degeneração burocrática e militarista e à perda das suas últimas ligações com o proletariado.

As cinco Campanhas de Cerco de Chiang Kai-shek eventualmente tornaram insustentável a base de Jiangxi, forçando a Longa Marcha de 6.000 milhas, em outubro de 1934, cerca de 90.000 comunistas partiram, e aproximadamente 90% morreram pelo caminho. Na Conferência de Zunyi, em 1935, Mao aproveitou o desastre para afastar a liderança alinhada com Moscovo e estabelecer o seu próprio controlo, consolidando a transformação do partido numa força de guerrilha rural, afastada, tanto geográfica como politicamente, do proletariado.

O maoísmo não foi, portanto, uma brilhante previsão teórica, mas uma justificação retroativa para este isolamento rural, substituindo, o que deveria ser, um movimento consciente da classe trabalhadora por um exército camponês movido pela força de vontade. Isolado e sem prestar contas a qualquer base da classe trabalhadora organizada, a cultura interna do partido alterou-se em conformidade: no início da década de 1940, cerca de 90% dos seus membros eram de origem pequeno-burguesa (sobretudo camponesa e intelectual), substituindo o que restava de coletivismo proletário pela visão fragmentada das camadas médias rurais, e favorecendo tanto um “culto a Mao” como uma estrutura de comando de “cima para baixo”, culminando no slogan “todo o poder nasce do cano de uma espingarda” que apesar de soar apelativo, é erróneo. Preso entre proprietários de terras, camponeses ricos e camponeses pobres, o partido funcionava cada vez mais, não como um instrumento da luta de classes, mas como um árbitro bonapartista tentando equilibrar-se entre elas.

A Guerra com o Japão e a Segunda Frente Única

 

A ocupação japonesa da Manchúria, em 1931, e a sua escalada para uma invasão total a partir de 1937, transformaram novamente o equilíbrio de forças. Temendo a agressão japonesa contra as fronteiras soviéticas, Moscovo ordenou ao PCC que formasse uma segunda frente única contra o Japão. Chiang Kai-shek negava-se a abrandar a guerra contra o PCC, independentemente da invasão japonesa. Isso gerou fortes conflitos no seu exército, e levou ao seu rocambolesco sequestro por parte dos seus próprios generais. Ao final, acedeu formalmente a formar uma aliança com os comunistas, mas sem a real intenção de a respeitar.

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Japoneses bombardeiam Wanping

A aliança em nada reformou o KMT. O regime de Chiang continuou mais interessado em cercar os comunistas com as suas melhores tropas do que em combater o Japão. O recrutamento do KMT era feito com uma brutalidade medieval, camponeses eram amarrados uns aos outros pelo pescoço, morrendo de fome antes sequer de chegarem à frente de batalha, enquanto as políticas de “terra queimada” do regime, nomeadamente a inundação do Rio Amarelo em 1938, mataram milhões de civis chineses em nome de abrandar o avanço japonês.

O PCC estabeleceu bases “soviéticas” em zonas remotas, fazendo crescer os seus membros de 40.000, em 1937, para 800.000, em 1940. Usaram “equipas de trabalho armado” para conduzir agitação política, muitas vezes usando métodos como o teatro, em regiões ocupadas pelos japoneses. Para manter a Frente Única, o PCC suspendeu os confiscos radicais de terras, concentrando-se em vez disso na redução de rendas e juros. Esta postura procurava não só aliciar o KMT, mas também os latifundiários. Essa política reformista limitou o potencial para o alastramento do comunismo entre os camponeses, enquanto a maioria dos latifundiários sempre olhou para o KMT. Todavia, estas reformas moderadas foram suficientes para despertar milhões de camponeses à luta. Independentemente da vontade do PCC, a guerra foi radicalizando-se, adotando um carácter revolucionário.

A Ofensiva dos “Cem Regimentos” foi a maior ofensiva militar do PCC contra o Japão, destruindo com sucesso infraestruturas japonesas, mas provocando a devastadora contra-campanha japonesa da “Política dos Três Tudos” (matar tudo, queimar tudo, saquear tudo), que matou mais de 2,7 milhões de chineses. Em 1941, o KMT emboscou e aniquilou uma força de quartel-general do PCC com 9.000 homens, enquanto esta cumpria ordens de se deslocar. Isto pôs efetivamente fim à “aliança”, embora esta se mantivesse oficial no papel, e o PCC ganhou enorme prestígio como a vítima “leal” da traição do KMT.

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Aliança entre Chiang e Mao

         Como acontecera em 1927, a suposta “frente única” com o KMT tornou-se num entrave para a luta contra o imperialismo. Esta “frente única” facilitou a campanha unilateral de sabotagem e de ataques contra os comunistas por parte dos seus “aliados”, os nacionalistas burgueses de Chiang Kai-shek. Ainda mais importante, no altar da aliança com a burguesia “patriótica”, os comunistas sacrificaram a sua arma mais importante na luta contra o Japão: um programa genuinamente revolucionário, que ligasse a libertação nacional a uma transformação radical da sociedade. Todavia, as condições na China eram tão maturas para a revolução que o PCC desenvolveu poderosamente nestes anos: mas isso foi apesar da linha política de Mao e de Estaline.

Em Yenan (1942), Mao lançou uma campanha para esmagar a dissidência dentro do partido e campesinato, e consolidar a sua liderança. Cerca de 10.000 pessoas foram mortas em purgas que recorreram também à tortura física e à humilhação via “autocríticas” feitas em público.

A nova linha da “Nova Democracia” de Mao pôs formalmente de lado qualquer aparência de uma política socialista, mesmo que utópica. Tratava-se de uma democracia capitalista. Esse regime supostamente iria harmonizar os interesses dos burgueses com os dos operários e camponeses pobres. Mas esses interesses são irreconciliáveis, e ainda mais num país subdesenvolvido e oprimido pelo imperialismo como a China dos anos 1940. Essa “Nova Democracia” acabaria onde acabou a república democrática de Sun Yat-sen em 1927: na opressão sangrenta dos operários e camponeses pelos seus “parceiros” burgueses. O confisco de terras foi suspenso, e o Exército Vermelho, renomeado Exército Popular de Libertação, ficou nominalmente subordinado ao comando do KMT. O apoio material de Moscovo foi esmagadoramente para Chiang, cerca de 300 milhões de dólares em ajuda e 500 conselheiros militares, e nenhum para o PCC, o que levou Mao a perguntar por que razão, “se tanto se podia dar a Chiang”, “os comunistas não podiam receber uma pequena parte?”

A prioridade de Estaline a meados dos anos 1940 era estabilizar as suas relações com os imperialistas britânicos e norte-americanos, com quem estavam a surgir tensões na Europa Central. Não estava interessado na revolução na China. Na verdade, nem acreditava que ela fosse possível. Ele procurava um governo “amigo” em Pequim, mas que não hostilizasse os norte-americanos, com quem tinha, de facto, dividido a região em esferas de influência no tratado de Ialta.

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Estaline e Winston Churchill na conferência de Ialta

Entretanto, os trotskistas chineses enfrentavam repressão em três frentes simultâneas: dos japoneses, do KMT, e do PCC; os últimos rotulando-os de “espiões japoneses” para justificar a sua execução. A fação minoritária de Wang Fanxi, entre os trotskistas, assumiu uma posição sectária de “neutralidade” face à guerra, tratando-a puramente como uma guerra inter-imperialista, em que a China se tinha tornado um vassalo para os interesses dos Estados Unidos, cortando-se assim do ânimo patriótico das massas. Posição que o próprio Trotsky criticou, defendendo antes uma frente única militar contra o Japão, combinada com total independência política face a Chiang, nas entrelinhas empurrando para a derrota de Chiang após a derrota japonesa.

Guerra Civil e Vitória

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Exército de Libertação Popular ocupa o Palácio Presidencial Chinês

A derrota do Japão em 1945 foi seguida, em 1947, pelo lançamento de uma ofensiva por Chiang Kai-shek para eliminar o PCC (como havia feito em 1927!). Mas o regime do KMT encontrava-se já em decadência terminal, a hiperinflação tinha feito os preços subir 2395 vezes entre 1937 e 1945, e a população urbana, incluindo a classe média, tinha desenvolvido um ódio visceral pelo regime. O capitalismo chinês estava totalmente apodrecido, e as massas estavam a revoltar-se abertamente contra o seu domínio. Nesse contexto, o PCC pôde recuperar-se até dos erros políticos mais flagrantes.

A entrada soviética na guerra contra o Japão, em 1945, permitiu ao PCC capturar cerca de 700.000 armas japonesas na Manchúria, armamento que se revelou decisivo na guerra civil que se seguiu.

O trunfo decisivo dos comunistas, no entanto, foi a terra. A sua política de 1947, “a terra para quem a trabalha”, fez com que os exércitos de camponeses recrutados por Chiang se desintegrassem através da deserção, fazendo crescer o Exército Popular de Libertação de cerca de 1 milhão para 4 milhões de homens. Apesar de mais de 3 mil milhões de dólares em ajuda americana serem entregues ao KMT, as forças de Chiang simplesmente desapareceram. Estaline, note-se, continuou a apoiar Chiang até ao fim, chegando mesmo a obter concessões de tratados com Roosevelt e Churchill, na Conferência de Ialta, sobre portos e caminhos-de-ferro na Manchúria, sem consultar o PCC, e insistindo repetidamente que Mao dissolvesse o seu exército e se juntasse a um governo de coligação, em vez de lutar diretamente pelo poder. Mao ignorou este conselho.

A 1 de outubro de 1949, Mao proclamou a República Popular da China.

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Mao a proclamar o estabelecimento da República Popular da China no dia 1 de outubro de 1949.

Um Estado Operário Deformado

A forma como o PCC alcançou a vitória marcou uma diferença fundamental face a 1917, não houve tomada de poder por conselhos operários, mas sim uma conquista militar-burocrática vinda de fora do campo. O novo estado foi, desde o início, classicamente bonapartista, um “corpo armado de homens” colocado acima das classes e equilibrando-se entre elas, em vez de expressar o domínio de qualquer uma delas.

Nos seus primeiros anos (de 1949 a 1953), o PCC chegou de facto a proteger a propriedade privada e a procurar a conciliação com senhorios e capitalistas (ao eco da “Nova Democracia”), uma fase bonapartista-burguesa, desencorajando greves para manter a indústria a funcionar, enquanto cortejava uma “burguesia nacional”. Foi a fuga dos capitalistas para Taiwan, combinada com as pressões da Guerra da Coreia, que acabou por forçar a nacionalização total e uma economia planificada no início da década de 1950, produzindo um “estado operário deformado” segundo o modelo estalinista, uma economia planificada sem qualquer traço de democracia operária.

Os resultados foram genuinamente contraditórios. Por um lado, a economia planificada alcançou êxitos sociais notáveis, a esperança de vida quase duplicou numa década (de cerca de 36 para 57 anos, e eventualmente 70), a taxa de alfabetização duplicou, e práticas degradantes como o enfaixamento dos pés e a venda de mulheres foram abolidas. Por outro lado, na ausência de qualquer controlo democrático por parte da classe trabalhadora, o regime foi propenso ao “comandismo” e ao “voluntarismo” que Ted Grant já tinha previsto em janeiro de 1949, a crença moralista de que a mera força de vontade poderia substituir as leis económicas, culminando em catástrofes como o Grande Salto em Frente, em que a coletivização forçada, sem a maquinaria necessária, custou milhões de vidas. Identificando os seus interesses ao seu controlo do Estado chinês, a burocracia maoísta adotou, como os seus mestres em Moscovo, uma política nacionalista, de defensa dos seus interesses nacionais mesquinhos. Inevitavelmente, chocando com a burocracia soviética, protagonizando o cisma sino-soviético de 1961.

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Amizade Sino-sovietica 1950

Reunindo os fios da meada, várias conclusões emergem desta história.

A burguesia chinesa era estruturalmente incapaz de liderar a sua própria revolução nacional. Como classe compradora ligada ao imperialismo desde o nascimento, não conseguia unificar o país, completar a reforma agrária, nem resistir à dominação estrangeira, facto provado duas vezes, primeiro pela ditadura de Chiang, dividida entre senhores da guerra de 1927 em diante, e seguidamente pelo colapso do seu regime, primeiro contra o Japão e depois contra o PCC.

A derrota de 1925-27 teve origem diretamente na subordinação forçada do PCC ao KMT, imposta pela Comintern, política imposta por Estaline, Bukharin e Zinoviev contra considerável oposição interna, e apenas confirmada pelo massacre de Xangai. Chen Duxiu foi culpado por uma linha à qual se tinha oposto, e que tinha sido imposta por Estaline, precisamente porque admitir a verdade teria dado razão à análise rival de Trotsky.

O maoísmo não foi uma inovação teórica positiva, mas uma racionalização retroativa da derrota. A retirada para o campo foi forçada pela destruição da base urbana e operária do partido, os “sovietes” rurais foram criações militares-administrativas impostas a partir de fora, e não órgãos de autogoverno camponês, e o exército camponês resultante foi assumindo cada vez mais características burocráticas, comandistas e até de bando militar de tipo lombroso, tal como os seus próprios líderes reconheciam.

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Mao – Red Sun Propaganda

Porque o proletariado tinha sido dizimado em 1927, um exército camponês liderado pelo estalinismo veio a substituí-lo em 1949. A revolução daí resultante não foi, portanto, uma revolução proletária, de conselhos operários, como a de outubro de 1917, mas uma conquista militar-burocrática, bonapartista na sua forma desde os seus primeiros dias.

O regime que daí surgiu foi uma realização distorcida, “deformada”, da Revolução Permanente. Apesar da intenção declarada de Mao de preservar o capitalismo, sob a “Nova Democracia”, durante cem anos, a lógica da luta e a hostilidade da própria burguesia forçaram o novo estado a nacionalizar a indústria e a evoluir para uma economia planificada muito mais depressa do que estava previsto, um resultado alcançado hierarquicamente a partir de cima, por decreto burocrático, e não através da atividade consciente da classe trabalhadora. Assim a revolução Chinesa tornou-se numa confirmação distorcida da teoria da revolução permanente, acabando em última instância pela burguesia nacional ser incapaz de levar avante a revolução democrática. A classe trabalhadora como organização foi removida e o seu papel foi tomado pelo campesinato. O desenvolvimento da China deu-se desta forma com influência da URSS e do carácter pequeno-burguês do campesinato.

O veredito final sobre um regime deste tipo, como os trotskistas há muito defendem, é um de dois, ou uma revolução política em que a própria classe trabalhadora toma o controlo democrático do estado que herdou, ou a eventual restauração do capitalismo por uma camada da própria burocracia encarregada com defender a economia planificada, o que, de forma geral, foi exatamente o que aconteceu na China nas décadas seguintes à morte de Mao.

Referências Bibliográficas: Daniel Morley, “The Chinese Communist Party 1927–37 – The Development of Maoism”, “The Chinese Communist Party 1937–49 – The Unfolding of Historical Necessity,” and Ted Grant, “Stalinist Land Programme Wins Peasants – Chiang’s Conscripts Roped to Prevent Escape” (January 1949), todos disponíveis em marxist.com.

Referências Videográficas:

https://youtu.be/WXZR5t4Bo4k?si=74gHaMIOfTZ5Tvk7 https://youtu.be/-MZLf6TlnHo?si=3-0BpNo6CQg-tD-F

https://youtu.be/D7nkvjU4gr4?si=8UoR_GFHWFMOP2-G https://youtu.be/6BR5yiqwQjQ?si=W-EdIAGd6X4phoBz


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