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I Love Boosters: a Reforma ou a  Revolução?

Este artigo tem spoilers para o filme!

I Love Boosters, estreado em maio de 2026 realizado por Boots Riley, é um filme cativante que fala de temas pertinentes aos trabalhadores de todo o mundo. Estes podem ser resumidos ao antagonismo de classe entre a burguesia e o proletariado. O filme usa a vida de alguns boosters, pessoas que roubam roupa para a vender mais barata mais tarde, para nos mostrar contradições importantes encontradas no sistema capitalista.

A nossa personagem principal, Corvette, é uma jovem adulta que quer “vingar” na sua carreira como designer de moda, adora a cor turquesa (ou água-marinha) e é retratada como estando alienada ou “desconectada” da sociedade, como as personagens lhe chamam no filme. O que a nossa heroína descobre, durante o filme, é um mundo que se submete e venera pessoas como Christie Smith, a vilã e designer de moda de topo que Corvette admira. Eventualmente Jianhu, uma trabalhadora da fábrica chinesa onde a marca de Christie produz as suas roupas, usa um “Dispositivo que utiliza o materialismo dialético para alterar o espaço, a matéria e o tempo” para se teleportar para o que se supõe serem os Estados Unidos. Onde as roupas que ela e a sua família produzem são vendidas. Após um familiar de Jianhu morrer de cancro devido às más condições na fábrica. Esta morte catapulta essa mesma fábrica para episódios de luta de classes. Após convencer Jianhu, o dispositivo dialético é então usado pela equipa da nossa heroína para roubar e, no fim, destruir as roupas e a marca de Christie Smith, gerando em cadeia episódios mais amplos de solidariedade e luta de classes.

Há um absurdismo na estética deste filme que joga muito a seu favor, particularmente quando esse absurdismo é usado para deixar claro algumas posições e pontos políticos. Por baixo de todo o surrealismo, o filme lida com algo extremamente importante para a esmagadora maioria das pessoas, mesmo que não o compreendam necessariamente de forma consciente que é a sua alienação e exploração sob o capitalismo (através dos efeitos psicológicos e estruturais do fetichismo da mercadoria).

Os meus problemas com o filme começam quando este tenta explicar o materialismo dialético. A explicação é extremamente simplificada e, mais importante ainda, fundamentalmente incorreta. O materialismo dialético é reduzido a algo parecido com “tese + antítese = síntese”, o que sugere que o realizador e roteirista tem uma conceção bastante superficial e metafísica da filosofia marxista. Isto torna-se frustrante porque o filme chega repetidamente perto de alcançar conclusões genuinamente materialistas, apenas para recuar para o idealismo nos momentos decisivos.

O problema central é que o filme compreende as contradições do capitalismo, mas não compreende totalmente como é que essas contradições são resolvidas politicamente. Mostra corretamente os trabalhadores a serem explorados, os capitalistas a beneficiarem dessa exploração e diferentes lutas a estarem conectadas através do sistema capitalista global, sem lhes atribuir o nome devido “Capitalistas” ou “Burguesia”. Quando se chega à questão do que deve ser feito concretamente, o filme recai numa espécie de política reformista e espontaneísta através da ideia de que se acelerarmos a insatisfação das pessoas o suficiente, as contradições irão, de alguma forma, produzir greves, solidariedade e, em última análise, uma mudança positiva.

No entanto, materialismo dialético não significa que as contradições produzam automaticamente o resultado político correto. A classe trabalhadora não desenvolve espontaneamente uma consciência revolucionária simplesmente por ser explorada. Nem a acumulação de greves e reformas supera automaticamente o capitalismo. A questão da liderança política, da organização e do partido revolucionário não pode simplesmente ser retirada da equação.

É aqui que a conclusão do filme se torna particularmente desilusivo. Chega notavelmente perto da conclusão correta mostrando que os problemas enfrentados por Corvette, pelos trabalhadores na indústria da moda e pelos trabalhadores na China não são problemas distintos mas manifestações do mesmo sistema capitalista global. O filme começa até a demonstrar o caráter internacional da classe trabalhadora e a necessidade de solidariedade entre trabalhadores para lá das fronteiras nacionais.

Mas em vez de levar esta lógica até ao fim, recua para um desfecho essencialmente reformista. Os trabalhadores entram em greve, o movimento espalha-se e é-nos dada a impressão de que foram alcançadas melhorias significativas. Mas o que acontece ao próprio sistema capitalista? Quem controla a produção? Quem controla o Estado? O que acontece à propriedade privada dos meios de produção? O que acontece quando a classe dominante tenta inevitavelmente reverter as concessões que foi forçada a fazer?

As reformas podem perfeitamente ser conquistadas através da luta, e os verdadeiros marxistas  lutam ao lado dos trabalhadores por cada melhoria nas suas condições. Mas reformas não são a mesma coisa que socialismo, e a luta por reformas não se transforma automaticamente numa luta pelo socialismo. Sem uma organização política revolucionária capaz de elevar a luta do nível económico para o político e, em última análise, desafiar o domínio da classe capitalista, o sistema permanece fundamentalmente intacto.

É também por isso que achei a personalização e individualização do problema por parte de Christie tão desecionante. A reação dela não devia ter sido, no fundo, “porquê eu?”. A resposta é precisamente que não é apenas sobre ela e sim que ela é parte de um problema maior. O problema é sistémico e global. Os trabalhadores nas fábricas chinesas, os trabalhadores do comércio a retalho, as pessoas a viver na pobreza, a Corvette e todos os outros explorados pela indústria da moda estão todos presos nas mesmas relações sociais.

O mesmo aplica-se ao tratamento que o filme dá à China. Há uma sugestão implícita de que os trabalhadores chineses são simplesmente vítimas do mesmo sistema capitalista, enquanto o filme nunca confronta verdadeiramente as implicações políticas disto. A China de hoje não pode ser tratada simplesmente como um país socialista só porque o seu governo se intitula comunista ou porque o Estado mantém um controlo significativo sobre partes da economia. Na nossa perspectiva, o que importa é o caráter de classe do Estado e as relações sociais que regem a produção. A existência de propriedade estatal não significa que o capitalismo tenha sido abolido.

Mais uma vez, o filme em última análise para um passo antes da conclusão para a qual ele próprio aponta. Compreende que o comportamento individual não pode resolver problemas sistémicos. Compreende que os trabalhadores têm interesses comuns para lá das fronteiras nacionais. Compreende que o capitalismo produz exploração e alienação à escala global. Mas nunca dá o salto de “os trabalhadores devem lutar e conquistar reformas” para “a classe trabalhadora precisa de se organizar conscientemente como uma força política capaz de derrubar o capitalismo.”

E essa é, em última análise, a contradição no cerne de I Love Boosters: chega muito perto de uma compreensão materialista do mundo, mas quando chega à questão de como esse mundo pode realmente ser mudado, recai no idealismo e no espontaneísmo.

Ainda assim, penso que isso torna o filme interessante em vez de simplesmente sem valor. Os seus instintos políticos são muitas vezes muito melhores do que as suas conclusões políticas. O que, de certa forma, reflete o tipo de tendências conservadoras e contraditórias vistas nas massas ao longo de momentos históricos de luta de classes. Está claramente a tentar fazer as pessoas pensarem sobre exploração, alienação, classe e solidariedade, e a sua estética absurdista torna essas ideias acessíveis de uma forma que uma palestra política direta provavelmente não conseguiria.

Apenas gostaria que tivesse levado a sua própria lógica um pouco mais longe.

Christie não deveria ter perguntado “Porquê eu?”.

Deveria ter sido iludido à conclusão mais importante:

Só a Christie não é suficiente. O problema é sistémico, global e enraizado nas relações sociais do capitalismo, pelo que só pode ser superado superando o sistema e não só alguns “maus” capitalistas individuais.

Esta generosa tarefa só pode ser alcançada através da organização das massas de trabalhadores privados de direitos e condições fundamentais, da construção da vanguarda, e do Partido Comunista Internacional Revolucionário.

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