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Portugal: país imperialista ou país dominado?

Os dirigentes do Partido Comunista Português fazem uma agitação insistente sobre a soberania nacional de Portugal. Na resolução política aprovada no seu XXII congresso, em dezembro de 2024, o partido colocava “uma política patriótica que inscreve a soberania e independência nacionais como objectivo central” contra “todos e quaisquer constrangimentos e imposições externas”. Neste e noutros documentos, apresenta-se Portugal como um país dominado por potências estrangeiras, que deve se libertar da tutela imperialista. Mas será a realidade assim tão simples? Qual é o lugar de Portugal no sistema capitalista mundial?

A postura do PCP

Para a liderança do PCP, Portugal é um país dominado. O programa do partido, descreve:

“Uma situação que apresenta características típicas do capitalismo monopolista de Estado, num quadro em que o Estado português é cada vez mais subalternizado, dominado e colonizado no âmbito da UE e em geral pelo imperialismo e as suas estruturas.”

Esta seria uma condição histórica secular, já presente no período colonial. Para os dirigentes do PCP, o verdadeiro beneficiário do colonialismo português não estava em Lisboa, mas em Londres, Berlim e Washington. Seriam as corporações estrangeiras a explorar os recursos das colónias, com a ajuda e conivência do regime salazarista. Nos anos 1930 e inícios dos 1940, esta ênfase no domínio estrangeiro sobre o Império levou o PCP a advogar por um colonialismo supostamente nacional. O partido defendia “o nosso património colonial” e a Frente Popular da que fazia parte reivindicava em 1936 as “nossas províncias ultramarinas, parte integrante e inviolável da Nação Portuguesa” (citado em Fernando Rosas, “O PCP e a II Guerra Mundial”, 2021, p. 85)

Esta postura mudou a partir de 1945, com o início da Guerra Fria, com as revoluções coloniais e com o apoio da União Soviética a diferentes movimentos de libertação nacional. Doravante, o PCP advogaria (timidamente) pela autodeterminação dos povos colonizados, sem deixar por isso de denunciar o domínio estrangeiro sobre a metrópole e sobre o Império. Portugal será definido como uma “nação oprimida” face aos EUA, à França e à Inglaterra, mas como “um estado opressor” face às suas colónias (“O caminho para o derrubamento do fascismo”, 1947, p. 87).

Ora, a opressão por Portugal das colónias estava ao serviço do capital estrangeiro. Vejamos por exemplo como falava o órgão do partido em 1955 sobre os jazigos de petróleo em Angola: “Todas estas riquezas, que podiam e deviam modificar profundamente a vida económica do País e das Colónias, foram traidoramente entregues pelo governo de Salazar a poderosos trusts estrangeiros.”

A ênfase era claramente posta no carácter dominado de Portugal. No meio da guerra colonial, Álvaro Cunhal afirmava (Rumo a vitoria, 1964, p. 78):

“Salazar e os salazaristas, que têm sempre na ponta da língua as palavras ‘defesa da pátria’ e ‘defesa dos interesses nacionais’, têm no coração e nos actos inscrita a palavra traição. Não só são os responsáveis, nos 38 anos de ditadura, pelos laços de dependência que nos conduziram à trágica situação actual de país semicolonial, como procuraram ainda hipotecar completamente o futuro do país e entregar ao imperialismo aquilo que resta fora das suas garras.”  

A guerra colonial era apresentada como uma imposição do imperialismo estrangeiro, que lutaria contra os movimentos de libertação utilizando a marionete do regime salazarista. Dizia Cunhal: “a actual política colonialista de Salazar, longe de atestar a independência e ‘grandeza’ de Portugal, atesta o domínio imperialista estrangeiro sobre o nosso país”. “Em larga medida”, resumia, “o colonialismo português é um biombo, uma cobertura, dos grandes monopólios internacionais” (ibid., p. 91).

Este destaque à suposta opressão estrangeira justificava a política de alianças do PCP com os representantes da chamada “burguesia não monopolista”, que estava ligada aos interesses coloniais, nomeadamente no caso dos setores republicanos. Admitia um destacado militante do PCP há alguns anos: “É verdade que na sua luta contra o fascismo, o PCP lutou infatigavelmente pela unidade das forças antifascistas e que alguns documentos das organizações unitárias em que se incluía sempre em minoria, defenderam o colonialismo.”

Ou seja, a sua política de colaboração de classes com a burguesia “nacional” atrelou-o aos colonialistas “democráticos”. Mas precisamente o facto de os setores ditos “nacionais” e “antimonopolistas” da burguesia defenderem o colonialismo, e obrigarem o PCP a defender posições reacionárias, mostra a podridão de toda a burguesia portuguesa. Ela toda, incluindo os setores “dissidentes”, estava inserida até ao pescoço no negócio colonial!

A partir de 1974, a apresentação de Portugal como país oprimido destacar-se-ia cada vez mais nos documentos do PCP, ao perder o país as colónias que outrora oprimia a ferro e fogo. A participação portuguesa em aventuras imperialistas como Kosovo ou Afeganistão, ou ainda nas antigas colónias (como na intervenção na Guiné em 1998), é apresentada como uma imposição estrangeira. As “vergonhosas políticas de submissão ao imperialismo” tornaram as “Forças Armadas portuguesas em instrumento da estratégia exploradora e agressiva dos EUA, da NATO, da União Europeia”.

A política externa do país, portanto, não é no interesse da burguesia portuguesa, mas dos EUA, a NATO e a UE. Longe de beneficiar o capitalismo português, esta política de “submissão” ao imperialismo “assume o carácter de uma política antinacional”, que justificaria uma política de “unidade ou convergência das classes e movimentos sociais antimonopolistas, da unidade ou convergência de acção das forças democráticas e patrióticas”, onde é incluída a fração “antimonopolista” da burguesia.

Todavia, será que Portugal não é um país imperialista? Será que não tem uma burguesia com ambições predadoras e interesses no estrangeiro?

O colonialismo 

Apesar do vasto império que Portugal forjou nos séculos XV e XVI, o país desenvolveu relações de dependência com as potências europeias, nomeadamente com a Inglaterra. As riquezas saqueadas do Brasil passavam por Lisboa para acabarem nos grandes centros industriais e comerciais do norte da Europa, onde contribuíram poderosamente ao desenvolvimento do capitalismo. Portugal era ao mesmo tempo um país dominante e dominado.

Lenine definiu em 1916 o império português de forma concisa:

“O exemplo de Portugal mostra-nos uma forma um pouco diferente de dependência financeira e diplomática, ainda que conservando a independência política. Portugal é um Estado independente, soberano, mas na realidade há mais de duzentos anos, desde a Guerra da Sucessão de Espanha (1701- 1714), que está sob o protetorado da Inglaterra. A Inglaterra defendeu-o, e defendeu as possessões coloniais portuguesas, para reforçar as suas próprias posições na luta contra os seus adversários: a Espanha e a França. A Inglaterra obteve em troca vantagens comerciais, melhores condições para a exportação de mercadorias e, sobretudo, para a exportação de capitais para Portugal e suas colônias, pôde utilizar os portos e as ilhas de Portugal, os seus cabos telegráficos, etc. etc. Este gênero de relações entre grandes e pequenos Estados sempre existiu, mas na época do imperialismo capitalista tornam-se sistema geral, entram, como um elemento entre tantos outros, na formação do conjunto de relações que regem a “partilha do mundo”, passam a ser elos da cadeia de operações do capital financeiro mundial.”

Esta relação de subordinação se intensificou com a ascensão do imperialismo moderno no final do século XIX. Neste período, as fronteiras do Estado nacional se tornaram num entrave para as gigantescas forças produtivas criadas pelo capitalismo. Isso empurrou o capital financeiro, que unifica a banca e a indústria, a conquistar novos mercados, não apenas à procura de matérias-primas ou de novos consumidores, como se fazia no velho colonialismo, mas de oportunidades para a exportação de capitais, instalando fábricas, infraestruturas e maquinarias. Em Portugal e nas suas colónias os capitalistas estrangeiros investiram nos transportes, na produção fabril, nas minas e plantações. Por exemplo, os grandes projetos de construção de ferrovias na África portuguesa no início do século XX dependeram de capitais britânicos, particularmente em Moçambique, e, em Angola, de investimentos franceses, sul africanos e alemães, atraídos pelas generosas concessões do Estado português. Os governos em Lisboa compreendiam que o futuro do império dependia da boa vontade das grandes potências, o que os empurrava a uma política de submissão e vassalagem. Isso evidenciou-se em particular na Primeira Guerra Mundial, onde a República interveio para garantir o futuro das colónias. A conservação do “chifre da abundância” da burguesia em África custou ao povo português quase 10 mil mortos, camponeses e operários enviados a morrer em Flandres no interesse do imperialismo. 

Ora, isso não quer dizer que a classe dominante portuguesa fosse um instrumento passivo dos ingleses ou um simples intermediário. Ela utilizou o seu controlo sobre as colónias para se enriquecer e dotar-se de uma base autónoma, económica, política e militarmente. A classe dominante conseguiu três coisas:

1.    A burguesia portuguesa ganhou nas colónias um mercado de exportação para as suas mercadorias, mais caras e de pior qualidade do que as britânicas, as alemãs ou as norte-americanas, mas protegidas da concorrência por tarifas elevadas.

2.    Começou a explorar os recursos naturais e a mão de obra das colónias mais agressivamente, através da criação de plantações e de minas, fornecidas de trabalho semi-escravo. São Tomé, por exemplo, tornou-se no início do século XX no terceiro produtor mundial de cacau.

3.    Já entrado o século XX, a burguesia começou a investir na indústria, nos transportes, na agricultura e nos minérios das colónias (mas sempre priorizando as indústrias da metrópole). Embora se pudesse apoiar no capital estrangeiro, sobretudo nos projetos mais caros e complexos, como no caso da construção de ferrovias, da mineração e, posteriormente, do petróleo, a burguesia portuguesa utilizou o Estado colonial para assegurar-se um pedaço (muito considerável) do bolo. 

Seja dito: a burguesia portuguesa levava a parte do leão do saqueio das colónias, cobrando aos imperialistas estrangeiros uma portagem para aceder ao banquete. O capital português nas colónias esteve rodeado de subsídios, de favoritismos e de políticas protecionistas, e manteve a mão de obra nativa sujeita ao seu jugo brutal, garantindo aos empresários portugueses lucros desorbitados e proteção face à concorrência.

Vejamos alguns dados de Angola (fornecidos por José Telo, Decadência e queda da I República, vol. 2, pp. 25-27): entre 1918 e 1922, o comércio externo angolano mais do que decuplica, passando as importações de 8,1 mil contos para 86,8, e as exportações de 7,2 para 111,8. Mais da metade das importações vinham da metrópole (48 mil contos num total de 86), e mais da metade das exportações iam para a metrópole (75 mil contos num total de 111). O pilar destas trocas era o Banco Nacional Ultramarino, que se tornou ao fim de pouco tempo o maior banco português. À luz destes dados, pode-se dizer que o colonialismo português fosse um simples “biombo”, como dizia Cunhal, do domínio imperialista britânico?

Estes investimentos implicavam a sujeição dos vastos territórios do interior das colónias, até então de facto independentes. No século XIX, Portugal só controlava alguns pontos do litoral das suas colónias, e, no melhor dos casos, uma série de praças militares no interior para proteger rotas comerciais. O poderio português basava-se em alianças e arranjos com os chefes africanos, e não no domínio militar direto. Isso mudaria no final do século XIX e inícios do XX, com as famosas “campanhas de pacificação”, onde Portugal, através de uma série de massacres e selvagerias, penetrou no interior de Angola, Moçambique, Guiné, e até do pequeno Timor-Leste.

Significativamente, esta ofensiva colonial foi intensificada nos anos da República, antes do Estado Novo. Foi nessa altura, particularmente no encalço da Primeira Guerra Mundial, que surgem grandes monopólios em Portugal, formando-se um capital imperialista que unifica a banca, o comércio e a indústria. “As colónias,” explica o historiador José Telo, “tornaram-se em poucos anos um pilar essencial do novo modelo económico da metrópole” (vol. 2, p. 24). O seu desenvolvimento esteve estreitamente ligado à exploração das colónias e a figuras como Norton de Matos, governador republicano de Angola. Em geral, esta política continuou durante o salazarismo e até ao final do Império. Resume José Telo a política seguida a partir de 1945 (Economia e Império, 1994, p. 261): “A ideia de base continua a ser a de um desenvolvimento gradual e inserido no espaço económico português, com um envolvimento estrangeiro só nos pontos onde as técnicas importadas o exigirem.” Só nos anos da guerra colonial incentivou-se mais ativamente o investimento estrangeiro (sobretudo norte-americano), com o objetivo de comprometer os EUA na defesa do império.

O moderno capitalismo português, as suas indústrias, grandes casas comerciais e seus bancos, nascem unidos umbilicalmente às colónias. Dizia Balzac que ““por trás de uma grande fortuna há um grande crime.” Isso é especialmente certo no caso da burguesia portuguesa. As grandes empresas nacionais criadas antes de 1974 tiveram, com poucas exceções, estreitas relações com as colónias (e, obviamente, com o regime fascista): CUF, TAP, GALP, SECIL, Champalimaud, Espírito Santo. O capitalismo português foi, e é, imperialista.

Após o 25 de Abril

A perda das colónias desferiu um duro golpe à classe dominante portuguesa, que de repente perdeu o seu El Dorado. Acrescentem-se as convulsões da Revolução e a chegada de meio milhão de retornados, para compreender a profunda crise do capitalismo português na segunda metade dos anos 1970. O país só se recuperaria realmente desses abalos na segunda metade dos anos 1980. Após a entrada na Comunidade Económica Europeia, a burguesia portuguesa viveu os seus “anos de ouro”, sobre a base de ataques às condições e aos direitos da classe trabalhadora e da destruição de velhas indústrias.

Sem dúvida, a integração de Portugal na CEE (logo UE) aprofundou a dependência do país e a penetração das grandes corporações estrangeiras no mercado nacional. Pode-se ilustrar este facto olhando para as balanças correntes e de capital, que, nas últimas décadas, tenderam a ser negativas quase sempre, com alguns anos de pequeno superávit. Contudo, estes dados, por si só, não são determinantes (ao fim e ao cabo, os EUA também têm uma balança corrente negativa!); além das considerações quantitativas, devem-se acrescentar que uma parte importante dos ingressos de Portugal provêm de setores de baixo valor acrescentado, nomeadamente do turismo, que sustentou os pequenos superávits dos últimos anos. Portugal tem elementos de dependência claros, que foram evidenciados durante os anos da troika, onde a Alemanha e o resto de grandes potências imperialistas impuseram pacotes de austeridade e tornaram Portugal num vassalo.

Ora, esta relação não pode ser encarada unilateralmente. Ela tem duas caras. A associação na UE integrou Portugal no clube imperialista ocidental, dando-lhe acesso a mercados e áreas de influência com as que pôde compensar parcialmente a perda das colónias. Também não se pode exagerar o atraso de Portugal: ele é um país industrial e desenvolvido, o que fica evidente ao olharmos as suas exportações. Não é, como no início do século XX, um exportador de cortiça, conservas, vinhos e têxteis, mas, pelo contrário, as exportações portuguesas são hoje encabeçadas respetivamente pelos veículos (12%), equipamento elétrico (8,7%), químicos (7%), maquinaria (6,2%), plásticos (4,5%) e farmacêuticos (4,3%). Os vinhos aparecem no decimo sexto lugar e a cortiça no decimo sétimo! É verdade que entre os grandes exportadores há várias empresas estrangeiras, mas também há grandes grupos nacionais, sendo o primeiro exportador uma empresa portuguesa, a Petrogal. 

Embora os principais mercados de Portugal estejam na Europa, o próprio passado colonial dá-lhe vantagens competitivos na exploração das antigas colónias, sobretudo em África, usando organizações como os PALOP para aumentar a sua influência. Portugal é o segundo parceiro de Angola em importações, só depois da China. Portugal também tem grandes investimentos em Moçambique, onde são conhecidos os desmandos de empresas como a Navigator-Portucel, que explora milhares de hectares nesse país. Uma ativista climática moçambicana definia assim as operações deste monopólio: 

“A Portucel Moçambique afirma que as suas plantações estão a melhorar as condições de vida das comunidades rurais… Na realidade, este projeto neocolonialista está a usurpar terra e meios de subsistência a milhares de famílias camponesas, deixando as mesmas sem opções de vida. Enquanto as famílias camponesas perdem tudo que de mais valor tem, a Portucel exporta madeira de baixo valor para abastecer as fábricas da Navigator em Portugal.”

Esta relação imperialista torna-se ainda mais evidente no caso do pequeno Cabo Verde. O arquipélago africano é forçado, pelo seu tamanho e posição geográfica, a obter inúmeros produtos do estrangeiro. Quem é o seu principal fornecedor? Portugal, com diferença. Portugal não só exporta, mas investe também na economia cabo-verdiana: por exemplo, como se explica num relatório de 2016, muitas das mercadorias que Portugal importa da ex-colónia são, na realidade, produtos manufaturados em Cabo Verde por empresas portuguesas.

Vejamos as palavras da banqueira portuguesa-sul africana Maria Ramos, uma das empresárias mais influentes do mundo:  

“Há um enorme potencial de oportunidades para Portugal e para parcerias [em África]Os setores tradicionais são muito importantes, porque se olharmos para o continente africano, a construção é um setor enorme… [Há] grande necessidade de investimento em construção, água, saneamento, estradas, portos, etc.”

Esta grande capitalista sublinha as oportunidades não apenas para Portugal exportar mercadorias, mas também para exportar capitais, ou seja, investir na produção em países africanos:

“Precisamos de assegurar que não entramos noutro ciclo em que apenas produzimos os minerais e os exportamos… É preciso encontrar uma forma de relocalizar alguma produção nos países onde estão os minerais.”

São estas as palavras da empresária de uma nação “subalternizada, dominada e colonizada”, ao dizer do PCP, ou de um país imperialista?

Não é preciso dizer que estes interesses empresariais em África são apoiados pelo Estado português, através de todo tipo de manejos diplomáticos e até da presença militar. Mas os interesses do capital português vão além da Europa e África. A diversificação de interesses imperialistas veio à tona recentemente no caso curioso de Cuba. A crise gerada pelo bloqueio norte-americano está a abalar o setor turístico da ilha. Nesse contexto, revelou-se que a empresa portuguesa Vila Galé, a segunda maior hoteleira do país, possui dois hotéis em Cuba.  

O que é o imperialismo?

Lenine definiu o imperialismo como “a fase superior do capitalismo”. Isto não é só uma frase oca. O imperialismo não é um capricho de políticos chauvinistas ou militaristas, mas uma consequência inexorável do desenvolvimento capitalista. Há muito tempo que o Estado-nacional, fruto das revoluções burguesas dos séculos XVIII e XIX, tornou-se demasiado estreito para as colossais forças produtivas geradas pelo capitalismo. A burguesia dos países mais desenvolvidos é obrigada a procurar mercados além das suas fronteiras. O imperialismo, portanto, não se carateriza simplesmente por uma política externa agressiva, mas é, em primeiro lugar, um fenómeno económico. A consequência última desta dinâmica económica é, sim, uma política externa agressiva, com o Estado imperialista a lutar pela conquista de novos mercados, às vezes pelas armas, ao serviço de poderosos monopólios. Qualquer país capitalista avançado tornar-se-á imperialista, quer queira, quer não.

O que quer dizer tudo isto para Portugal? Uma economia capitalista minimamente desenvolvida, como a nossa, empurra a burguesia à procura de oportunidades além das suas fronteiras. Num pequeno país de dez milhões de habitantes, encaixado numa esquina da Europa, o Estado-nacional torna-se num terrível colete de forças. Um grande empresário cabo-verdiano explica nitidamente as necessidades de expansão do capital português:

“Portugal continuará a manter e a intensificar as relações na cooperação externa, porque há interesses também, a nível empresarial. É preciso que sejam intensificadas essas relações, porque senão as empresas portuguesas acabam por não ter mais mercado, acabam por não ter mais oportunidades, e isso cria constrangimentos ao desenvolvimento de Portugal também. É nessa perspetiva que nós entendemos que Portugal irá continuar na cooperação com os países com quem tem relações estreitas, em particular com os PALOP.”

Todavia, é evidente que o pequeno tamanho de Portugal lhe impede lançar-se sozinho à conquista de novos mercados, sobretudo após a perda das colónias, embora possa utilizar plataformas como os PALOP para ganhar uma certa autonomia. Mas, no geral, precisa de um guarda-chuvas mais amplo, precisa de formar alianças com parceiros mais fortes, para ter acesso ao banquete imperialista. Isso motiva o enquadramento internacional da burguesia portuguesa na NATO e na UE. Para pertencer ao clube de sanguessugas, Portugal tem de pagar uma portagem, abrindo o seu mercado aos seus parceiros, aceitando a presença militar norte-americana nos Açores, e envolvendo-se nas suas aventuras imperialistas. Mas no cálculo da burguesia portuguesa essa troca indubitavelmente vale a pena. Essa foi sempre a mentalidade da burguesia portuguesa: procurar parceiros mais fortes que lhe permitam participar da comilança, se for preciso fazendo concessões e sacrifícios, sempre à custa dos trabalhadores, como acontecera na Primeira Guerra Mundial.

Não são as imposições externas ou a “política de direita” do PSD a ditarem o alinhamento português com a NATO e a UE, mas, pelo contrário, os cálculos racionais da burguesia. Ela nunca duvidou dessa política externa, nem sequer nos piores anos da troika, onde a “portagem” a pagar para ficar no clube aumentou bastante. Também não duvidou em manter a “disciplina” perante à chacina em Gaza, alinhando com a prioridade ocidental de sustentar Israel. E continua a não hesitar perante à enlouquecida política de rearmamento da UE, à que Luís Montenegro aderiu com entusiasmo. A burguesia portuguesa nunca duvidou desta política, porque é o trampolim que lhe permite alcançar novas áreas de investimento e influência, além da sua força e peso real.

O inimigo está em casa!  

Portugal combina, portanto, elementos de um país imperialista com traços de nação dependente, sujeita à dominação de parceiros mais fortes como os EUA, a Alemanha e até a vizinha Espanha. Isso não nega o caráter imperialista de Portugal. Lenine sempre reconheceu que havia países, como Portugal ou a própria Rússia czarista,  que combinavam estes elementos contraditórios. Para ele o determinante não são os traços secundários ou híbridos, mas a posição geral, global, de um país, e nesse sentido podemos concluir que Portugal é um país imperialista.

A tarefa dos comunistas portugueses, portanto, é dupla: lutar contra os “nossos” imperialistas lusitanos, enquanto nos opomos aos manejos de Washington e Bruxelas. Mas isto não esgota a questão. O que significa lutar contra o imperialismo da NATO e da UE em Portugal? Para o PCP, torna-se necessário procurar alianças com a chamada burguesia nacional, contra o domínio estrangeiro. Explicam as teses apresentadas no recente congresso do partido:

“Em Portugal – onde se regista uma convergência de forças políticas, da direita à social-democracia, que explícita ou tacitamente aceitam e defendem os constrangimentos e os impactos das imposições da UE, – estas contradições são susceptíveis de criar condições para alargar a unidade e convergência de acção das classes e camadas antimonopolistas que são atingidas pelas políticas da UE. A ruptura democrática e progressista com estas políticas e imposições é um processo indissociável da defesa dos interesses populares e da afirmação do interesse e da soberania nacionais.

Todavia, o imperialismo não se expressa em Portugal como uma força externa de saqueio e ocupação. Pelo contrário, ele penetra cada poro da economia capitalista portuguesa, engraxando-a com os seus empréstimos e investimentos. A abertura de Portugal aos imperialistas estrangeiros abre à nossa burguesia, em contrapartida, oportunidades vitais noutros países. Isto quer dizer que o imperialismo estrangeiro e a chamada “burguesia nacional” estão interligados por mil fios.

A aliança patriótica com o capital nacional que o PCP propõe é, por um lado, reacionária, ao tentar atrelar o proletariado português ao seu principal explorador, que são os capitalistas portugueses (incluindo os “não monopolistas”). Confunde-o, ao usar essa mesma retórica sobre “interesses nacionais” que a burguesia sempre usa para camuflar os seus interesses reacionários e mesquinhos. A tarefa dos comunistas devia ser desmascarar os interesses que se escondem por trás dessa retórica. Ao mesmo tempo, a solução dos comunistas à opressão imperialista é a revolução socialista mundial, não o regresso a pequenos estados nacionais. A própria ascensão do imperialismo é uma expressão, distorcida e monstruosa, da obsolescência do Estado nacional, ultrapassado pelo desenvolvimento das forças produtivas. Por outro lado, a política do PCP é também utópica: a burguesia “nacional”, ou “patriótica” ou “antimonopolista” não existe. Ela forma um bloco explorador ligado inseparavelmente com o capital estrangeiro. A classe dominante portuguesa é composta por vassalos corruptos, sempre dispostos à mais humilhante subserviência para aceder às migalhas do banquete imperialista. 

Lutar contra o imperialismo em Portugal é, sobretudo, lutar contra a nossa própria burguesia. Como dizia Karl Liebknecht, o inimigo está em casa!

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