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Porque somos internacionalistas

Artigo de Gabriel Torres

Na reunião da célula do CCR do Porto, na segunda-feira do dia 2 de março de 2026, após o ponto político sobre a história da Internacional Comunista Revolucionária e um debate de ideias sobre a agressão imperialista ao Irão, um camarada que estava a convite questionou-nos sobre porque falamos tanto de temas internacionais e não focamos nos problemas da classe trabalhadora portuguesa. 

Já iam quase 2 horas de reunião e respondemos de forma sucinta que sim, nos ocupamos de temas sensíveis à classe trabalhadora portuguesa, que no site do CCR existem diversos artigos que abordam os temas nacionais e que estivemos na manifestação do sábado contra o pacote laboral e estaremos na manifestação do dia 8 pelo direito das mulheres. 

De facto, também falamos muito de temas internacionais, especialmente com a espiral insana e frenética do imperialismo estadunidense neste último período, que acelerou com Trump. Por isso, decidi escrever um artigo para explicar aos trabalhadores que a luta de classes em Portugal tem efeitos internacionais e que as ações imperialistas num país longínquo reverberam nas condições materiais da vida dos trabalhadores em Portugal. 

Quando um trabalhador consulta as publicações do CCR, pode parecer-lhe que nos preocupamos mais com acontecimentos externos do que com a condição da classe trabalhadora em Portugal. Sim, falamos de geopolítica, mas é falso que não nos ocupamos dos problemas da classe trabalhadora em Portugal. Ao contrário! Ao olhar para a floresta e não só para a nossa árvore, estamos a denunciar o capitalismo como um sistema global que esmaga a classe trabalhadora mundial e os mil fios que ligam o imperialismo, como fase superior do capitalismo, à degradação material das condições de vida em diferentes países, claro que de forma desigual, mesmo que este trabalhador ainda não tenha esta consciência. 

A guerra no Irão, por exemplo, já faz o custo do petróleo subir e este aumento não será sentido apenas nas bombas de combustível portuguesas. Toda a possível perda de lucros dos capitalistas, donos das cadeias de abastecimento e de atividades que dependem total ou parcialmente dos derivados do petróleo, serão cobradas integralmente da classe trabalhadora mundial e, obviamente, dos trabalhadores portugueses. 

Os tambores da guerra estão a tocar, o sinal foi dado. Mesmo sem qualquer ameaça concreta no horizonte, os países da União Europeia, pressionados pelo seu senhor do outro lado do Atlântico e pela burguesia local, estão a aumentar o investimento no setor militar. E de que forma o fazem? Roubando e explorando a classe trabalhadora. 

Os países europeus, economicamente enfraquecidos por anos de estagnação e fragmentados por interesses antagónicos das suas burguesias locais, não têm outra opção que não seja retirar mais recursos da saúde, da educação, da habitação e do atendimento aos seus nacionais para alimentar a indústria militar. Afinal, um burguês reduzir a sua própria taxa de lucro pelo bem dos trabalhadores não é algo que aconteça sem uma feroz luta de classes. 

Os capitalistas não gostam de incertezas e, na hora de investir o seu dinheiro, vão pressionar por mecanismos que protejam o seu património, como o aumento da taxa de juros. A indústria da guerra também parece ser uma boa aposta e, para além disso, o mercado puramente especulativo, desligado da economia real. Isso traduz-se em menos dinheiro a circular na economia portuguesa: menor atividade económica e menos empregos. E se os juros realmente subirem, isso fará com que os já altíssimos custos da habitação em Portugal fiquem ainda mais elevados. Quer queira, quer não, a classe trabalhadora sentirá na pele as dores causadas a milhares de quilómetros das fronteiras portuguesas. 

Ora, camaradas, esta é a realidade em que vivemos: crise crónica, roubo e superexploração dos trabalhadores, degradação acelerada da natureza e populismo de extrema-direita. No meio disso tudo, as tarifas de Trump, as guerras imperialistas, as sanções e as incertezas que nos açoitam diariamente fazem com que os capitalistas se sintam inseguros e que se esforcem ainda mais para assegurar o único princípio que os guia: perseguir sempre o maior lucro! Por isso, como o capitalismo não consegue mais entregar os lucros de outras eras, a burguesia vampiresca só pode extraí-lo do sangue e do suor da classe trabalhadora. E em Portugal essa extração hoje cristaliza-se no imoral pacote laboral. 

O choque inter-imperialista e o impacto na Europa 

Já é sabido que os EUA querem fortalecer-se na América Latina, que chamam de seu quintal, reduzir a infiltração chinesa e remover de facto a China e a Rússia do controlo de recursos estratégicos como o petróleo e as terras raras, e de rotas comerciais estratégicas. O que os EUA desejam é a completa remoção do que chamam de Agentes Não Hemisféricos. Esta política imperialista de proteção da esfera de influência fica evidente nas recentes ações militares na Venezuela, no brutal estrangulamento de Cuba e nas cínicas intervenções na política eleitoral da América Latina, como, por exemplo, a soltura do ex-presidente e narcotraficante hondurenho e a inundação de 20 mil milhões de dólares pouco antes das eleições argentinas para beneficiar o desprezível palhaço tresloucado do Javier Milei. Obviamente, o que aconteceu com a Venezuela serve de ameaça contra os estados que não estão totalmente alinhados à National Security Strategy. Esta ameaça amedronta as diversas frações do conjunto da burguesia latino-americana, que pressionam os seus governos a curvarem-se ao poder imperialista. 

Os reflexos desta política na América Latina são sentidos na Europa: sem a proteção e o incentivo dos EUA, o frágil e envelhecido capitalismo europeu definha, o famoso estado de bem-estar social desaparece a cada dia e a classe trabalhadora europeia terá de carregar mais um bocado de peso nos seus ombros. Mas não fiquemos desesperados! A política mafiosa do medo é o último recurso do imperialismo agonizante. E por muito difícil que pareça, os trabalhadores organizados têm o poder de mudar a história da humanidade para sempre. 

Com relação à China, começa a ficar evidente que os EUA têm dois objetivos maiores que ultrapassam o continente americano, como a cínica e monstruosa agressão ao Irão demonstra: 

O primeiro é impedir que a China tenha acesso a recursos estratégicos para a sua economia e para a indústria de alta tecnologia. 

O segundo objetivo é minar as bases dos seus acordos e tratados, forçar mudanças de regime em países que são parceiros estratégicos da China nos BRICS e nas Novas Rotas da Seda, para assim reduzir a esfera de influências do imperialismo chinês. Com isso, os EUA querem um resultado semelhante ao que obtiveram com a Rússia, quando conseguiram substituir o fornecimento de gás e petróleo russo à Europa após o início da guerra da Ucrânia. 

Porém, a China não é a Rússia: a dependência de bens industriais chineses em praticamente todos os ramos da economia, todo o conjunto do capital ocidental exportado para a China, o enorme mercado chinês que traz importantes dividendos para os países centrais do capitalismo europeu e para os EUA demonstra que o imperialismo estadunidense, os seus vassalos europeus e o vigoroso imperialismo chinês estão, neste momento, ligados como gémeos siameses de separação impossível. De tal forma que infligir dano no outro é infligir dano a si próprio. No caso da Rússia, o petróleo e o gás russos que abasteciam a Europa foram substituídos de forma rápida. Claro que os custos para os europeus aumentaram muito, mas os países europeus são vassalos do imperialismo estatunidense e conseguem sempre transferir para a classe trabalhadora a maioria dos custos das suas más escolhas. Neste caso, a substituição de mercadorias chinesas por mercadorias do capitalismo ocidental resultaria numa subida da inflação, pois as mercadorias chinesas são consideravelmente mais baratas do que as produzidas na Europa ou nas Américas. 

Fica claro que os EUA, como principal potência imperialista, começam a ser desafiados comercialmente pela China, mas que ainda têm uma enorme vantagem militar e a usam para tentar manter a sua posição pela força. Este jogo dá-se pela simples ameaça ou, se necessário, pelo uso da força militar. Porém, o tabuleiro da disputa global não está definido e a história recente mostra que, mesmo possuindo enorme poderio bélico, o imperialismo estadunidense sofreu uma série de derrotas militares contra países muito menores e muito menos desenvolvidos. Como seria então se esses países agredidos contassem com o apoio indireto do imperialismo chinês e do seu avançado estágio industrial? Tal apoio material indireto não foi fornecido no caso da Venezuela. A Venezuela não representa um parceiro estratégico para o imperialismo chinês e um apoio causaria mais prejuízo do que ganhos. Além disso, o imperialismo chinês não conseguiria disfarçar um apoio material indireto, pois os dois países ficam em continentes diferentes, mas este não é o caso do Irão. 

Luta de classes em Portugal e o impacto global 

A classe capitalista em Portugal está ligada por mil fios de dependência, principalmente ao imperialismo estadunidense, mas também às demais forças imperialistas europeias de menor calibre. Não podemos ignorar que a base militar das Lajes, na prática, é um enclave dos EUA no território português, pois os EUA farão o que quiserem com ela. Esta relação de dependência entre Portugal e o conjunto do imperialismo ocidental é benéfica para a burguesia portuguesa, pois garante os seus lucros e, por isso, ela apoia todas as aberrações imperialistas, desde o genocídio em Gaza à guerra ao Irão, à matança na Ucrânia, etc. Apesar dos lucros garantidos à burguesia portuguesa, tal arranjo deixa a classe trabalhadora de Portugal à míngua, com os mais baixos salários da Europa Ocidental. 

Para a classe trabalhadora de Portugal, os efeitos da aceleração dos choques imperialistas não serão meros assuntos em conversas nas tascas, nos cafés ou nas redes sociais. Os trabalhadores, como sempre, pagarão a conta das guerras, dos conflitos e das disputas interimperialistas. Não é por mero capricho ou preciosismo académico que os comunistas se debruçam sobre os acontecimentos internacionais. Somos internacionalistas porque o conflito imperialista está interligado à luta de classes e o socialismo só é possível a nível mundial, porque a economia moderna está integrada mundialmente. É preciso compreender a verdadeira extensão do capitalismo: um sistema de hegemonia global e, ao mesmo tempo, fragmentado por choques interimperialistas e, portanto, a luta de classes é um processo internacional. O capitalismo criou a divisão internacional do trabalho, mas no estágio atual é incapaz de gerir a economia mundial de forma harmoniosa. O imperialismo é uma expressão distorcida e monstruosa da obsolescência do estado nacional como unidade económica, que simplesmente se tornou demasiado estreito para as enormes forças produtivas que hoje temos. Portanto, para vingar, a revolução tem de ser mundial, e isso obriga os comunistas a organizarem-se internacionalmente. 

Portugal é um país pequeno e periférico do capitalismo europeu. Mesmo assim, a Revolução dos Cravos reverberou pelo mundo e deu força à luta de classes em diferentes países. A greve geral de 11 de dezembro foi uma evolução na consciência da classe trabalhadora portuguesa, porém logo foi desmobilizada, pois os sindicatos, colaboradores do sistema, temeram perder o controlo e a sua posição perante a classe trabalhadora. Precisamos de criar organizações verdadeiramente revolucionárias que, ao invés de recuar, continuem a avançar, pois uma greve geral só deve parar quando os objetivos são alcançados. 

Uma greve geral com uma direção revolucionária em Portugal teria o poder de enterrar o pacote laboral e cortar o apoio às guerras imperialistas. Poderia alastrar-se pela Europa e chegar aos EUA, fazendo com que a guerra imperialista parasse, e toda a classe trabalhadora mundial ganharia com isso, não só na melhoria das condições de vida, mas ao tomar consciência da própria força e do seu papel de coveira do capitalismo. 

O facto é que a classe trabalhadora tem nas suas mãos o futuro da humanidade e do nosso planeta. Sem a organização da classe trabalhadora e sem o internacionalismo, não se pode combater o capitalismo e a sua hegemonia global. É preciso fazer o movimento da classe trabalhadora crescer, desenvolver a sua teoria e, quando for o momento, agir. 

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