“Os marxistas sempre condenaram as guerras entre os povos como coisa bárbara e brutal. Mas a nossa atitude em relação à guerra é fundamentalmente diferente da dos pacifistas (partidários e pregadores da paz) burgueses e dos anarquistas. Distinguimo-nos dos primeiros pelo facto de compreendermos a ligação inevitável das guerras com a luta de classes no interior do país, de compreendermos a impossibilidade de suprimir as guerras sem a supressão das classes e a edificação do socialismo e também pelo facto de reconhecermos inteiramente o carácter legítimo, progressista e necessário das guerras civis, isto é, das guerras da classe oprimida contra a classe opressora, dos escravos contra os escravistas, dos camponeses servos contra os senhores feudais, dos operários assalariados contra a burguesia.” –Lenine in O socialismo e a guerra
No último fim de semana decorreram manifestações em Lisboa e Porto exigindo o “fim às ameaças e às agressões dos EUA”! Chamar à ação de massas é correto. Aliás, isso já deveria ter sido feito há semanas quando o total bloqueio energético americano foi anunciado contra Cuba, bloqueio esse que está a provocar uma catástrofe humanitária na ilha caribenha.
Mas manifestações esporádicas e desgarradas não vão mudar o curso dos acontecimentos. Face à ofensiva imperialista dos Estados Unidos é preciso organizar um poderoso movimento antiguerra que evidencie como a mesma classe dominante que promove a guerra imperialista “lá fora” é a mesma que explora e oprime a classe trabalhadora “cá dentro”, que explique como seremos nós os trabalhadores a pagar a fatura dos seus custos e consequências, como serão os nosso filhos a morrerem nas trincheiras, enquanto os capitalistas lucrarão com a venda de armamentos e a especulação nos mercados de combustíveis, com a subida dos juros ou a espiral inflacionária dos bens alimentares. É necessária uma oposição de classe à guerra!
Na convocatória do Conselho Português para a Paz e Cooperação (CPPC) podia ler-se: “Queremos a paz! Não aceitamos a inevitabilidade da guerra!” Mas a guerra é a consequência inevitável do capitalismo e só poderemos conquistar a paz com o derrube deste sistema pútrido! Infelizmente, os reformistas (e o CPPC é uma associação ligada ao Partido Comunista Português) continuam a desarmar o movimento ao disseminar todo o tipo de ideias pacifistas – ideias que Lenine combateu durante toda a sua vida.
Mesmo após 2 anos de genocídio e 6 meses dum falso cessar-fogo no qual o exército israelita (que continua ocupando parte de Gaza) ceifou já centenas de vidas e apesar das contínuas agressões ao Irão ou da guerra que se arrasta há mais de 4 anos na Ucrânia, continuam os reformistas a apelar à “diplomacia”, ao “direito internacional” e à ONU; quando a ONU, o direito internacional ou a diplomacia não passam de letra-morta, artifícios que os imperialistas sempre usaram para ocultar as suas verdadeiras intenções, na melhor das hipóteses inconvenientes empecilhos dos quais se desembaraçam ou ignoram quando não servem os seus interesses.
O que libertou o povo da Guiné-Bissau do colonialismo português? Foram os apelos à paz ou os guerrilheiros do PAIGC? Quem derrotou os Estados Unidos no Vietname? Foi a “diplomacia” ou a resistência Vietcong?
Que fizeram a ONU e o direito internacional pelo povo palestino durante as décadas de humilhação, opressão e violência às mãos do colonialismo sionista, ou que fazem agora diante do cerco medieval que os Estados Unidos fazem agora a Cuba? Absolutamente nada!
Os apelos pacifistas dos reformistas, o slogan vazio do “paz sim, guerra não”, são apenas os gestos performativos de quem não acredita que é possível lutar e derrotar o imperialismo, e é por isso que apelam ao Guterres, ao invés de apelarem à organização, mobilização e luta da classe trabalhadora.
Suplicam pela “solução política dos conflitos”, como se a guerra não fosse a continuação da política por outros meios, como se os irreconciliáveis interesses que opõem os diversos bandos imperialistas (sobretudo nesta época de crise, dum mercado mundial minguante face à capacidade produtiva e de rivalidades exacerbadas) pudessem ser acomodados civilizadamente! Ah… se ao menos Trump, Putin ou Xi fossem sensíveis aos nossos argumentos e se sentassem à mesa das negociações! Que bela concertação social, humanitária e pacifista não seria! Na verdade, qualquer pessoa mais atenta compreende que mais facilmente se converteria um tigre ao vegetarianismo…
A pusilanimidade dos reformistas é tanta que numa manifestação a favor da “soberania dos povos” não se atreveram, sequer, a exigir o fim da cedência das Base das Lajes aos Estados Unidos, que atropelam a nossa soberania em todas as guerras que dela precisa. Querem a paz no Médio Oriente? Negar a base das Lajes e o uso do espaço aéreo português à máquina de guerra americana era já um bom começo! Portugal fora da NATO? Nem se escutou: é algo completamente fora das suas perspetivas. Como é possível querer lutar pela paz a pela soberania dos povos, sem sequer exigir que o país saia da aliança militar “defensiva” que conta com mais guerras de agressão no seu curriculum?!
Muitos se convenceram que Trump é o problema, como se a natureza imperialista dos Estados Unidos resultasse dos caprichos dum medíocre, mas megalómano presidente; como se a sua ação fosse fundamentalmente diferente dos seus antecessores que provocaram guerras na Jugoslávia, Afeganistão, Iraque, Síria, Líbia, Ucrânia…como se o imperialismo fosse uma escolha moral, uma decisão política, no limite uma infelicidade histórica!
O imperialismo é, pelo contrário, a consequência do desenvolvimento material do capitalismo que, expandindo as forças produtivas, transborda o mercado nacional que no passado criara e que agora se torna exíguo, impondo a necessidade de encontrar novos mercados para o escoamento de mercadorias, exportação de capitais e pilhagem de recursos minerais, energéticos ou de outras matérias-primas.
Porém, o desenvolvimento do capitalismo é desigual e a relação de forças entre países, entre as diversas burguesias, está sempre a modificar-se. Hoje, assistimos a uma decadência relativa dos Estados Unidos que, embora continuem sendo a principal potência capitalista, já não dominam o mundo como o fizeram num passado recente, graças à ascensão da China, também da Rússia. Simultaneamente, vários países, aspirando ao estatuto de potências regionais, tentam equilibrar-se e jogar entre estes grandes poderes, procurando um grau de independência maior.
Estes são os processos profundos que levam os Estados Unidos a querer reforçar o seu poder na América Latina, coagindo, ameaçando e agredindo vários países para expulsar os agentes “não hemisféricos”, de acordo com a nova doutrina de Estratégia e Segurança Nacional. Ou a despejar os custos da guerra da Ucrânia em cima dos vassalos europeus, para que possam concentrar-se na “contenção” da China, que até aqui tinha na Venezuela e no Irão dois importantes fornecedores de petróleo.
Malgrado o estilo ou o feitio de Trump, para citar Shakespeare: “embora seja loucura, há nela um certo método” – o método de avançar, embora com a subtileza dum elefante numa loja de porcelanas, os interesses do imperialismo americano.
E o Irão?
“A soberba precede a queda.”- Provérbios 16:18
Para os reformistas o imperialismo é sempre uma força colossal, um cilindro que tudo esmaga. É verdade que os capitalistas concentram nas mãos um poder imenso, mas eles governam um sistema doente, molestado por contradições insolúveis. E eles cometem erros. São homens, não deuses, homens cegos pela cobiça, encadeados pelo poder e deslumbrados pelo néon do ganho imediato.
Embriagado pelo sucesso (até ver) da “mudança de regime” na Venezuela, Trump, confiando nos seus próprios preconceitos raciais como antes dele outros imperialistas, julgava que também no Irão bastava dar um pontapé na porta para todo o edifício desabar.
Ao fim de três semanas tem em mãos uma guerra sem fim palpável à vista, que ameaça atirar a economia mundial para o abismo. Esta foi uma “guerra de escolha”: não só o Irão não representava qualquer ameaça para os Estados Unidos, como o confirma a carta de demissão do diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo dos Estados Unidos, mas porque, sobretudo, o Irão buscava um entendimento negociado com os Estados Unidos. Porém, nenhuma negociação poderia oferecer aos Estados Unidos e Israel o que eles mais ambicionavam: destruir o Irão assegurar a hegemonia americana e sionista sobre o Médio Oriente. Eis-nos, por isso, em guerra!
O Coletivo Comunista Revolucionário e a nossa Internacional (a ICR) apoiamos incondicionalmente o Irão contra o imperialismo dos EUA – que é a força mais reacionária do mundo – e o seu aliado israelita. Condenamos sem reservas esta nova agressão militar contra um país que, durante décadas, tem sido sujeito a pressões, sanções e agressões por parte dos imperialistas ocidentais.
Do ponto de vista da luta dos explorados e oprimidos em todo o mundo, o desfecho mais favorável seria a derrota dos americanos e israelitas – ou seja, em termos concretos, a sua incapacidade de submeter o Irão aos seus ditames imperialistas. Tal derrota enfraqueceria Trump, Netanyahu e os respetivos poderes imperialistas. Também enfraqueceria os imperialistas europeus que apoiam o esforço de guerra israelo-americano.
Há pessoas que se poderão interrogar: “Mas e quanto ao regime iraniano? Não seria uma derrota dos americanos e israelitas uma vitória e um fortalecimento do regime dos mulás? A sua posição não equivale a apoiar este regime reacionário e ditatorial?’
De modo algum. Não temos qualquer simpatia pelo atual governo iraniano. A teocracia iraniana descarrilou a revolução de 79, massacrando milhares de comunistas para poder impor uma “república islâmica” assente sobre bases capitalistas, onde os trabalhadores e a juventude não dispõem de liberdades sindicais ou políticas, onde as mulheres ou a comunidade lgbt+ são particularmente oprimidas pela lei da sharia.
E embora o governo iraniano se oponha e choque com o imperialismo americano, fá-lo do ponto de vista dos interesses da burguesia iraniana, dos clérigos xiitas e do aparato da “guarda revolucionária”. Não façamos de Khamenei, assassinado no primeiro dia de guerra, algo que ele nunca foi: um amigo dos e das trabalhadoras iranianas.
Aqueles que em nome do “anti-imperialismo” esquecem o passado e diluem as diferenças entre a agenda destes clérigos reacionários e as aspirações revolucionárias da juventude e dos trabalhadores iranianos, Aqueles que em nome do “anti-imperialismo” esquecem o passado e diluem as diferenças entre a agenda destes clérigos reacionários e as aspirações revolucionárias da juventude e dos trabalhadores iranianos, por mais autoproclamatória e radical que aparente ser a sua retórica apenas cedem à política de colaboração de classes, política que, em última instância, está sempre votada ao fracasso.
Curiosa, embora previsivelmente, a república islâmica não foi enfraquecida, mas sim fortalecida (a curto prazo) pela agressão israelo-americana, que teve o efeito de mobilizar as massas em torno do regime. Dito isto, a nossa posição sobre esta guerra não é determinada pela natureza do regime iraniano; é determinada principalmente pela natureza imperialista da guerra que o Irão enfrenta – e pelos interesses de classe em causa.
Queremos que o regime iraniano caia – mas não queremos que essa queda seja provocada por uma guerra imperialista, pois isso só agravaria a situação das massas iranianas. Pode até levar ao desmembramento do Irão, o que Netanyahu deseja abertamente.
Nunca a mudança de regime provocada pela agressão imperialista ocidental levou à emancipação dos povos envolvidos. A situação no Afeganistão, Iraque, Líbia e Síria (entre outros) é prova disso. Em todos estes países, o povo foi mergulhado na barbárie pelas intervenções imperialistas das últimas décadas, todas organizadas sob a bandeira da “democracia”, dos “direitos humanos”, da “emancipação da mulher” e outras falsas promessas.
A nossa posição é clara: cabe ao povo iraniano, e só a eles, livrar-se do regime dos mulás. Quanto à Internacional Comunista Revolucionária, defendemos um programa revolucionário no Irão – como noutros locais: para pôr fim à exploração, pobreza e opressão, as massas iranianas terão de expropriar os seus capitalistas e embarcar na transformação socialista da sociedade. Não há solução para o seu sofrimento com base no capitalismo iraniano.
O problema central no Irão é precisamente a ausência de um partido de massas a defender um programa revolucionário. Este partido tem de ser construído – e será construído.
Por agora, uma coisa é certa: a atual agressão imperialista não avança nem por um milímetro a luta do povo iraniano pela emancipação. Só a luta dos trabalhadores em todo o mundo contra a sua própria burguesia – e contra a agressão imperialista ao Irão – pode desempenhar um papel decisivo na luta pela emancipação do povo iraniano.
É por isso que dizemos:
Mãos fora do Irão! Abaixo os imperialistas americanos, israelitas e europeus!
Fim da cedência das Base das Lajes aos americanos! Encerramento do espaço aéreo à força aérea americana!
Proibição de produção ou transporte de mercadorias, mantimentos e armamentos para o exército israelita ou americano!
Portugal fora da NATO!
Pela unidade dos trabalhadores em todo o mundo contra o imperialismo e o capitalismo!
Coletivo Comunista Revolucionário Comunistas Revolucionários de Portugal