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A enorme aposta de Trump na agressão ao Irão tornou-se num catastrófico erro de cálculo… 

ARTIGO de Jorge Martín e Ben Curry 

Bêbado pelo sucesso na Venezuela, Trump pensava que os mesmos métodos poderiam ser usados para forçar o Irão a submeter-se; que uma força naval ameaçadora a cercar o país levaria à capitulação, ou um ataque curto e contundente de decapitação provocaria uma mudança de regime através do surgimento de uma nova liderança disposta a cumprir as exigências dos imperialistas (uma ‘Delcy in Teheran’, como alguns dizem). 

Foi um erro de cálculo muito grave. Trump provavelmente acreditava nas suas próprias vanglórias, apesar dos avisos dos planeadores militares. “Porque é que não capitularam?” perguntou-se, antes de lançar uma onda de destruição sobre o Irão. 

No seu discurso de sábado, previu uma guerra de três dias, na qual a liderança de topo iraniana seria eliminada, levando a que setores do regime concordassem em cumprir a vontade do imperialismo norte-americano. Caso contrário, uma revolta popular produziria um regime pró-ocidente. 

A liderança foi decapitada, mas isso não levou à capitulação nem houve uma revolta popular. Ambas as coisas poderiam ter sido previstas. O regime entende que esta é uma luta existencial. Eles não confiavam nas negociações com os Estados Unidos – por boas razões – e tinham-se preparado para a guerra. Também se prepararam para um ataque de decapitação. Foi ativado um protocolo Descentralizado de Defesa Mosaico, dando ampla autonomia operacional às unidades locais, incluindo o lançamento de ataques com mísseis balísticos, para que os militares pudessem continuar a combater em caso de perda parcial ou total das capacidades de comando e controlo. 

Os EUA e Israel têm um poder militar massivo. Podem bombardear o Irão. Podem causar danos enormes. Além de terem matado o Líder Supremo e grande parte da liderança do restante país, praticamente desativaram a defesa aérea, atingiram alguns lançadores de mísseis, danificaram gravemente a marinha iraniana, etc. Mas será que podem forçar o Irão a submeter-se? Isso é outra questão. 

O Irão cobra um preço elevado 

Como tínhamos avisado, o Irão decidiu retaliar contra alvos em todos os países da região, particularmente nos países do Golfo, incluindo a Arábia Saudita, bem como Israel. Atingiram tanto instalações militares (bases e radares dos EUA) como infraestruturas (portos, aeroportos), especialmente em áreas económicas chave (refinarias de petróleo, instalações de gás, centros de dados). 

O objetivo é claro. Em primeiro lugar, pretendem causar o máximo de danos a estes aliados dos EUA ao ponto de pressionarem Washington a terminar o ataque ao Irão, ou até reconsiderar se vale a pena alojar bases militares americanas no seu território. 

As economias destes países baseiam-se na estabilidade e na paz, o que garante investimento estrangeiro, centros de transporte, turismo e exportações de energia. Tudo isso está agora em perigo. O encerramento do Estreito de Ormuz é um golpe enorme para a Arábia Saudita, Bahrein, Qatar, Dubai, Emirados Árabes Unidos. 

Mais do que isso, no entanto, o encerramento do Estreito de Ormuz pretende extrair um preço económico enorme dos americanos pela sua agressão. 25 por cento do petróleo marítimo global é transportado através do Estreito, bem como 20 por cento do gás natural liquefeito mundial. Além disso, o Irão atingiu a maior fábrica mundial de gás natural liquefeito (GNL) no Qatar, forçando o seu encerramento. A maior refinaria de petróleo do mundo foi atingida na Arábia Saudita. Entretanto, iniciou-se um encerramento total da produção petrolífera iraquiana. 

Isto já está a ter um grande impacto nos preços do petróleo e gás a nível global, enquanto as ações estão a cair em todo o lado. 

A Ásia é particularmente afetada. Enquanto a China acumulou grandes quantidades de petróleo e é largamente independente energeticamente, países como a Coreia do Sul, Japão e Taiwan dependem quase exclusivamente do petróleo do Médio Oriente. Os preços das ações do KOSPI da Coreia do Sul caíram mais de 18 por cento, incluindo uma queda recorde de 12 por cento num único dia na terça-feira. 

Mas talvez a maior crise de todas esteja a aproximar-se da Europa. Os preços do gás na Europa dispararam mais do que na altura do início da guerra na Ucrânia em fevereiro de 2022. O preço de referência do gás europeu, o TTF holandês, quase duplicou , passando de pouco mais de €30 por megawatt-hora para mais de €60. 

Uma guerra de desgaste 

Após o choque inicial, isto tornou-se uma guerra de desgaste entre os mísseis e drones do Irão e os sistemas de interceção dos Estados Unidos. Após a experiência da Guerra dos 12 Dias do ano passado, o Irão está plenamente consciente disso. 

Existe um fornecimento limitado dos mísseis muito caros usados nos sistemas de defesa aérea, enquanto o Irão possui um grande número de mísseis de diferentes tipos e um fornecimento quase ilimitado de drones de combate muito baratos. Um drone de ataque Shahed pode custar apenas 20.000 dólares, enquanto um míssil Patriot tem um preço superior a 4 milhões de dólares. Esta diferença de 1 a 200, nas palavras dum especialista, é como “atirar com Ferraris para parar bicicletas“. 

O Irão não perdeu a capacidade de disparar mísseis, mas parece estar a seguir uma política de conservação, enquanto dispara grandes quantidades de drones, que são muito mais difíceis de intercetar e ainda podem causar danos. Por vezes, os mísseis são acompanhados por um enxame de drones, sobrecarregando a capacidade dos sistemas de defesa aérea em intercetar os alvos eficazmente. 

Já, os estados do Golfo queixam-se do esgotamento dos stocks e estão amargurados por os EUA não serem muito transparentes com os reabastecimentos. 

Nas palavras de Suleiman Al-Aqili, analista político saudita, numa entrevista à Al Jazeera: “A América abandonou-nos e concentrou os seus sistemas de defesa na proteção de Israel, deixando os Estados do Golfo que acolhem as suas bases militares à mercê dos mísseis e drones iranianos”. 

Esse é precisamente o ponto. Ao lançar ataques a todos os aliados dos EUA ao mesmo tempo, os iranianos dizem-lhes: ‘olhem, os EUA não vos podem defender.’ 

Os Stocks de Munições dos Estados Unidos, nos níveis médio e médio superior, nunca foram superiores ou melhores“, publicou Trump furiosamente no Truth Social, “Como me foi dito hoje, temos um fornecimento praticamente ilimitado destas armas.” O facto de sentir que tem de fazer afirmações tão absurdas mostra o quanto está preocupado. Os factos contradizem as vanglórias de Trump, e os EUA estão mesmo a discutir a possibilidade de transferir os sistemas Patriot e THAAD da Coreia do Sul para o Médio Oriente. 

É claro que, tendo falhado em derrubar o regime, a Administração Trump está em desordem, sem ‘saída’. Esta é a principal razão para o caos de mensagens da administração Trump. Num dia isto é uma campanha de três dias, no outro é uma guerra eterna; um dia, sem tropas no terreno; no seguinte, não é descartado; num dia “querem negociar”, no outro “não queremos falar com eles”; um dia Marco Rubio afirma que os EUA atacaram porque os israelitas estavam prestes a agir sozinhos, no dia seguinte nega ter dito tal coisa; num dia a operação é sobre mudança de regime, no outro é sobre degradar a capacidade de mísseis iraniana. 

Esta já é uma guerra muito impopular em casa. 59% dos americanos opõem-se. Está agora a criar enormes divisões dentro da coligação e base MAGA. Isso poderia ser evitado se fosse uma campanha curta com uma vitória decisiva. Mas isso está descartado. 

Uma das razões pelas quais Trump se lançou nesta aventura foi precisamente para reforçar as suas taxas de aprovação em colapso em casa. À medida que se arrastar e começar a impactar a economia com preços mais altos da energia, vai tornar-se um pesadelo para ele. 

Impotência europeia 

A guerra também revelou a impotência das potências europeias apanhadas numa desordem patética. Não foram consultados nem informados. O Ministro dos Negócios Estrangeiros italiano estava até de férias no Dubai na altura! Ainda assim, Trump exigiu a colaboração deles e o uso de bases militares europeias. 

Starmer exemplifica a sua situação: primeiro recusou permitir o uso de bases no Reino Unido usando a desculpa da ‘legalidade’ do ataque, embora com um olho no seu eleitorado e nos seus deputados de base. Depois, em menos de 24 horas, mudou completamente de posição. Agora afirma que o Reino Unido não está envolvido no ataque ao Irão, mas apenas na defesa dos seus aliados na região, que estão a ser atacados pelo Irão. Mas certamente o Irão está a retaliar apenas porque os EUA e Israel o atacaram! 

Como já referido, a guerra teve um impacto enorme nos preços grossistas do gás na Europa – um continente que praticamente se isolou das importações baratas de gás russo, que representavam 50 por cento do seu fornecimento antes de 2022, e do aumento das compras de gás americano muito mais caro. Agora que a inflação parecia estar a diminuir um pouco, surgiu um novo choque que será pago pelas famílias da classe trabalhadora e levará a uma renovada luta de classes para defender o poder de compra dos salários. 

A posição de Pedro Sanchez merece um comentário separado. Recusou enfaticamente permitir o uso de bases militares geridas conjuntamente em Espanha para o ataque ao Irão, o que levou Trump a ameaçar “cortar todo o comércio com Espanha“. Há um forte elemento de pose na posição de Sanchez. O seu governo é fraco e depende de uma coligação muito precária de partidos que lhe dão apoio interno e externo. Ele sabe que o imperialismo dos EUA é extremamente impopular entre o seu eleitorado. 

A base da sua posição é a mesma que a dos seus parceiros europeus. Ou seja, questiona a legalidade ou não do ataque dos EUA. Mas é preciso dizer que ele é o único que realmente tomou medidas concretas como resultado. 

Continuamos profundamente céticos quanto às implicações práticas da resistência de Sanchez. O seu historial em relação a Gaza não é bom. Primeiro, disse que Espanha estava a bloquear a venda de armas a Israel, depois os jornalistas descobriram que era apenas uma questão de não conceder novas licenças de exportação. Depois, sob enorme pressão da opinião pública, declarou um embargo real à venda de armas a Israel… mas Espanha manteve-se como o maior importador europeu de armas israelitas, financiando assim a sua máquina de guerra genocida. 

Embora Sanchez tenha proibido os EUA de usarem as suas bases militares em Espanha para o ataque ao Irão, esta decisão só começou no sábado. Os EUA conseguiram usar as bases de forma muito eficaz para o reforço antes do ataque. Isso era legal ao abrigo do direito internacional? Será que Sanchez pensava que iam apenas para o Médio Oriente dar um passeio? 

Agora, o governo espanhol anunciou que enviará ajuda militar para a defesa de Chipre. Na prática, Espanha faria, portanto, parte da agressão militar imperialista contra o Irão. 

Os curdos 

Washington está a tentar montar uma estratégia para prosseguir a guerra após o fracasso do seu ataque inicial. Há rumores crescentes de uma incursão armada curda no Irão. Há, sem dúvida, um forte elemento de pensamento ilusório e vangloriosidade nisto. No entanto, o Mossad, e mais recentemente a CIA e Trump, têm tentado pressionar por uma extensão da guerra nesta direção. 

Esta semana, uma nova aliança de seis grupos curdos iranianos a operar a partir do Irão anunciou a sua união e apelou à deserção do exército iraniano. Entretanto, o próprio Trump teve uma chamada com os líderes curdos iraquianos de direita Masoud Barzani e Bafel Talabani na região curda do Iraque para tentar convencê-los a entrar na guerra. 

Apesar de serem fantoches leais do imperialismo americano, mostraram-se pouco entusiastas, e é fácil adivinhar porquê. Os iranianos já bombardearam Erbil, e em breve tornar-se-ão alvos não só do Irão, mas também de milícias alinhadas com o Irão dentro do Iraque, e do governo turco, que é extremamente hostil a qualquer separatismo curdo. 

É verdade que, se há alguma parte do Irão onde uma revolta armada contra o regime é mais provável, então é nas áreas curdas. Desde 2018, durante as repetidas revoltas contra o regime iraniano, as áreas curdas têm estado na linha da frente. Em muitos casos, grupos curdos armados conseguiram mesmo expulsar temporariamente as forças da República Islâmica. 

No entanto, as massas curdas negaram sempre as acusações da República Islâmica de que tinham intenções separatistas. Os trabalhadores e jovens avançados tinham um instinto saudável de que as forças do movimento dependiam da sua unidade com os seus irmãos e irmãs em todo o Irão, que eram a favor da queda do regime. 

É claro, no entanto, que o Mossad tem fomentado ligações com grupos armados, que se deixam manipular pelo imperialismo EUA-Israelita. 

Se tudo isto levará a algo ou não, ainda está por ver, mas já podem ser feitas duas observações. 

A primeira é que os curdos não devem confiar no imperialismo dos EUA. Em 1991, durante a primeira Guerra do Golfo, George Bush Sr. apelou aos curdos [e aos árabes xiitas dos pântanos] a levantarem-se contra Saddam Hussein. Quando o fizeram, os EUA abandonaram-nos e permitiram que fossem massacrados. Dezenas de milhares foram mortos. Mais recentemente, Washington traiu os curdos de Rojava depois de estes já não serem úteis. As lições são claras. Os direitos das nações oprimidas são apenas pequenas moedas nas maquinações das grandes potências. 

A segunda é que o objetivo final dos Estados Unidos não coincide completamente com o de Israel. Os EUA querem um regime obediente em Teerão. Os métodos que Trump usou para subjugar a Venezuela deveriam basear-se nas lições aprendidas com a mudança de regime no Iraque e na Líbia. No Irão, podem estar a cair precisamente no cenário que queriam evitar. 

Fomentar uma insurgência armada curda pode levar a uma desintegração muito confusa do país e à sua descida para um pesadelo ao estilo líbio. No entanto, isto beneficiaria Israel, que deseja a destruição e desmembramento do Irão e de qualquer outro país da região que consiga contrabalançar o seu poder. 

Temos de ser claros. Nunca a liberdade ou a democracia foram instauradas graças à agressão militar dos EUA. 

Imprudência 

Como um jogador, Trump está a deitar dinheiro bom atrás de mau, numa tentativa desesperada de recuperar a situação. Está a criar uma situação ainda mais catastrófica em que os interesses do imperialismo dos EUA sofrerão um golpe devastador. 

O bombardeamento massivo de Teerão reforçou o apoio ao regime. O assassinato de Khamenei transformou-o num mártir, ao mesmo tempo que abriu a porta a um sucessor que pode realmente desejar desenvolver armas nucleares. A manipulação imprudente da questão curda ameaça envolver a Turquia, ao mesmo tempo que mergulha o Iraque numa nova guerra civil. 

Protestos quase insurreições eclodiram no Bahrein. As embaixadas dos EUA têm de fechar em toda a região. E toda a economia mundial está a ser empurrada para um declínio. 

Para quê? 

É transparente para milhões que isto tem a ver com a dominação imperialista. Na mente de um grande número de pessoas, isto está a ser ligado ao escândalo Epstein. Somos governados por uma classe de bilionários, a ‘classe Epstein’, que não tem qualquer escrúpulo em cometer qualquer atrocidade contra pessoas comuns, dentro ou fora do país. Isto está a preparar a desintegração do movimento MAGA e uma grande viragem para a esquerda nos EUA e muito além. 

A aposta ousada de Trump ao atacar o Irão pode revelar-se um fator chave no desmoronamento de toda a sua presidência. 

Nunca foi tão fácil argumentar que devemos organizar-nos para derrubar a classe bilionária e o seu sistema capitalista imperialista, para que a humanidade possa viver em paz em qualquer lugar deste planeta. 

Dizemos claramente: mãos fora do Irão! Abaixo o imperialismo EUA-Israel! 

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