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Venezuela e o Imperialismo Norte Americano: A soberania e a revolução socialista 

Artigo de Daniel Seixas

Donald Trump bombardeou Caracas, na Venezuela, e sequestrou o seu presidente Nicolás Maduro. Muitos estão celebrando isso como uma vitória da direita. O que muitos não conseguem entender é que isso não é uma “vitória” para a América Latina de forma alguma. É uma ameaça direta a toda a região. A intervenção dos Estados Unidos na Venezuela não é um evento isolado. Ela não é motivada pela democracia, pelos direitos humanos ou pela chamada “guerra às drogas”. É mais um capítulo de uma longa e violenta história do imperialismo norte-americano.

Os Estados Unidos intervêm repetidamente em países da América Latina sempre que seus interesses econômicos ou geopolíticos estiverem em jogo. Desde um golpe de Estado no Brasil em 1964, apoiado pela CIA, à derrubada de Salvador Allende no Chile e à instalação da ditadura militar de Pinochet. O padrão é claro, sempre que um governo ameaça a hegemonia dos EUA ou os interesses capitalistas, ele se torna um alvo. A Venezuela não é exceção.

A justificativa de Trump para invadir e atacar a Venezuela se baseia na narrativa familiar e profundamente desonesta de combater cartéis e o narcotráfico. Esse argumento desmorona com até uma pesquisa mínima. A Venezuela não é o principal produtor de drogas da América do Sul nem a principal rota pela qual as drogas entram nos Estados Unidos. A Colômbia continua sendo o maior produtor de cocaína, e o México é o principal ponto de entrada das drogas no território dos EUA. Se Trump estivesse realmente comprometido em combater o narcotráfico, a Venezuela não seria seu foco.

A hipocrisia fica ainda mais evidente quando observamos as ações políticas de Trump em outros lugares. Ele perdoou o ex-presidente de Honduras, que havia sido condenado a décadas de prisão por acusações de tráfico de drogas. Isso expõe a “guerra às drogas” como uma ferramenta política, e não como uma preocupação verdadeira. Trump não se opõe ao narcotráfico, mas sim aos governos que se recusam a se submeter ao controle dos EUA.

O verdadeiro motivo por trás do ataque à Venezuela é sua riqueza natural. A Venezuela possui algumas das maiores reservas de petróleo do mundo. Trump afirmou abertamente que pretendia supervisionar o governo venezuelano e expandir a exploração de petróleo porque, em sua visão, a Venezuela não havia explorado seus recursos o suficiente. A invasão é sobre terra, petróleo e lucro e não sobre democracia.

Essa lógica trata as vidas dos trabalhadores latino-americanos (ou de outras latitudes) como descartáveis. Bombardear pequenos barcos em vez de realizar investigações, destruir infraestrutura e violar a soberania nacional revelam a mesma mentalidade. Os trabalhadores e as massas pobres não têm valor quando ficam no caminho dos interesses imperialistas dos EUA.

Esse padrão não se limita, de todo, à América Latina. Os Estados Unidos seguiram a mesma estratégia no Oriente Médio. Durante a Guerra Fria, os EUA armaram, financiaram e treinaram grupos militantes para lutar contra a União Soviética, especialmente no Afeganistão. Décadas depois, retornaram a essas mesmas regiões sob o pretexto de combater o terrorismo. O mesmo terrorismo que ajudaram a criar. Países inteiros foram destruídos. Escolas, hospitais, bibliotecas e bairros civis foram bombardeados. Crianças foram mortas. Tudo isso foi justificado por narrativas de “segurança”, “terrorismo” ou “atividade ilegal”.

A mesma lógica imperial agora está sendo aplicada à Venezuela. Primeiro, desestabilizar. Depois, justificar a violência. Por fim, extrair recursos. A América Latina sofre com esse sistema há gerações. Cuba permanece sob bloqueio e sanções por resistir ao controle dos EUA. O Chile volta a ver a ascensão de políticas da era Pinochet. As liberdades democráticas do Brasil foram destruídas no passado com o apoio dos EUA. E agora a Venezuela está sob ataque militar direto.

Mas a história também mostra resistência. A Revolução Cubana marcou uma das primeiras vezes em que a América Latina conseguiu reagir com sucesso contra o imperialismo dos EUA. Essa resistência inspirou gerações em todo o continente e é nas lições da revolução cubana e da revolução bolivariana que devemos encontrar as respostas para os desafios e lutas de Hoje, quando a América Latina se encontra novamente em uma encruzilhada. 

A revolução tem de ser permanente e internacional. Por mais heroico que seja um povo, sozinho não terá chance contra o imperialismo. A Venezuela foi atacada e o que fizeram os seus supostos aliados, a Rússia e a China? Absolutamente nada! Os únicos aliados dos trabalhadores cubanos e venezuelanos, a única força capaz de derrotar o imperialismo é a classe trabalhadora internacional em luta pela revolução socialista mundial, incluindo os trabalhadores dos EUA, que também são explorados pelo mesmo sistema e que têm os mesmos interesses que os seus irmãos de classe ao sul do Rio Grande.

Sob o domínio da burguesia, os países da América Latina estão condenados a serem capachos dos Estados Unidos, pois os capitalistas dos países dominados estão ligados por mil e um fios ao imperialismo. Como disse o Che Guevara: “por outra parte, as burguesias autóctones perderam toda a sua capacidade de oposição ao imperialismo – se alguma vez a tiveram – e são só seguidistas do mesmo. Não há mais mudanças a fazer, ou revolução socialista ou caricatura da revolução.”

A revolução cubana foi um exemplo cristalino disso mesmo! Toda a expetativa de Fidel Castro e dos seus companheiros em fazer uma revolução democrática, patriótica e anti-imperialista em Cuba rapidamente chocou com a oposição da burguesia cubana que, de conluio com o imperialismo americano tentou afogar a revolução em sangue. A proclamação e assunção do caminho socialista da revolução esteve estreitamente ligado ao desembarque da Baía dos Porcos. Porém, a revolução ficou isolada numa pequena ilha, assediada e acossada pelos imperialistas. Hoje, mais isolada do que nunca, a revolução cubana enfrenta uma ameaça existencial. Para sobreviver, a revolução tem de se espalhar pela América Latina e aos próprios EUA. O internacionalismo proletário não é uma questão moral, é uma necessidade imperiosa. 

A luta pela soberania dos países da América Latina esta intimamente vinculada à luta pela revolução socialista pela única classe verdadeiramente anti-imperialista até ao fim: a classe trabalhadora.

A revolução bolivariana também nos mostra como a revolução não pode ficar a meio do caminho: toda a tentativa de conciliação com a classe dominante e com o imperialismo está condenada ao fracasso. Os capitalistas locais e os imperialistas verão nisso não qualquer “espírito democrático”, mas fraqueza e farão dessas concessões oportunidades para conspirar.

Na Venezuela o movimento bolivariano não levou a revolução até ao fim, expropriando os capitalistas e latifundiários. Terminou com o pior dos mundos: algumas nacionalizações (administradas pela burocracia, não pelos trabalhadores), um sector cooperativo, algumas fábricas e fazendas importantes em autogestão, mas tudo isso operando debaixo das leis do mercado e sujeito a sabotagens constantes dos capitalistas. Em momento algum se colocou a totalidade dos meios de produção sob controle operário e coordenados por uma planificação democrática da economia.

Quando o preço do petróleo caiu e as sanções norte-americanas apertaram, os avanços sociais da revolução começaram a retroceder. Nunca tendo rompido com o capitalismo, Maduro colocou em cima dos ombros da classe trabalhadora o custo da crise. Devolveu a antigos proprietários terras e fábricas, privatizou, criou “zonas económicas especiais”. Julgando-se um líder realista e pragmático apelou ao patriotismo da burguesia venezuelana, procurou o apoio não da classe trabalhadora internacional, mas os investimentos dos capitalistas chineses e russos. 

Tudo o que conseguiu foi garrotear a revolução, erodir o apoio social ao bolivarianismo, alienar importantes setores da classe trabalhadora e das massas pobres da Venezuela. Durante um quarto de século o imperialismo americano tentou derrubar o governo venezuelano. Que tenha agora conseguido raptar o presidente do país é apenas consequência da debilidade política de Maduro.

Mas nem tudo está perdido. Marx dizia “por vezes a revolução necessita do chicote da contrarrevolução” A força mais reacionária do planeta, o governo americano, julgando ser uma presa fácil atacou a Venezuela. Quem sabe se não partirá os dentes…? No passado a classe trabalhadora venezuelana conseguiu derrotar várias tentativas de golpe. Há forças e potencial, mas é preciso uma liderança revolucionária que transforme a guerra contra o imperialismo americano, a luta pela autodeterminação, numa guerra social: o programa revolucionário é tão importante como fuzil! 

Se a Venezuela cair, nenhum país da região estará seguro. Trump já ameaçou a Colômbia. A classe trabalhadora da América Latina já derramou sangue demais pelo poder e pelo lucro dos EUA e dos seus lacaios locais. As classes trabalhadoras latino-americanas não devem e não podem aceitar isso novamente.

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