Artigo de Gabriel Torres
Desde antes do atual governo Trump, os Estados Unidos têm aplicado tarifas comerciais agressivas por todo o mundo. Em 2019, impuseram taxas sobre o aço brasileiro; em 2023, foi a vez do açúcar. China, Rússia, Venezuela, Irão e muitos outros países que desafiaram a hegemonia estadunidense enfrentam sanções, barreiras económicas e até intervenções militares.
Esta é a política desesperada de um império em decadência, que procura manter o seu domínio sobre o sistema financeiro mundial, o controlo de rotas comerciais estratégicas e a exploração global dos recursos naturais e da mão de obra para assegurar a sua posição dominante.
A vitória de Trump em 2024 representou uma aceleração vertiginosa deste processo que tem como pano de fundo a crise do capitalismo internacional: o “bolo” do mercado mundial está a minguar, e, portanto, a luta pelo seu controlo acirra-se. Com a intensificação das guerras comerciais, Trump lançou o mundo, já mergulhado na crise crónica do capitalismo decadente, num turbilhão de instabilidade ainda maior.
No entanto, a retórica antissistema de Trump e desejo nostálgico de restaurar o imperialismo americano aos seus dias de glória, quando era uma potência dinâmica emergindo da sombra do declínio britânico, não têm base material para se concretizar hoje. O mundo mudou, e por mais que Trump queira reviver o passado, a realidade política e económica já não o permite.
Enquanto o império estadunidense lentamente se decompõe, um grupo de países liderados pela China e pela Rússia buscam independência de Washington e parecem imunes às políticas de chantagem.
Afastam-se cada vez mais do dólar e atraem mais países que querem tirar partido do declínio dos EUA e das alternativas criadas neste contexto: os financiamentos para infraestrutura via banco dos BRICS, comércio entre países com uso de moedas locais em substituição ao dólar, a ainda em desenvolvimento, moeda dos BRICS para o comércio internacional e até iniciativas de pagamentos eletrónicos locais como o PIX brasileiro.
Estas alternativas ainda têm alcance limitado e não desafiam decisivamente o domínio do dólar, porém já incomodam o velho império.
Isso demonstra, por um lado, o enorme poder que os EUA e a sua moeda ainda conservam, e, por outro, as importantes contradições internas dos países emergentes que compõem os BRICS, pois esses países também estão sujeitos às leis do capitalismo na sua fase de declínio. No entanto, o capitalismo chinês, que é mais dinâmico e vibrante que o capitalismo americano, está a atrair mais países para sua órbita, que estão se tornando alvos da ira de Trump.
China e Rússia foram arrastados pelo imperialismo estadunidense e os seus lacaios europeus para guerras comercias sem fim e não tiveram outra alternativa que não fosse estabelecer uma série de acordos de cooperação para poderem defender os seus interesses.
Estes acordos cristalizaram-se em iniciativas em que os dois países, ao mesmo tempo, cooperam e competem no território euroasiático e no chamado “sul global”. A Nova Rota da Seda, as parcerias militares e económicas entre Pequim e Moscovo, a Rota do Ártico, o corredor Norte-Sul e a expansão dos BRICS+ são iniciativas lideraras pela China e pela Rússia que se sobrepõem e que começam a incomodar com o imperialismo estadunidense.
Paralelamente, a política interna estadunidense evidencia a crescente fragilidade de Trump, que assiste ao início do esvaziamento do seu apoio.
No plano externo, o presidente estadunidense está a usar a extrema-direita internacional como vetores para as suas agendas, explorando o alinhamento incondicional de aliados em diversos países. No Brasil, o bolsonarismo funciona como um braço do trumpismo, seguindo obedientemente as diretrizes de Washington. A extrema beligerância contra a Venezuela, a redução de tarifas com os EUA, a retórica anti chinesa e as políticas antivacina durante a pandemia, no primeiro mandato de Bolsonaro, são exemplos claros desta realção servil.
Recentemente, Trump aumentou em 50% as tarifas sobre vários produtos brasileiros, um claro ato de agressão. A falsa justificação inicial – um alegado défice comercia que de facto é um superavit – rapidamente deu lugar a um cinismo descarado: “Porque eu posso”.
No entanto, há aqui um conflito económico que devemos sublinhar: o agronegócio brasileiro e estadunidense estão em concorrência. A reposta reciproca da China às tarifas dos EUA aumentou o potencial de exportação de produtos brasileiros ao mercado chinês e os estadunidenses querem evitar que a concorrência brasileira tire partido disso.
Há também um caráter aparentemente ideológico, como revelou Steve Bannon, e confirmou Trump em outra ocasião: as taxas seriam reduzidas se Bolsonaro fosse absolvido nos seus processos judiciais. Esta chantagem absurda e aparentemente ideológica permite-lhe manter aliados no Brasil e noutros lugares do seu lado, enquadrando as tarifas como um mero conflito político, enquanto continua a perseguir o que é de facto, uma guerra e os objetivos materiais do imperialismo dos EUA a ela associados.
O que significaria exatamente se Bolsonaro, o “cão de ataque de Trump”, fosse solto no Brasil? Embora os detalhes da negociata entre Trump e o clã Bolsonaro permaneçam obscuros, especula-se que uma vitória do bolsonarismo nas próximas eleições levaria à entrega da Amazónia e das terras raras do Brasil ao controlo estadunidense, além do desmantelamento do PIX [Sistema de pagamentos do Brasil], da saída do Brasil dos BRICS e a contenção nas relações comerciais com a China.
Este último ponto é crucial: o Brasil é uma das dez maiores economias mundiais e o principal parceiro comercial da China na América Latina. A sua submissão aos EUA seria uma derrota estratégica para Pequim. O que não significaria o fim das trocas comerciais entre o Brasil e a China, coisa que aconteceu com grande intensidade mesmo no período em que Bolsonaro foi presidente.
A grande imprensa nos EUA e a suas sucursais disfarçadas de média independente no Brasil, reflectem os interesses do establishment financeiro. Embora critiquem a política agressiva de Trump e de Bolsonaro, não questionam os objetivos fundamentais do imperialismo estadunidense: o afastamento do Brasil dos BRICS, a exploração dos recursos naturais do Brasil pelos EUA e a manutenção do dólar como moeda hegemónica.
O que o establishment estadunidense realmente deseja no Brasil é uma “terceira via” – um governo dócil, que se submeta completamente aos interesses de Washington. No entanto, tal desejo está a cada dia mais distante de ser realizado, já que uma fração significativa da burguesia brasileira se apoia com uma perna no imperialismo americano que faz água e com a outra no emergente imperialismo chinês e luta para manter este equilíbrio.
Isso acontece devido à agressividade do governo Trump que ensejou um dilema no seio da burguesia brasileira: priorizar o comércio com os EUA as custas de um arrefecimento comercial com a China ou favorecer as relações comerciais com a China e reduzir as exportações aos EUA?
Recentemente, o capitalismo brasileiro estava numa posição vantajosa, as tarifas de 10% anunciadas por Trump anteriormente, favoreciam o Brasil, pois eram menores que as dos seus concorrentes. Paralelamente, com a guerra comercial EUA x China em andamento, o Brasil ganhava terreno no mercado chinês (por exemplo, aumentando as exportações de carne e soja para a China).
Esta contradição se manifesta como uma efervescência de choques políticos, declarações contraditórias e mudanças de posição é insolúvel para a burguesia brasileira que invariavelmente ficará a reboque de interesses antagónicos.
O grupo bolsonarista, marcado por ignorância e reacionarismo, sustenta-se no agronegócio, na pequena burguesia, na pilhagem de recursos naturais, nos juros extorsivos e no paraíso fiscal brasileiro para a elite económica. Apesar da retórica bolsonarista anti chinesa e de submissão total aos Estados Unidos, a sua base no agronegócio é dependente em grande medida das exportações para a China e dos fertilizantes russos, enquanto outro grupo lucra com a venda de produtos industrializados chineses.
Está contradição entre a retórica e a prática se verificou quando Bolsonaro foi presidente do Brasil: Agiu como um cão de guarda a ladrar em nome dos interesses estadunidenses, porém sem dentes para romper os laços com a China ou com a Rússia.
A outra fração da burguesia nacional brasileira faz parte do frágil setor industrial que, com as hesitações do atual governo, tenta se reerguer e aproveitar a até então posição “neutra” do Brasil diante dos dois rivais imperialistas — estratégia semelhante à adotada por Getúlio Vargas durante a Segunda Guerra Mundial.
Lula deseja ocupar os espaços económicos deixados pela guerra comercial entre EUA e China com produtos brasileiros. Podemos usar o exemplo da soja: em 2024 quase metade da exportação da soja estadunidense teve como destino a China. Neste cenário, estima-se que as exportações de soja brasileira para a China, que já eram bem significativas, aumentem em mais de 7 mil milhões de dólares no próximo período.
Por outro lado, a China perde parte do mercado estadunidense de produtos de alta tecnologia, como é o exemplo dos carros elétricos. Neste segmento, o governo Lula abre o Brasil para a exportação de capital chinês, permitindo a implantação de fábricas montadoras de carros elétricos em solo brasileiro. De facto, essas políticas permitiram a aceleração do crescimento da indústria no Brasil, que cresceu o dobro da média mundial em 2024.
Nos últimos 14 anos, a China investiu 66 mil milhões de dólares no Brasil e, por conta de novos acordos firmados, se antevê um forte crescimento nos investimentos chineses até pelo menos 2032. Estes investimentos visam criar rotas alternativas e ampliar mercados para o escoamento da gigantesca produção industrial chinesa para a América Latina e, na outra via, a exportação da enorme produção de matéria-prima latino-americana para a China.
Para que tamanho fluxo de mercadorias se realize, investimentos em infraestrutura estão a ser financiados, na maioria, pelo estado chinês. O projeto mais ambicioso é a ligação dos oceanos Pacífico e Atlântico num esforço de criar uma alternativa ao canal do Panamá e também com um foco maior no mercado do chamado “sul global”: O projeto ainda em estudo pretende conectar o recém-inaugurado mega porto peruano de Chancay ao porto de Ilhéus na Bahia (Brasil), que passa por importantes obras de ampliação e modernização.
Para além deste projeto, existem também uma série de construções, renovações, ampliações e modernizações de ferrovias, portos, aeroportos e estradas por toda a América Latina.
Neste cenário, a margem de manobra do Brasil no capitalismo limita-se à escolha entre a dependência desta ou daquela potência imperialista. A burguesia nacional, está amarrada por mil fios ao imperialismo estadunidense. Porém, também está cada vez mais ligada e dependente do imperialismo chinês. Lula, por mais que queira defender a soberania nacional, nunca foi – e nunca será – um revolucionário. A soberania dentro dos marcos do capitalismo, é a soberania dos burgueses brasileiros para fazerem negócios não só com Washington, mas também com Pequim e Moscovo, a custa sempre da classe trabalhadora.
A história de Lula é marcada pela conciliação de classes, e o seu atual governo de unidade nacional com partidos burgueses dilui ainda mais qualquer política genuinamente progressista, tornando-se refém de câmaras municipais, governos estaduais e um Congresso dominados pela direita. Lula, neste momento, tenta usar a retórica anti-imperialista para inflamar o sentimento nacionalista do povo brasileiro e com o seu apoio ter mais margem de manobra política no mandato atual e se consolidar como candidato para disputa do próximo pleito.
A nova e instável ordem “multipolar” que se desenha no calor da crise crónica do capitalismo mundial — apesar dos argumentos de alguns que o apresentam como menos autoritário e repressivo, oferecendo mais espaço para que as nações mais fracas afirmem a sua soberania nacional – também não trará ganhos substanciais e duradouros para o proletariado, pelo contrário, trará guerras, tarifas, fanatismo nacionalista e militarismo, sobretudo nos países dependentes esmagados entre os dois blocos.
Só uma revolução liderada pela classe trabalhadora brasileira e internacional poderá libertar o país das garras do imperialismo – seja ele estadunidense ou chinês — e trazer desenvolvimento e paz genuínos para os povos do mundo. Enquanto o Brasil permanecer dentro dos limites do capitalismo, estará condenado a ser um jogador secundário no tabuleiro geopolítico, oscilando entre a submissão a um império decadente e a um império emergente. A verdadeira emancipação só virá com a rutura revolucionária
Coletivo Comunista Revolucionário Comunistas Revolucionários de Portugal