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Charlie Kirk: um influencer do sistema

Artigo de Juniper

A 10 de Setembro, Charlie Kirk, um dos maiores “influencers” reacionários que enriqueceu a incitar ódio e violência contra as camadas mais vulneráveis da sociedade, apologista do genocídio em Gaza, amigo pessoal do próprio Netanyahu e conselheiro de Trump, foi assassinado numa universidade enquanto (suprema ironia!) defendia que os tiroteios escolares eram “um preço a pagar” pela banalização do porte e uso de armas nos Estados Unidos. Se dizem que se conhece Deus nos últimos momentos de vida, não haverá dúvidas que, pelo menos, Kirk conheceu e recolheu os frutos da sua própria ideologia, num mórbido ato de justiça cármica. 

Rapidamente todo o campo da direita populista aproveitou este assassinato para fabricar um “Maga Martyr”. A lavagem póstuma da imagem de Kirk tem sido um movimento poderoso feito à custa do apagamento das vítimas dos preconceitos mascarados de ideias que ele defendia, dos adolescentes mortos em tiroteios escolares aos feminicídios, das pessoas transgénero que se suicidaram ou morreram às mãos da própria família aos trabalhadores racializados que foram brutalizados pela polícia…  

Porém, a sua reabilitação post mortem foi feita por TODA a burguesia. Ainda há dias e de modo unânime o Senado americano (alô Bernie Sanders?) votou a favor da criação do “Dia Nacional da Memória de Charlie Kirk” erguendo-o a epítome da “liberdade de expressão”.  Pois afinal, mesmo sendo um dos mais reconhecidos porta-voz da ala mais conservadora, não defendia, porém, em forma de palestra, a violência inerente ao próprio sistema capitalista que beneficia também aos “liberais”? 

É duma profunda hipocrisia que da “esquerda” à direita se clame que é inadmissível a violência na vida política americana quando todo o edifício capitalista americano se construiu sob uma montanha de crimes e cadáveres: do extermínio dos indígenas americanos ao genocídio em Gaza, da escravatura acarinhada pelos “pais fundadores” ao assassinato de Malcom X, Fred Hampton ou Salvador Allende. Tanto interna como externamente, a classe dominante norte-americana e o seu establishment político não hesitaram em recorrer aos métodos mais sujos e violentos para alcançarem os seus fins. 

A realidade é que as várias opressões têm uma base material: historicamente elas emergem das sociedades classistas e visam perpetuar o domínio das classes dominantes que não pode ser feito apenas através do uso da força bruta, mas servindo-se também de todo um aparato ideológico, cultural e mental. 

A mensagem de ódio que Charlie Kirk pregava não era meramente abstrata ou fruto dos seus preconceitos individuais: ela respondia à necessidade que os capitalistas têm de manter a classe trabalhadora simultaneamente dividia e distraída com as chamadas “guerra culturais”, jogando o penúltimo contra o último, enquanto explora e oprime a todos.  

Contudo, para a esquerda reformista o racismo, o sexismo ou a homofobia são questões morais. Mariana Mortágua amiúde fala na “decência contra o ódio”: nós somos os bons e eles são os maus, e se conseguirmos demonstrar isso através das nossas ações morais e discursos virtuosos, iremos seguramente triunfar.  Com o assassinato de Charlie Kirk, contudo, o Bloco de esquerda foi ainda um pouco mais longe. Sob o (estranho) título “Morreu um leão” (?!?) foi-nos recomendado que “talvez continuar a sentir empatia quando tipos como Kirk pedem que deixemos de o fazer seja uma arma muito melhor do que uma espingarda para combater esta gente”. Ora portanto e traduzindo: se oferecermos a outra face, se sentirmos compaixão pelo opressor, pelo capitalista que nos explora, talvez sejamos capazes de lhe tocar o coração. Perdoem-nos a onomatopeia, mas… UAU! 

Isto é obviamente falso e não é através do martírio moral que iremos conseguir qualquer objetivo, que não seja a perfomatividade vazia e a capitulação à moral burguesa! Não vamos nós recriminar ninguém que tenha tido uma reação visceral á morte de Charlie Kirk, porque o que pretendemos é destacar e nunca esquecer as vítimas da sua “liberdade de expressão”: a classe trabalhadora que é migrante, racializada, mulher, gay ou trans; os setores mais oprimidos, explorados e invisíveis da sociedade, tanto nos Estados Unidos como para lá das suas fronteiras 

Nós somos revolucionários e queremos mudar o mundo, mas a solução não é o moralismo da esquerda identitária que procura, no quadro do sistema capitalista, mitigar os piores aspetos da opressão, através de narrativas alternativas, medidas simbólicas e apagando as diferenças de classe. Mas tampouco a resposta pode ser o terrorismo individual.  

O assassinato de Kirk foi uma bênção para Trump, cuja popularidade estava em queda pelo falhanço total de todas as suas promessas eleitorais. Numa altura em que a base da MAGA estava a começar a fraturar-se em linhas de classe, este assassinato vem recolocar em primeiro plano as guerras culturais em detrimento da luta de classes. A persistente inflação, o endividamento dos estudantes, a medicina privada, a epidemia de opiáceos, todas as contradições, problemas e aberrações do capitalismo não vão desaparecer mas, por um breve período, ficarão em segundo plano. 

Ao terrorismo não opomos a “empatia, mas a luta de massas. Uma greve, por singela que seja, fortalece o movimento, eleva a consciência do trabalhador, treina a classe para a luta organizada e aumenta a sua predisposição para lutar. Na verdade, mesmo quando “bem-sucedido”, mesmo quando até mais raramente expõe as contradições de classe como o atentado alegadamente perpetrado por Luigi Mangione; o ato terrorista acaba no fim por alienar a classe trabalhadora, remetendo-a à passividade, à espera que um anjo vingador, resolva para si as suas próprias tarefas históricas. 

A morte dum reacionário produz unicamente uma reação policial e a substituição dum patrão por outro, ou dum propagandista por outro. Se para deitar abaixo o sistema bastasse alguém (ou um pequeno grupo conspiratório) armar-se de pistolas e bombas, há muito que o sistema teria ruído.  Os atos terroristas terão como inevitável resposta o endurecimento da repressão do Estado. É verdade que isso está sucedendo em todos os países capitalistas, seja às mãos de políticos reacionários como Trump, liberais como Macron ou até “trabalhistas” como Starmer, pois dada a crise em que estão mergulhados, a cenoura tem de dar lugar ao chicote. Porém, o terrorismo é o álibi perfeito para justificar a repressão do Estado e para criar os mecanismos e ferramentas que, cedo ou tarde, serão chamados a ser usados contra o conjunto do movimento operário e popular. 

E nós queremos justiça, não vingança! A fatura que temos para a apresentar ao capitalismo por todos os seus crimes e humilhações é demasiado alta para que possa ser paga pela queda desta ou daquela peça facilmente substituída. É toda a engrenagem que tem de ser demolida!  Como certa vez escreveu Trotsky, “não apenas um solitário vingador, mas só um grande movimento de massas revolucionário é que pode libertar os oprimidos”. 

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