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A Fome do Capitalismo por Mão de Obra Barata: A Experiência de um Trabalhador Imigrante

Artigo de Daniel Seixas

Cresci na classe média no Rio de Janeiro. Frequentava uma escola privada, não era de elite nem luxuosa, mas era a melhor que os meus pais podiam pagar. A nossa vida era estável. Íamos de férias de vez em quando. A minha mãe trabalhava num emprego corporativo, o meu pai fazia qualquer trabalho em que pudesse para ganhar dinheiro: design gráfico, táxi, catering. Sobreviver não era algo que eu pensava todos os dias. Aos 13 anos, saí do Brasil sem compreensão política e sem qualquer ideia do que queria fazer da minha vida. Como muitos, disseram-me que a educação e o esforço seriam suficientes.

Em poucos anos, comecei a trabalhar treze horas por dia sem qualquer proteção laboral.
Esta não é uma história sobre más decisões ou fracasso individual. É sobre como o capitalismo produz deslocamento, sofrimento e exploração, e depois os apresenta como responsabilidade pessoal.

A decisão da minha mãe de migrar surgiu depois do colapso da estabilidade. Quando perdeu o emprego corporativo e as tentativas de abrir um restaurante falharam durante o declínio econômico do Brasil, a migração tornou-se uma necessidade. A decisão é frequentemente vista como “voluntária”, mas essa palavra perde sentido quando a alternativa é o declínio e a insegurança.

O que se chama migração é muitas vezes um deslocamento econômico forçado. O capital circula livremente através das fronteiras, extraindo valor do Sul, enquanto os trabalhadores ficam com os restos que sobram. O capitalismo cria crises e depois recruta mão de obra dos escombros.

Quando cheguei aos Estados Unidos em 2018, acreditei na propaganda. As casas eram maiores. As ruas pareciam mais limpas. Eu pensava que a pobreza não existia ali. Isso passou rapidamente. Na escola, vi a pobreza como algo mau e, em alguns casos, pior do que aquilo que conhecia no Brasil. Os EUA não eliminam a pobreza; eles ignoram, escondem e gerem-na através da dívida, da precariedade e do medo.

O capitalismo não respeita a educação, a dignidade ou o potencial humano, a menos que possam ser convertidos em lucro. A minha mãe é psicóloga formada, mas muito antes de se mudar, já foi forçada a abandonar o seu diploma para sobreviver. Nos Estados Unidos, até essa estabilidade limitada desapareceu. O trabalho disponível para ela era limpar casas de banho em estações de autocarro e comboio, limpar centros comunitários em bairros fechados e entregar comida. Trabalho que mantém a sociedade a funcionar, mas que continua desvalorizado. Ela trabalhava de seis a sete dias por semana. O capitalismo não “falhou” ao reconhecer a sua educação, funcionou exatamente como planejado. Reduziu uma trabalhadora qualificada a mão de obra barata e substituível, porque a rentabilidade depende de desperdiçar capacidade humana em vez de a libertar.

Comecei a trabalhar aos 14 anos. No início, era a part-time apenas fins de semana e alguns dias da semana depois da escola e do treino de futebol, para poder comprar pequenas coisas e deixar de pedir dinheiro à minha mãe. À medida que fui crescendo, as horas aumentaram, as responsabilidades acumularam-se. O que começou como “ajuda” tornou-se uma necessidade.

Aos 17 anos, trabalhava num restaurante aberto das 10h às 22h, muitas vezes mais. Chegava cedo para abrir e ficava até tarde para fechar. Não havia contrato, benefícios, pagamento de horas extras ou dias de doença garantidos. Se eu podia descansar ou não dependia de quão desesperadamente a gerência precisava do meu trabalho.

Um dia, enquanto preparava comida com equipamentos mal conservados, cortei profundamente o meu polegar, atravessando pele e unha, arrancando um pedaço de carne. No dia seguinte, no meu dia de folga, recebi uma chamada do meu gerente ameaçando me despedir se não fosse trabalhar. Disseram-me que um “corte pequeno” não era desculpa. O meu corpo era descartável. A minha saúde era um incômodo.

Quando finalmente saí do emprego, após avisar com antecedência, o meu último pagamento estava em falta quase 100 dólares. Quando perguntei ao meu chefe sobre isso, me disseram que eu deveria ser grato por sequer ter sido contratado. Me Lembrarando de que, como imigrante, eu era um “risco” para a empresa e que, se alguém descobrisse que estavam a empregar alguém “ilegal”, poderiam enfrentar consequências.

Na adolescência, trabalhei para ajudar a pagar contas e contribuir para a renda. A educação não era algo que eu rejeitasse, era algo fora da minha realidade. A faculdade era muito cara; não havia como estudar mantendo uma semana de trabalho de 48 horas. O capitalismo força os jovens a escolher entre educação e sobrevivência, e depois os pune por escolherem sobreviver. É assim que se reproduz uma classe trabalhadora pouco educada e sobrecarregada, geração após geração.

Uma vez trabalhei ao lado de um imigrante venezuelano chamado Rene. Ele me contou sobre a sua jornada de sete meses até aos Estados Unidos, caminhando, pedindo boleia, escondido em camiões. Nos EUA, estava sem-abrigo, vivendo em barracas ou carros quando possível. Não falava inglês, não tinha família, poupanças ou contatos. Tudo o que tinha era a sua vontade de trabalhar. Essa disposição foi recompensada com humilhação, instabilidade e condições brutais. Através de Rene, percebi que esta não era uma experiência pessoal, fazia parte de uma hierarquia de exploração.

Mais tarde, em Portugal, trabalhei em vinhedos ao lado de imigrantes africanos e do Médio Oriente. Mais uma vez, com baixo salário, sem contrato e em más condições. Éramos transportados de manhã cedo em carrinhas para os campos. Um dia, esqueci a minha garrafa de água na carrinha e disseram-me que deveria ter sido mais cuidadoso ou esperar até ao almoço. A produtividade vinha antes dos corpos. Me disseram que não podia ajoelhar me enquanto colhia uvas porque não era “produtivo”.

Embora Portugal tivesse leis laborais melhores, para o capitalismo sobreviver, é necessário mão de obra barata, condições de trabalho precárias e divisão na classe trabalhadora. Leis laborais mais fortes não eliminam a exploração quando o sistema depende da precariedade para funcionar.

Depois destas experiências, comecei a estudar capitalismo. Aprendi que a exploração não é uma falha do sistema, é o próprio sistema. O capitalismo depende de condições de trabalho ruins, salários reprimidos e uma força laboral permanentemente insegura. Depende de culpar imigrantes e minorias para que os trabalhadores não se unam contra aqueles que lucram com o seu sofrimento. O capitalismo não vai corrigir a exploração dos imigrantes porque explorá-los é lucrativo. Não vai corrigir o trabalho juvenil porque o desespero mantém os salários baixos, não vai corrigir a educação porque a ignorância é mais fácil de controlar. Este sistema não precisa de simpatia. Precisa de ser enfrentado. Enquanto o lucro depender de mão de obra barata e descartável, imigrantes como eu continuarão sendo explorados, não por acidente, mas pela estrutura do sistema capitalista.

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